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terça-feira, 23 de outubro de 2012

Não é só poesia: é porrada!

Copiei texto e imagem de Mães de Maio
(via Ralf Rickli)

 
DA PAZ (E DO "AMOR")
Eu não sou da paz.

Não sou mesmo não. Não sou. 
Paz é coisa de rico. 
Não visto camiseta nenhuma, não, senhor. 
Não solto pomba nenhuma, não, senhor. 
Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. 
A paz é uma desgraça. Uma desgraça.

Carregar essa rosa. Boba na mão. 
Nada a ver. Vou não. 
Não vou fazer essa cara. Chapada. 
Não vou rezar. 
Eu é que não vou tomar a praça. 
Nessa multidão. A paz não resolve nada. 
A paz marcha. Para onde marcha? 
A paz fica bonita na televisão. 
Viu aquele ator?

Se quiser, vá você, diacho. 
Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. 
A paz é muito organizada. 
Muito certinha, tadinha. 
A paz tem hora marcada. 
Vem governador participar. 
E prefeito. 
E senador. E até jogador. 
Vou não. Não vou.

A paz é perda de tempo. 
E o tanto que eu tenho para fazer hoje. 
Arroz e feijão. Arroz e feijão. 
Sem contar a costura. 
Meu juízo não está bom. 
A paz me deixa doente. 
Sabe como é? Sem disposição. 
Sinto muito. Sinto. 
A paz não vai estragar o meu domingo.

A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. 
Está vendo? Um bando de gente. 
Dentro dessa fila demente. 
A paz é muito chata. 
A paz é uma bosta. 
Não fede nem cheira. 
A paz parece brincadeira. 
A paz é coisa de criança. 
Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. 
A paz é muito falsa. 
A paz é uma senhora. 
Que nunca olhou na minha cara. 
Sabe a madame? 
A paz não mora no meu tanque. 
A paz é muito branca. 
A paz é pálida. 
A paz precisa de sangue.

Já disse. Não quero. 
Não vou a nenhum passeio. 
A nenhuma passeata. Não saio. 
Não movo uma palha. Nem morta. 
Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. 
Eu não abro. Eu não deixo entrar. 
A paz está proibida. 
A paz só aparece nessas horas. 
Em que a guerra é transferida. Viu? 
Agora é que a cidade se organiza. 
Para salvar a pele de quem? 
A minha é que não é. 
Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. 
Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém.
Não vou. Não vou.

Sabe de uma coisa: eles que se lasquem. 
É. Eles que caminhem. A tarde inteira. 
Porque eu já cansei. 
Eu não tenho mais paciência. Não tenho. 
A paz parece que está rindo de mim. 
Reparou? Com todos os terços. Com todos os nervos. 
Dentes estridentes. Reparou? 
Vou fazer mais o quê, hein? Hein?

Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim? 
Eu é que não vou levar a foto do menino 
para ficar exibindo lá embaixo. 
Carregando na avenida a minha ferida. 
Marchar não vou, ao lado de polícia. 
Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó. 
Uma saudade. Sabe? 
Uma dor na vista. 
Um cisco no peito. Sem fim. 
Ai que dor! 
Dor. Dor. Dor.

A minha vontade é sair gritando. 
Urrando. Soltando tiro. Juro. 
Meu Jesus! Matando todo mundo. 
É. Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza. 
A paz é que é culpada. 
Sabe, não sabe?

A paz é que não deixa.

(pelo poeta-guerrêro Marcelino Freire: Salve!)

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