SOBRE O BLOGUEIRO

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Antonina, Litoral do Paraná, Palestine
Petroleiro aposentado e petista no exílio, usuário dos óculos de pangloss, da gloriosa pomada belladona, da emulsão scott e das pílulas do doutor ross, considero o suflê de chuchu apenas vã tentativa de assar o ar e, erguido em retumbante sucesso físico, descobri que uma batata distraída não passa de um tubérculo desatento. Entre sinos bimbalhantes, pássaros pipilantes, vereadores esotéricos, profetas do passado e áulicos feitos na china, persigo o consenso alegórico e meus dias escorrem em relativo sossego. Comendo minhas goiabinhas regulamentares, busco a tranqüilidade siamesa e quero ser presidente por um dia para assim entender as aflições das camadas menos favorecidas pelas propinas democráticas.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Chorume religioso

Copiei a imagem daqui

Ao fim e ao cabo, devo dizer que vocês que clamam por respeito à fé das pessoas aceitaram a chantagem milenar das religiões as quais, todas elas, nos desrespeitam cotidianamente.
Desrespeitam e matam as mulheres e o povo LGBTT, desrespeitam e matam os valores e a cultura os povos originários quando saem em expedições para catequizá-los, em pleno século XXI, como fazem os lazarentos evangélicos e sua sede de sangue, no Brasil e na África.
Desrespeitam todos nós quando pretendem impor a todos seus valores morais arcaicos, atrasados e mortais.
Com efeito, as pessoas não são iguais. Há crentes que não são misóginos, ou machistas, ou LGBTT-fóbicos mas, puta que os pariu, nos cultos e funções religiosas, sentam-se ao lado de jaguaras misóginos, machistas e lgbtt-fóbicos. 
Mas as religiões são iguais: lixões fedidos a céu aberto, com toneladas de machismo, sexismo, lgbtt-fobia, racismo, misoginia, genocídio, intolerância, etc e tal e cousa e lousa, incluindo o silêncio cúmplice dos crentes que não não pensam assim.
Não quero ser respeitado.
Quero apenas que as pessoas reconheçam que jogo muito limpo.
Religiões não merecem respeito. Definitivamente.
(Crente: aquele que crê. Pode ser católico, evangélico, budista ou muçulmano. Ou espírita, umbandista, ou qualquer outra religião de merda).

sábado, 10 de janeiro de 2015

Porradas!

Slaugther: Rocky Mountain Way
 

Helloween: Hocus Pocus
 

Poeminha para quem é LGBTT-fóbico

A fé obtusa apaga as luzes? 
Nós acendemos de novo!

Eles fecham portas e janelas? 
Nós escancaramos!

Eles odeiam? 
Nós amamos!

Eles se borram de medo? 
Nós aceitamos!

Eles se benzem? 
Nós acarinhamos!

Eles ameaçam?
Nós lutamos!

Eles são muitos?
Nós somos o mundo!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Califa Ibn Rousseff investe contra a liberdade de imprensa no Brasil

Copiei de Pedro Munhoz

Começam a pulular por aqui as "análises" que comparam o atentado na França com a inglória, sangrenta e cruel perseguição (rysos) que a Califa Ibn Rousseff tem engendrado contra a liberdade de imprensa no Brasil.
De repente, todo mundo aqui no Gigante Acordado é Charlie. Mainardi, o enfant terrible de meia idade cuja função intelectual é desfilar impropérios rococós contra o Partido dos Trabalhadores lá em Veneza, transmutou-se em Charlie. Felipe Moura Brasil, colunista de Veja e editor daquele livro do Mestre Olavo sobre ser um idiota também é Charlie. La Sheherazade, musa do senso comum, campeã do cristianismo de várzea e rainha dos comentaristas de portais de notícia, adivinhem! também é Charlie.
Não vi se o Constantino foi declarado Charlie ou não, mas tenho certeza que ele é Charlie. Gentilli é Charlie, Lobão é Charlie, somos todos Charlie.
Nesse país onde a presidenta, pessoalmente, sai por aí disparando tiros de Kalishnikov contra todos que a criticam; onde as pessoas não ousam criticar o PT por medo da morte; onde as redes de televisão foram alvo de atentados a bomba por parte de militantes petistas mascarados, se você não for Charlie, meu amigo, você está contra o Charlie.
Agora, peço a licença dos meus amigos Charlies para assistir um pouquinho de Globonews, enquanto eu me indigno com a falta de liberdade de expressão em meu país. Pela atenção, obrigado.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Como funciona a regulação da mídia em outros países

Copiei de DCM
Publicado na BBC Brasil

O PT aprovou uma resolução política que pede a criação de um novo marco regulatório para a mídia. O presidente do partido, Rui Falcão, afirmou que a presidente Dilma Rousseff se comprometeu a fazer uma consulta pública sobre a questão no segundo semestre.

Tema polêmico no Brasil, a regulação da mídia ocorre de formas distintas pelo mundo.

Nos Estados Unidos e na Argentina, as normas regulam principalmente temas econômicos – é este tipo de regulação que a presidente Dilma diz querer discutir no próximo mandato.

No Reino Unido, um escândalo de escutas ilegais realizadas por tabloides levou ao estabelecimento de regras polêmicas para jornais, revistas e sites.

Na Venezuela, opositores apontam para restrições à liberdade de expressão, mas movimentos sociais dizem que a lei aumentou o número de meios de comunicação comunitários.

A BBC Brasil mostra como funcionam as regras nestes quatro países.

EUA: Foco é regulação econômica

Os Estados Unidos não têm uma Lei de Imprensa, e a regulamentação da mídia no país é feita por diferentes legislações.

No caso das telecomunicações (rádio, TV aberta e a cabo, internet e telefonia móvel e fixa), a regulação está a cargo da Federal Communications Commission (Comissão Federal de Comunicações, ou FCC, na sigla em inglês), agência independente do governo criada em 1934.

A FCC se dedica principalmente a regular o mercado, com foco nas questões econômicas. O órgão é responsável por outorgar concessões.

A propriedade cruzada de meios de comunicação é proibida. Assim, uma mesma empresa não pode ser proprietária de um jornal e de uma estação de TV ou de rádio na mesma cidade.

Há também regras que impõem certos limites sobre o número de estações de TV e rádio que uma mesma empresa pode controlar em determinado mercado. Esses limites variam de acordo com o tamanho do mercado e têm o objetivo de impedir que um mesmo grupo controle totalmente a audiência em determinado local.

No caso do conteúdo, há no país o entendimento de que este deve ser regulado pelo próprio mercado e pela opinião pública.

No entanto, a FCC age em casos de abuso, quando há a percepção de descumprimento de regras, como a que proíbe a exibição de cenas “indecentes” na TV.

Um dos casos notórios ocorreu em 2004, na exibição do Super Bowl – a final da temporada de futebol americano –, evento que costuma ter a maior audiência televisiva do país.

No show do intervalo, transmitido pela rede CBS, o cantor Justin Timberlake puxou a blusa de Janet Jackson, deixando aparecer seu seio.

Apesar de a imagem ter sido mostrada por menos de um segundo, a FCC multou a CBS em US$ 550 mil – decisão que depois foi revertida.

Outra regra determina que canais de TV dediquem pelo menos três horas semanais a programas infantis educativos.

A atuação da FCC é acompanhada pelo Congresso americano, a quem a agência presta contas periodicamente. Além disso, o Judiciário também pode intervir.

No caso de mídia impressa, a ideia é que mercado e opinião pública se encarreguem da regulação. Casos de difamação, calúnia e outros tipos de injúria costumam gerar processos na Justiça e resultar na aplicação de multas pesadas.

Venezuela: Debate acalorado sobre liberdade de imprensa

Protestos, golpe de Estado e polarização política. Esse é o contexto que antecede a aprovação da lei de meios de comunicação na Venezuela.

A lei Resorte – Responsabilidade Social em Rádio e Televisão – entrou em vigor em 2005, três anos após o chamado “golpe midiático” contra o então presidente Hugo Chávez. A mídia apoiou abertamente o golpe contra Chávez três anos antes e não noticiou as manifestações populares que se seguiram, pedindo a sua volta ao poder.

A atuação dos meios de comunicação privados nesse episódio teria sido utilizada como motor para uma contraofensiva do Executivo para regular a atuação da imprensa venezuelana.

Um dos pontos mais polêmicos da aplicação da lei ocorreu em 2007, quando a concessão do canal RCTV – o mais assumido canal de oposição – para operar no sinal aberto não foi renovada. Críticos acusaram o governo de retaliação política.

De acordo com a lei, cabe ao Estado decidir se renova ou não a concessão de frequências de rádio e televisão. O tempo máximo de cada período caiu de 25 para 15 anos, prorrogáveis ou não. A hereditariedade no setor está proibida.

Outro aspecto controvertido é o que proíbe a transmissão de eventos ao vivo que possam “incitar a violência” e a “desordem pública”. O principal fator de polêmica se deve a que a decisão sobre esses riscos seja feita por uma comissão do governo sem participação de representantes da mídia.

“Analisar o que pode ou não incitar a violência é muito difícil em um país onde há uma confrontação entre dois modelos políticos e onde os meios estavam organizados em dois grupos, pró e antigoverno”, afirmou à BBC Brasil Mariclein Stelling, do Observatório Global de Meios de Comunicação.

“Mas enquanto os meios forem utilizados com fins políticos, a lei será necessária”, opinou.

Em 2010, a lei foi reformada e seu alcance passou a abranger também a internet. Um dos pontos polêmicos é a punição prevista para o provedor de internet ou página que não restrinja “sem demora” o acesso a mensagens que incitem o ódio.

“É uma lei regressiva e contraria o direito à liberdade de expressão”, avalia Marianela Balbi, diretora do IPYS (Instituto Prensa y Sociedad). Na sua opinião, a lei é desnecessária. “Há crimes tipificados no Código Penal e em outros regulamentos que podem ser aplicados sem restringir a liberdade de expressão.”

A norma, no entanto, é aplaudida por movimentos sociais como um passo importante para a democratização dos meios de comunicação e como uma via que permitiu a expansão de meios comunitários.

Estão em atividade 37 TVs e 244 rádios comunitárias no país. A maioria recebeu equipamentos e formação técnica do próprio governo para começar a operar.

A violação da lei Resorte determina sanções como a suspensão do sinal por 72 horas ou a revogação da concessão no caso de reincidentes. A lei ainda estabelece que 50% da programação deve ser reservada a produções nacionais.

Reino Unido: Regras duras após abusos de tabloides

Classificada pela presidente Dilma Rousseff como uma das “mais duras” do mundo, a legislação do Reino Unido para regulação da mídia surgiu na esteira do escândalo de escutas ilegais feitas por tabloides britânicos.

A lei visa à regulação da atividade de jornais e revistas. Além dela, há outra regulação, mais antiga, para emissoras de TV e rádio.

Em 2011, uma comissão judicial, coordenada pelo juiz Brian Leveson, passou a analisar desvios de ética na mídia após um escândalo envolvendo principalmente tabloides. Em um dos casos, um jornal hackeou o telefone de uma estudante assassinada e apagou mensagens da caixa eletrônica, o que deu à família e à polícia a esperança de que ela pudesse estar viva.

O relatório final do chamado inquérito Leveson afirmou que a imprensa “causou dificuldades reais e, algumas vezes, estragos na vida de pessoas inocentes, cujos direitos e liberdades foram desprezados”.

Um dos desdobramentos da investigação foi a criação, em novembro deste ano, do Press Recognition Panel, painel que supervisiona um órgão de autorregulação e tem poder de aplicar multas de até um milhão de libras (R$ 4 milhões) às publicações, além de impor direito de resposta e correções a jornais, revistas e site noticiosos.

A filiação dos veículos ao novo sistema não é obrigatória, mas há diversos “incentivos” para que façam parte: por exemplo, o veículo que não integrar o órgão precisa pagar as custas judiciais dos processos de acusação, mesmo se sair vencedor.

À época da criação do órgão, os principais jornais britânicos disseram que o modelo poderia sujeitar os veículos à interferência indevida de políticos.

Até o momento, apenas o Daily Telegraph aderiu ao novo sistema. A expectativa é que o Financial Times não se envolva, mas os outros dois grandes jornais, Independent e Guardian, deixaram a possibilidade de adesão em aberto. O órgão deve entrar em funcionanmento pleno no ano que vem.

Emissoras de rádio e TV, por sua vez, são reguladas por outro órgão, o Ofcom. O órgão também é responsável pela telefonia, serviços postais e internet.

Entre as atribuições do Ofcom estão garantir a pluralidade da programação de TVs e rádios, garantir que o público não seja exposto a material ofensivo, que as pessoas sejam protegidas de tratamento injusto nos programas, e que tenham sua privacidade invadida.

Argentina: Lei gera atritos entre governo e mídia

Na Argentina, a chamada Ley de Medios foi aprovada em outubro de 2009, durante o primeiro governo da presidente Cristina Kirchner. Mas ainda hoje sua aplicação ainda gera polêmicas.

A lei define regras para emissoras de TV e rádio. O objetivo é a “regulação dos serviços de comunicação” e o desenvolvimento de mecanismos destinados à “promoção, desconcentração e fomento da concorrência com o fim de baratear, democratizar e universalizar” a comunicação.

A lei fixa o limite de licenças e área de atuação do setor por cada pessoa que assuma um investimento. Os prestadores de serviço de TV por assinatura não poderão ser titulares de um serviço de TV em uma mesma região. A lei também estabelece limites de alcance de audiência para TV a cabo e emissoras privadas. Já a TV pública tem alcance nacional.

A legislação define também que os canais abertos de televisão deverão “emitir no mínimo 60% de produção nacional”, “30% de produção própria que inclua noticiários locais” e, no caso das TVs nas cidades com mais de um 1,5 milhão de habitantes, “pelo menos 30% de produção local independente”.

A lei surgiu em meio à disputa entre o governo e os meios de comunicação críticos do “kirchnerismo” – a dinastia política que governa o país desde Nestor Kirchner, antecessor e marido da atual presidente, que governou entre 2003 e 2007 e morreu em 2010.

Ao defender a criação da lei, a presidente e outras autoridades do governo argumentaram que a comunicação é “um direito humano” e que é necessário defender “o fim dos monopólios” e a “pluralidade de vozes”. Em meio à discussão, o ex-presidente Kirchner ergueu cartazes em atos públicos contra o maior grupo de mídia da Argentina, o grupo Clarín. Nos cartazes, a frase “o Clarín mente”.

Os dois artigos da Lei de Meios que mais geraram polêmicas se referem à “pluralidade de licenças” e a restrição das “propriedades paralelas dos grupos de imprensa no país”.

Para opositores e para as empresas de mídia, as medidas atentam contra “o direito adquirido”, a “propriedade privada” e a “liberdade de expressão”. Porém em outubro do ano passado, após uma série de disputas judiciais, a Suprema Corte de Justiça entendeu que as normas são constitucionais.

Segundo opositores, o Clarín foi o mais afetado pela medida, já que deveria abriar mão de mais da metade das suas cerca de 200 concessões de TV a cabo e aberto em diversas regiões do país. Outros grupos de mídia também teriam de fazer o mesmo.

Em diferentes ocasiões, representantes do Grupo Clarín sugeriram, porém, que a lei os afetava por questões políticas e acabaria “beneficiando grupos estrangeiros”, incluindo telefônicas com licenças de TVs no país.

Após a manutenção da legislação pela Justiça argentina, o Grupo Clarín entregou um “plano de adequação voluntária” à lei, mas o caso ainda está nos tribunais.

Oração do carreirista bem sucedido na grande mídia brasileira

O Serviço de Alto Falantes Ornitorrinco cumprimenta os presentes nesta fétida quermesse em louvor de São Roberto Marinho dos Sonegadores e de Santo Otávio Frias da Ditabranda.
Copiei a imagem daqui
Merval Pereira, jaguarinha sarnento
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Copiei de Nilson Lage

Meu companheiro Patrão, eu Te amo.
Por Ti, companheiro, abdico de todos os meus sonhos.
Apoiado nos mais renomados teóricos, abandonarei a impossível objetividade por Ti, Patrão, que me sustentas e me dás oportunidade única de conviver em glória com o poder dos oráculos.
Se, por bondade, me deres a graça de um salário melhor e me honrares colocando-me no aquário onde mora o poder, juro perante Ti, apagarei todos os pensamentos que possam ofender Tuas sensibilíssimas e nobres Alma e Bolso. E mais: 
Vigiarei aqueles que intentarem matérias desviantes e pautas inconvenientes.
Se persistirem, os acrescerei à listagem do próximo passaralho, que submeterei à Tua augusta e sábia decisão.
Como perdigueiro, caçarei Teus inimigos camuflados de repórteres e chargistas.
Se me deres a honra de participar das reuniões que iluminas, farei, conTigo, o contraponto certo, discordando sempre em detalhes e até mesmo dando espaço para que me corrijas e , assim, se amplie Teu amor-próprio e confirme-se a correta intuição que flui de Tua superior inteligência.
Se, para meu delírio supremo, concederes-me espaço para emitir opinião própria, buscarei alguma que Te agrade, ó Nobre Senhor, e o farei com criatividade enorme, em nome da paixão que me une a Ti.
Mentirei, se preciso for.
Caluniarei, se perceber que isso Te serve.
Espero, assim, alcançar o sucesso – talvez um acento na Academia de Letras ou um lugar à Tua direita em algum de Teus memoráveis jantares.
Serás sempre o alvo de minha dedicação, até que me despeças
E, se por acaso isso ocorrer, sairei de cabeça erguida, ciente do dever cumprido e disposto a a outro patrão servir, como Te sirvo.
Com a mesma dedicação e empenho.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Os mortos na insana, nociva e sanguinária "Guerra às Drogas"

Copiei da LEAP BRASIL  

Durante a recente campanha para as eleições ao cargo de governador do Estado do Rio de Janeiro, um dos candidatos disse durante um debate: “Policial morto; farda em outro”. A frase não chega a ser uma novidade. Novidade foi ter sido verbalizada com naturalidade e sem nenhum repúdio imediato, quer por parte da imprensa, quer por parte da maioria das entidades de defesa de direitos humanos.
Pouco depois, em 28 de novembro, podiam-se ler os seguintes títulos de reportagens sobre a morte do cabo do Exército, Michel Mikami, no complexo de favelas da Maré: “Baleado na cabeça, cabo se torna o primeiro militar morto na Maré” (www. http://oglobo.globo.com/rio/baleado-na-cabeca-cabo-se-torna-primeiro-militar-morto-na-mare-14694567) ou “Rio tem primeira morte de militar do Exército após pacificação” (http://brasil.estadao.com.br/noticias/rio-de-janeiro,rio-tem-primeira-morte-de-militar-do-exercito-apos-pacificacao,1599576). Também aqui sobressai a naturalidade com que a morte é noticiada. Os títulos sugerem que se trata apenas de uma primeira morte; uma morte esperada; a primeira de outras mortes futuras.
Em cada um dos últimos onze meses, em média, nove policiais militares foram assassinados — 85 em dias de folga e 18 em serviço, de janeiro até às 21h do dia 26 de novembro. Em 2013, 111 agentes morreram assassinados. Estes números devem ser constantemente atualizados, já que as mortes não param.
As mortes de policiais ou, agora, de militar, que, ocupando favelas, foi levado a atuar em desviada função policial, assim como as mortes de moradores dessas mesmas favelas, são faces de uma mesma moeda: a insana, nociva e sanguinária política de “guerra às drogas”. 
Enquanto entidades de direitos humanos se preocuparem apenas com o fim dos autos de resistência, com a existência de polícias militares, com busca de verdades de fatos acontecidos há quarenta anos; enquanto falarem de genocídio de jovens negros, sem tocar no real motivo da matança, sem reivindicar o fim da insana, nociva e sanguinária política de “guerra às drogas”, nada fará sentido. 
Os jovens negros – que são 77% dos jovens, com idade entre 15 e 24 anos, vítimas de homicídios dolosos anualmente no país – e os policiais que tombam em serviço ou fora dele não morrem por acaso. Não há um mal misterioso no ar que tira vidas. A principal causa dessas mortes tem nome: a insana, nociva e sanguinária política de “guerra às drogas”. 
Bairros são criminalizados; pessoas são marcadas como alvo; e tudo continua intocado e não dito nas salas onde as decisões que arbitram sobre vida e morte são tomadas.
Quem morre são sempre os mesmos: de um lado, policiais e agora militar de baixa patente; de outro, apontados “traficantes” de chinelos e bermudas. Todos facilmente repostos por seus empregadores. Morrem ainda os tantos inocentes, moradores das favelas, ocupadas ou não, pegos no fogo cruzado.
Desde a proibição da produção, do comércio e do consumo das arbitrariamente selecionadas drogas tornadas ilícitas, essa guerra nunca surtiu efeito: morrem mais pessoas; encarceram-se sobreviventes; apreendem-se mais e mais drogas tornadas ilícitas – e essas se tornam cada vez mais potentes, mais diversificadas e mais acessíveis. Qual o sentido da manutenção desta política? Quem lucra com isso?
Enquanto funcionários da Organização das Nações Unidas e governantes e legisladores dos Estados que a formam, arbitrariamente decidem, na segurança de seus gabinetes, quais drogas devem ser postas na ilegalidade, enquanto esses funcionários, governantes e legisladores, na segurança de seus gabinetes, ignoram o evidente fracasso de sua destrutiva política e insistem em aplicar as criminalizadoras convenções internacionais e leis nacionais sobre as substâncias proibidas, colegas de farda enterram seus companheiros, mães e pais enterram seus filhos, companheiras/os ficam viúvas/os e nenhuma peça nesse tabuleiro é alterada de posição.
Enquanto a disputa toma contornos de guerra, com vinganças pessoais e até institucionais, nada muda. São sempre os mesmos que morrem. Nessa guerra não há vencedores. Só há perdedores.
Ouçamos a palavra de um policial, que conhece bem essa inútil, insana, nociva e sanguinária guerra: “A guerra, ao contrário do que mostram os filmes, não é heroica. Ela é suja. Ela fede. Eu participei de um filme. Participei de uma cena, que retratava a morte do herói do filme. A cena foi muito real, muito bem feita. Foi filmada em uma favela. Mas, ao final da cena, fiquei com a sensação de que faltava alguma coisa. Faltava. O sangue cenográfico não fede. O sangue de verdade tem um cheiro muito forte. Dentre as inúmeras razões por que sou a favor do fim do proibicionismo, é que eu estou cansado dessa guerra. Eu gostaria muito que essa insanidade, que essa guerra, que não interessa aos policiais, que não interessa à sociedade, tenha fim. Estou muito cansado disso. Estou muito cansado de ver policiais morrendo. Essa guerra é suja. Não tem como mexer com sujeira sem sujar as mãos.” Inspetor Francisco Chao, porta-voz da LEAP, no Seminário “Drogas: Legalização + Controle” (http://www.leapbrasil.com.br/noticias/informes?ano=2014&i=310&mes=11).  

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Carta Aberta ao Sr. Ary Fontoura e aos mais de 40 milhões de reacionários que manifestaram seu ódio durante todo esse tempo


O Serviço de Alto Falantes Ornitorrinco, desapetrechado de altos saberes, pede licença aos ocupantes dos andares superiores das teorias para mostrar esta manifestação que muita gente tratará de desqualificar: para que servem os saberes instintivos do povo?
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Copiei de Diário do Brasil
Ary01012015


(por Danny Oliveira – reprodução autorizada)

Creio que os senhores não saberão quem sou, mas isso não vem ao caso. Sou uma jovem de 26 anos de idade,filha de um retirante nordestino que deixou sua terra, no árido sertão da Bahia, em busca de um ideal na capital paulista. Isso foi no ano de 1982, ele foi ficando, casou-se, teve três filhos e agora tem um neto. Destes três filhos, tive o orgulho de ser a filha do meio, e a única menina.

Vivi as épocas mais negras que podemos imaginar na política. Nasci no ano da nova Constituição, 1988, e vivi a época do impeachment de Fernando Collor, os desmandos de corrupção e a bandalheira feita com o nosso dinheiro na era Fernando Henrique. Somente vi uma luz para muitos dos jovens da minha idade com a chegada de um nordestino que fez muito por nós. Um metalúrgico que nos colocou no centro do mundo, que ajudou a cada um de nós: Luiz Inácio Lula da Silva.

Senhores, até o ano de 2002 muitos dos nossos jovens não tinham acesso à faculdade, não podiam fazer um curso de intercâmbio fora do País. Sequer podiam andar de avião, era muito caro e só podiam andar em aeroportos os grã-finos. Filho de faxineira em universidade? Só se trabalhasse na faxina ou na cantina. Sequer podíamos andar em shopping centers. Hoje, graças ao Prouni e ao ENEM, muitos jovens tem acesso ao Ensino Superior tão sonhado, podem enfim desenvolver uma carreira como tanto sonham. Muitos amigos meus puderam fazer intercâmbio e aprender novos idiomas e conhecer novas culturas. Posso até entrar em um shopping center na hora em que eu quiser. E isso só começou a ser proporcionado para nós com a chegada de Lula.

Minha primeira eleição como eleitora foi exatamente em 2006, e como meus familiares, depositei meu voto e minha confiança em Lula. E ele honrou meu voto e minha confiança. Não me arrependi.

Em 2010 entrei para a militância petista. Sei tudo o que passei militando em prol dos meus direitos e dos meus companheiros e amigos: quase fui presa, sofri tentativa de assassinato durante uma conversa com feirantes. Sei o que passei, e honrei meu voto. Vi a presidente Dilma, uma mulher que luta pelos direitos do povo, ser eleita democraticamente, e merecidamente. Mais uma vez tive meu voto e minha confiança honrados como deveriam. Uma mulher que lutou para tirar nosso País das mãos de generais que matavam, torturavam, estupravam e até se vangloriavam das maldades que cometiam, orgulhavam-se de suas “subversividades” e nos julgavam subversivos! E hoje, com a democracia instalada outra vez no nosso País, vejo vocês pedindo a volta dessa desumanidade, e isso me entristece muito.

Dilma honrou meu voto e fez muito por nós: construiu universidades, criou o PRONATEC, abriu novos horizontes aos jovens e fez o mesmo que o presidente Lula fez. Abriu seus braços aos mais necessitados e ao povo do Nordeste que carrego no meu sangue com muito orgulho, e fez muito por cada nordestino e nordestina que queria apenas que alguém os olhasse com os olhos da alma. E agora vem os senhores, membros da elite golpista e da imprensa manipuladora e sem o mínimo de imparcialidade, enxovalhar o nome de quem começou a trabalhar do lado certo da pirâmide (o lado de baixo) e tentar nos imputar um playboy com um passado negro, que vive à sombra da memória de seu avô e que não tem um mínimo de respeito pelas mulheres, manteve o povo de seu Estado (Minas Gerais) sob o jugo de uma ditadura elitista, deixando seus conterrâneos em uma situação complicada, construindo aeroportos particulares. Como os senhores querem nos impingir um ladrão e condenar quem tanto fez por nós? Estão fazendo o mesmo que foi feito anteriormente: condenando Jesus à morte e soltando Barrabás.

Hoje, orgulhosamente, vejo a mulher em quem orgulhosamente depositei meu voto de confiança assumir por mais 4 anos seu cargo de merecimento: o de comandante da nossa Pátria Amada. A mulher que tanto fez por mim continuará fazendo muito mais, e agora fará mais ainda: lutará pelas mulheres, pelas crianças, negros, indígenas, comunidade LGBT. Lutará por aqueles que não tem voz ativa, e será a nossa voz. E enquanto isso, vocês perdem tempo querendo atacá-la.

A vocês, que exigem que ela renunciem, um pedido: RENUNCIEM AO BRASIL. Não vomitem mais seu ódio contra quem trabalha, e procurem apoiá-la para que faça seu mandato ser o melhor, não percam tempo falando aos quatro ventos e depois voltando atrás.

Ao sr. Ary Fontoura, um grande ator por quem eu tinha grande admiração e respeito, manifesto minha vergonha. O senhor, por muitos anos, lutou contra a ditadura ao lado do saudoso e magnânimo Mário Lago, e lutou muito para que se instalasse a democracia em nosso País. E hoje fica ao lado de uma emissora que alimentou a subversividade e a intolerância dos ditadores, e pede que este período volte. Ora,sr. Ary, peço gentilmente ao senhor que respeite nossa Pátria e não diga que fala por todos os brasileiros. Pois, por mim e por muitos outros, o senhor jamais vai falar. O único que fala por nós é Deus, e o senhor não poderá falar por Ele.

Aos membros do Partido da Imprensa Golpista, não adianta propagarem seus ódios, preconceitos e mentiras. O povo brasileiro já tem sua consciência definida, e todos sabem a verdade: o povo escolheu Dilma Rousseff por sua história impoluta, e usar de falsos artifícios para distorcer sua história já não convence mais. Parem enquanto é tempo.

E, por favor, deixem-na governar e sejam menos intolerantes.

Assinado: Uma das mais de 54 milhões de pessoas que elegeram Dilma Rousseff sua representante máxima.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Por um lugar além da faixa

mísseis israelenses no Campo de Refugiados de Burij, na Faixa de Gaza ...
(imagem copiada daqui)

(Conto classificado em 4º lugar no 
XIV Concurso de Contos da Fundação Petros - 2014)

Sonia Fernandes

Alzira avistou a mansão dos Mariones enquanto evitava rasgar suas botas nas carcaças de veículos do século vinte que ainda se encontravam nas ruas, abandonados à sua própria sorte, impedindo a passagem dos alterados e de quem mais se aventurasse. A casa continuava intacta entre os escombros da cidade, a torre do terraço com as luzes acesas. Tentou não encarar o grupo de pessoas que assava alguma coisa num canto do jardim dos Mariones. O cheiro de carne queimada impregnava o ar. Deu a volta e tomou outro rumo, pelo lado oposto, cobrindo os cabelos e parte do rosto com o pano negro das mulheres que Geíza lhe havia prometido dar, agora seu para sempre, junto com os equipamentos da missão e os doze mantos de lã. Afora a torre, só a lua iluminava a rua e o jardim da casa. O toque de recolher já havia soado há uma hora e ela sabia que se fosse pega estaria perdida. 
Encontrou a porta dos fundos aberta, como Geíza lhe disse que estaria. Com cautela, para não fazer nenhum barulho que despertasse os alterados, achou o mapa na valise e o abriu sobre a mesa. A cozinha estava deserta. Era ampla e confortável, a luz da lua vazava de uma claraboia alta. Os quartos onde eles mantinham os meninos ficava no primeiro andar. Acendeu a lanterninha de neon que trazia presa a um colar comprido e que guardava bem junto ao corpo, relíquia herdada de sua mãe e que lhe havia salvo de muitos perigos nas noites sem lua. Viu que as escadas ficavam no final do corredor depois da cozinha. Tinha algum tempo. A noite avançava devagar e só iria terminar em um dia gregoriano, mas a luz fluorescente da faixa do mar começaria em algumas horas.
Começou a montar o artefato. Havia coberto todas as peças com uma tinta de plástico, para que não fossem detectadas pelos transmissores da Família. O plano de montagem era complicado e exigia tempo. Estava com fome, mas resolveu adiar as pílulas para quando a bomba estivesse pronta. Os Mariones mantinham seguranças americanos em vários postos da mansão e um deles ficava logo depois da porta da cozinha. Tinha que pensar em se livrar de todos eles, os robôs mantinham uma linha fina entre si, se um desligasse todos viriam ao mesmo tempo. Seu coração começou a bater muito forte e ela limpou o suor da testa com o manto. Pensou nas crianças presas no quarto e foi acalmando as batidas, concentrada nas mãos que montavam as peças, uma a uma, devagar e com cuidado para evitar qualquer som.
Ninguém ia à cozinha naquela hora. Era uma informação passada por Geíza, que conhecia todos os habitantes da casa e havia vivido ali os últimos cinco anos gregorianos, cozinhando para eles e anotando o que precisava para quando chegasse a hora. “Nada vai lhe impedir, Alzira” – ela lhe havia dito. Tinha que dar conta, ela sabia, e agitou de novo a lanterna, que emitiu uma luz mais forte sobre o plano de montagem. 
Estava pronta. Cinco pequenas esferas unidas por uma corrente magnética. A faixa do mar fluorescente iria começar a emitir luz em duas horas. Agora precisava apressar-se, pois o êxito dependia do tempo planejado pelas mulheres. Abriu a porta, devagar, e os robôs dos Mariones começaram a se mover. O celular da porta apontava, como um antigo jogo de pec, os pequenos pontos redondos se locomovendo em sua direção. Deixou que eles se enfileirassem e apertou o gatilho do celular, para receber o código que destravaria a fechadura. Sabia de cor, Geíza lhe havia feito memorizar os números e letras que seriam usadas na última semana. Os robôs pararam onde estavam, no corredor que levava às escadas, e a luz de seus corpos diminuiu até se apagar completamente, um tempo que durou alguns segundos e que, para ela, pareceram uma eternidade. 
Como estariam elas agora? Os Mariones as haviam caçado no esconderijo sob a terra, em uma parte do túnel imenso que seus ancestrais construíram antes da guerra final, a fim de guardar as armas e os mantimentos para os sobreviventes, as últimas mulheres adultas e o que havia restado das crianças. Agora já nada disso lhe importava. Pensava só nelas, presas no quarto do primeiro andar, onde aguardavam o término das negociações entre os Mariones e os eleitos.
Subiu devagar as escadas, evitando ruídos que poderiam acordar os alterados, que serviam de seguranças humanos e dormiam nos outros quartos. O mapa de Geíza mostrava uma porta à sua direita como o local onde mantinham os meninos sobreviventes. Viu seus rostos apavorados quando abriu a porta do quarto. Uma luz fraca vinda da torre invadia a janela de grades e iluminava todo o lugar e eles estavam amontados num canto, sem roupas, os corpos judiados. Fez um sinal para que não falassem nada. Eles a conheciam, haviam passado por muitas coisas juntos, no túnel. Obedeciam. Arrumou-os em fila e apontou a porta aberta, as escadas, o corredor. Todo o plano dependia de não despertar os alterados. Pensou que eles não sobreviveriam ao ar gelado da noite sem os mantos que trazia, envoltos um a um em seu corpo desnutrido. Foi retirando todos e envolvendo os meninos, até que só restasse o seu próprio manto, o pano da última burca que retirou do corpo de Geíza, depois que ela havia morrido. Sabia que agora podia tomar as pílulas da fome, mas deu-as aos meninos. Assemi era o mais velho deles. Entregou-lhe o mapa de destino e a lanterna presa ao colar. Uma barca esperava nas cais do porto e eles deviam alcançá-la antes do mar começar a luzir. Os homens do sul os levariam embora, para junto das meninas que os aguardavam já em segurança, na terra prometida pelo profeta.
Quando a última sombra atravessou a porta da cozinha e se perdeu entre os escombros e as carcaças dos veículos, entrou de novo na mansão e se dirigiu aos quartos dos Mariones, as esferas presas entre seus dedos, o olhar vazio de emoções.

Viajantes

O Serviço de Alto Falantes Ornitorrinco inaugura 2015 em grande estilo, com esse conto de Sonia Fernandes do Nascimento, escritora genial e várias vezes premiada que, por pura generosidade, vive comigo desde o século passado. Ei-la, em 2010, no seu aniversário de 23 anos.


Copiei de Meus Contos, Teus Poemas

Numa daquelas noites em que a gente não consegue dormir e que um desassossego invade o coração, causando o impulso de levantar, abrir a janela e contemplar a noite escura, ou descer pelas escadas, abrir a porta da rua e sair andando até encontrar uma taverna aberta, com barulho suficiente para atordoar a alma, ouvi, entre uma caneca e outra de cerveja, a história de um homem que me causou profunda estranheza, em parte pela sua aparência de morto, em parte pelo inusitado do tema. Essa é a história que passo a narrar, e que fica a seu critério levá-la em conta, quando for viajar para qualquer lugar que não conheça e que não seja você a pessoa que escolheu o destino da viagem.
“Eu me chamo Pietro Bonarve – disse ele - e nasci na Baviera, numa aldeia de nome Markbreit. Trabalhava como meeiro de um senhor, dono de muitas vinhas na aldeia, um homem mesquinho e que não tinha piedade quando as colheitas eram magras. Nunca fui casado, pois a solidão das terras de vinha e o serviço pesado da plantação e colheita não atraiam as mulheres da aldeia. Um dia bateu à porta da minha casa uma mulher estranha, em trajes inusitados, que me pedia água e pouso. Era uma criatura bela, de voz pausada. Vestia calças justas como os nobres varões da capital, Munique. Deixei que ela entrasse, que comesse da minha comida e, por fim, instalei-a em minha cama e fui dormir no celeiro. Quando o dia amanheceu, encontrei a casa limpa e o fogo aceso. Ela havia feito uns pães com a farinha e os ovos que minha mãe me mandara no começo do mês. Fiquei muito feliz de comer os pães e vinho antes de sair para trabalhar, mas não vi a mulher em canto algum da casa. Na volta do trabalho fiquei convencido de que ela se fora.
No dia seguinte, aconteceu a mesma coisa, só que dessa vez uma outra visitante, com trajes coloridos e cabelos soltos, sorridente e encantadora, me pediu que a abrigasse aquela noite, pois seguia uma viagem “no tempo”.  Embora não tenha entendido o seu destino, deixei que ela ficasse no mesmo local da anterior e fui dormir de novo na palha do celeiro. Pela manhã, a mesa estava posta com leite quente e comidas estranhas, que eu nunca tinha visto, uns bocados crocantes que se esfarelavam ao toque, com um sabor intenso de toicinho do fumeiro. Mas da moça não havia sinal na casa e nem na aldeia, para onde fui em busca das duas desconhecidas.
Não soube mais nada e a história ainda me intrigava. Na aldeia fui alvo de risadas e todos acreditavam que andei tomando o vinho mais do que devia e vi coisas que não existiam. Houve até quem mencionasse que eu estava sob o poder de alguma bruxa ou do próprio demônio.
Um mês depois, recebi a visita de um cavalheiro vestido de preto, com sobrepeliz de lã que lhe ia até a metade do corpo. Usava estranhas argolas na altura dos olhos, cobertas de vidro, e trazia uma bagagem de couro, que abriu para me mostrar o conteúdo. Havia nela apetrechos feitos de metal e vidro de várias formas, que emitiam luzes azuladas, além de uma muda de roupa leve e livros de um material que ainda não vi serem feitos por aqui. Pediu-me pouso em uma linguagem enrolada, com alguns termos germânicos que ele procurava em um dos seus livros. Eu consenti, mas fiquei temeroso de que estivesse sendo testado pela inquisição. Naquela noite trouxe um pouco da palha para perto do fogo da cozinha e decidi esperar a noite toda acordado, para ver o que acontecia na casa. Se estava sendo alvo de bruxas e feitiçaria, precisava avisar o padre da aldeia. Abri a porta do quarto e vi que meu hóspede dormia a sono solto, com a boca aberta e roncando, enquanto aqueles apetrechos sobre a mesa emitiam ruídos e luzes. Nem bem o dia amanhecia e ele já estava pronto, os pertences acomodados de novo na bagagem de couro. Foi à cozinha e com água quente preparou um líquido negro na minha caneca de vinho, que exalava um perfume suave de erva, semelhante às poções de chá que minha mãe me preparava quando eu adoecia. Ele me falou, consultando o livro grosso com visível dificuldade, que estava de partida. Perguntei-lhe se conhecia as mulheres que também me visitaram e ele ficou olhando, sem entender o que eu dizia. Por fim, foi para o pátio das galinhas e olhou para cima, com a mão aparando a luz do sol. Eu fiz o mesmo e, para o meu espanto, uma grande carruagem de fogo e metal se aproximou da casa e pousou, como um inferno de barulho e calor. A porta se abriu e uma escada feita de metal branco foi lançada para fora em passes de artes mágicas, por onde subiu o cavalheiro, que me acenou da porta antes de sumir com a carruagem num pé de vento. Fiquei doente por um mês e se não fosse minha querida mãe vir da aldeia para cuidar de mim, teria morrido sozinho. Não contei a ninguém de Markbreit sobre isso. Sai da aldeia depois que me curei e nunca mais voltei ali. Tenho viajado pelo mundo todo atrás de alguém que possa me explicar o mistério dos visitantes. Você saberia me dizer?”
Achei, depois de ouvir o relato do aldeão, que ele estava embriagado pela cerveja escura e forte servida na taverna. Ou que havia enlouquecido de solidão na sua plantação de uvas. Voltei para casa devagar, pensando naquela história louca, quando fui abordado por uma linda mulher em trajes masculinos e de cabelos curtos, que me perguntou o nome da cidade, pois precisava corrigir sua rota. Foi assim que decidi acompanhá-la e vim parar aqui, com vocês, no que dizem ser o século vinte e um, neste lugar cheio de médicos e enfermeiras, que me entopem de comprimidos e que não acreditam em viagens pelo tempo. Quanto à mulher, voltou para o seu tempo, não sem antes prometer me levar para conhecer sua família, nas próximas férias.