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domingo, 23 de junho de 2013

Eu voltei: a dor foi tanta que eu pensei que morreria

Copiei do meu amigo Walter Silva

E tem gente que pensa que o bairrismo morreu.
Outro dia um garoto me mandou ir matar uns "bode" no meio de uma discussão, numa evidente nota de desprezo pelo fato de eu ser nordestino.
Mas o bairrismo é um preconceito etnocêntrico muito fuleiro; não chega a ser xenofobia, mas parece pretender alçar tais alturas.
É mais uma ofensa rasteira que propriamente um ato de ódio; é como xingar a nossa mãe; parece que a ofensa é ainda mais profunda quanto maior é o amor pela mãe.
Você nasce e cresce aborrecendo-se com tudo e todos na sua terra, sonhando com o dia em que vai partir para longe e fechar enfim a porteira atrás de si; você fica mais velho e descobre então que não pode viver longe da sua casa.
Há quatros eu tentei ir embora; eu me despedi dos meus, e por um instante virei as costas no aeroporto e vi a minha mãe desaparecer rápido no meio dos estranhos, o olhar pesaroso e sentido, as lágrimas brotando sem parar. E com ela se iam a minha história, o meu lugar, os beijos nas manhãs dos meus aniversários, o café e o cuscuz, o calor escaldante, o céu de turmalina, a flor branca do mandacaru, os espinhos do xique xique, a muralha dourada das serras no pôr do sol, as chuvas de inverno, os cajus vermelhos, o pó das ruas, o bosque do juremal, as pedras e as bocas de furnas, o cheiro acre da tacaca, o sapo cururu, o sotaque manhoso do povo, os "Oxentes" e "Oxi" e "vixi Maria", e as deliciosas variações; "armaria","Afemaria", "Vigi Maria"....
Eu voltei alguns dias depois; a dor foi tanta que eu pensei que morreria.

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