SOBRE O BLOGUEIRO

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Antonina, Litoral do Paraná, Palestine
Petroleiro aposentado e petista no exílio, usuário dos óculos de pangloss, da gloriosa pomada belladona, da emulsão scott e das pílulas do doutor ross, considero o suflê de chuchu apenas vã tentativa de assar o ar e, erguido em retumbante sucesso físico, descobri que uma batata distraída não passa de um tubérculo desatento. Entre sinos bimbalhantes, pássaros pipilantes, vereadores esotéricos, profetas do passado e áulicos feitos na china, persigo o consenso alegórico e meus dias escorrem em relativo sossego. Comendo minhas goiabinhas regulamentares, busco a tranqüilidade siamesa e quero ser presidente por um dia para assim entender as aflições das camadas menos favorecidas pelas propinas democráticas.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Depois da primeira reunião, Marco Feliciano determina: vamos, em nome dos milagres de jesus, enforcar uns negrinhos amaldiçoados e queimar uns gays doentes, irmãos!

Copiei a imagem de Maria da Penha Neles

 
O pastor acanalhado e presidente jaguara Marco Feliciano encerra a reunião e proclama: vamos, em nome dos milagres de jesus, enforcar uns negrinhos amaldiçoados e queimar uns gays doentes, irmãos!

Marco Feliciano e suas canalhices: retrato de corpo inteiro de um evangélico filho-da-puta e federal

Homofobia explícita e pornográfica do pulha que preside a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal


Racismo explícito e pornográfico do patife que preside a Comissão de Direitos Humanos

Aqui, o canalha de preside a Comissão de Direitos Humanos faz abundante colheita de muita grana, com cheques pré-datados. O nome disso é estelionato.


Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos ofende-nos: trata-se de um notório jaguara racista e LGBTT-fóbico

Copiei a imagem de Thiago Moreira

Eis amostra pequena do pensamento vivo do pulha evangélico que preside, a partir de hoje, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados (cito de memória):

"AIDS é uma doença gay".
"Os sentimentos homoafetivos são podres".
"O governo e o congresso estão dominados por Satanás".
"Querem impedir que a bíblia seja lida neste país".

As imundícies que chafurdam na pocilga fedida da frente parlamentar evangélica e o PSC - que em 2012 já havia feito programas claramente homofóbicos - alcançaram o ápice em matéria de atraso, de achincalhe e provocação, de fundamentalismo evangélico-raivoso, de fanatismo obtuso e se constituem, para mim de modo evidente, numa ameaça à vida, ao estado laico e à própria democracia.

Há quem queira lançar a fatura toda nas costas do PT (eu mesmo, ainda sem as informações todas, agi assim), mas não nos esqueçamos que: 

a) pelo princípio da proporcionalidade o PT tem direito a dirigir 3 comissões e, como é próprio, fez suas escolhas políticas (relacionadas com política externa, economia e saúde, se não me engano) e, MUITO IMPORTANTE, 

b) PSDB e PBMD CEDERAM suas vagas, na Comissão, para os merdas acanalhados do PSC e que, dentre outros partidos, PSB e PV indicaram deputados evangélicos para integrá-la, de modo a tornar irreversível a eleição do pastor canalha e patifão federal.

De todo modo, creio que a reação ampla e geral contra o filho-da-puta pode colocá-lo numa situação de relativa fragilidade política (pelo menos eu espero que isso aconteça).

De minha parte declaro que a luta continua.

terça-feira, 5 de março de 2013

Pilantragem evangélica

Um esclarecedor apanhado de diferentes pronunciamentos obrados pelo notório patifão federal e pastor picareta Marco Feliciano, que poderá assumir a presidência da Comissão de Direitos Humanos.
Direto e reto ao cerne da questão: os direitos das minorias, especialmente do povo LGBTT e dos fiéis das religiões de matriz africana, se este calhorda evangélico tornar-se presidente, estão sob evidente ameaça. 

Aqui o pilantra, em alegre colheita, recolhendo muita grana de gente incauta. Que nojo!

segunda-feira, 4 de março de 2013

Anotações sobre a absoluta, completa e avassaladora necessidade da poesia: viva Paulo Leminski!

O Serviço de Alto Falantes Ornitorrinco cumprimenta os romeiros presentes nesta formidável quermesse em louvor dos poetas polacos e, como diria o mais formidável poeta polaco de Curitiba, distraídos venceremos!
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Copiei do Valor Econômico
Como não fiquei amigo de Leminski
No começo dos anos de 1980, eu era aluno interno no Colégio Agrícola de Campo Mourão (noroeste do Paraná) e vinha lendo a literatura disponível nas bibliotecas públicas locais. Na estante de poesia, havia livros até os anos 1960, depois disso surgia uma grande lacuna, sequela talvez da ditadura militar, que vivia os seus estertores. Por conta disso, eu desconhecia a literatura contemporânea e tinha uma sede muito grande de participar de meu tempo, mesmo estando em um espaço nada apropriado a tais frivolidades - toda a minha família era de agricultores ou de trabalhadores subalternos, sem ou com baixa escolaridade.
Assim, eu não sabia onde ficava o tempo presente.
Não lia jornais de circulação nacional e não tinha professores e amigos com informações que pudessem me orientar na selva selvagem daquela terra vermelha. Foi em 1983 que comecei a participar do agora, por meio do informativo "Primeiro Toque", da editora Brasiliense, que tinha como slogan um verso de Walt Whitman: "Que pode haver de maior ou menor que um toque?" Essa publicação permitia que comprássemos os livros por reembolso postal, dando dicas de títulos. Foi ali que comecei a conjugar as minhas leituras no presente, recebendo informações sobre autores que seriam fundamentais nos anos seguintes, como Charles Bukowski e John Fante. Mas, entre todos os autores, o meu herói era o poeta curitibano afropolonês Paulo Leminski, que tinha a cara da revista "Primeiro Toque" e da Brasiliense.
Quando chegou a edição com uma capa pop art de "caprichos e relaxos", que vinha com o subtítulo de "saques, piques, toques & baques", entrei em êxtase com essa poesia da informalidade, mais próxima do rock do que da literatura. Nunca tinha lido um poeta que falava grandes coisas em poemas completamente diretos e intensos, que manejava a música, a materialidade da palavra e a ironia. Esse é o livro de poemas que mais li na minha vida, e funcionou como uma bíblia para mim, compulsada nos meus momentos de descrença literária.
Continuei lendo Leminski pelas traduções que ele fazia para a mesma editora e depois por meio dos autores a que ele se referia em apresentações. Para o jovem interiorano que eu era, Leminski fez de Curitiba a capital da poesia brasileira. Não havia como ser escritor morando em outro lugar. Depois de uma tentativa frustrada, mudei-me para a capital em 1987. E continuei seguidor fiel de Paulo Leminski, agora já devorando entrevistas dele em periódicos, acompanhando de perto o seu trabalho no jornal "Nicolau", no qual ele era figurinha fácil.
Discípulo autodeclarado é aquela coisa: quer porque quer ter alguma importância na vida do mestre. Sonha ser aceito e para isso tenta toda sorte de insinuação. Consegui com uma amiga em comum, a poeta Helena Kolody, o endereço do polaco e, numa carta completamente juvenil, mandei um texto para ele, datilografado na minha inseparável (até hoje) Lettera 35.
Só depois de despachar a carta, relendo os originais de meu poema, vi que havia uma crase errada. Essa talvez tenha sido uma das maiores vergonhas de minha vida de escrevinhador. Dirigir-se à pessoa que é para você o resumo da cultura - e Leminski foi isso para mim - numa linguagem inadequada era um crime de lesa-cultura. Não sei se exatamente por isso, mas o fato é que não tive mais coragem de procurar o poeta. Lembro-me que contava com a possibilidade de cruzar por ele no centro da cidade - tinha visto umas fotos dele no calçadão da rua das Flores - ou mesmo em uma livraria, principalmente na Ghiginone, onde ele lançara alguns livros. Passava na frente do Bife Sujo, um de seus lugares preferidos, mas em horários muito vespertinos para encontrá-lo.
Sabendo que ele morava - não tinha certeza se ainda continuava morando - na altura da Cruz do Pilarzinho, reduto polonês da capital paranaense, tomava o ônibus rumo a essa localidade periférica para fazer as minhas caminhadas nos fins de semana. Tinha visto fotos de Leminski correndo naquela região. Nas idas à redação do "Nicolau", perguntava ao editor, Wilson Bueno, de Leminski. Acompanhando-o de perto, não perdia seus textos e suas entrevistas, nunca estive de fato com ele.
Mas habitei Curitiba seguindo as pegadas poéticas de quem havia me tirado de uma cidade pequena e me instalado no centro das discussões sobre literatura. Eu andava com os versos dele na memória - e ainda ando. E me servia deles para abonar pontos de vista em conversas com amigos ou para refutar aquilo que não se encaixava nas teorias de meu guru.
A maior proximidade física com ele que eu consegui foi em uma palestra na Biblioteca Pública do Paraná. Ele estava na mesa com dois professores, e tratavam de tradução. A apresentação dos professores era aquela leitura monocórdia de textos bem pensados e bem pesados. Quando o poeta começou a falar, iluminou-se aquele ambiente escuro. Ele se expressava de uma maneira absolutamente eufórica. Não importava muito o que ele estava dizendo, mas a intensidade daquilo que dizia. Havia um domínio total de palco, e ele dissertava sem seguir um texto ou anotações, numa espontaneidade assustadora.
De uma coisa eu não me esqueci de sua palestra. Ele dizia que havia aprendido alemão geneticamente. O pai, na juventude, namorara uma alemã, incomunicável fora desse idioma, e se vira obrigado a estudá-lo. Leminski dizia que, como o pai manejara esse código com intenções amorosas, ele tinha uma propensão genética para aprender a língua de Goethe. Não importa a veracidade dessa história e a eficácia desse método, e sim o fato de que para o poeta uma língua e uma cultura só se entregam num estado de paixão.
Fiquei até o fim do evento, ouvi as perguntas e as respostas de todos, mas me antecipei uns minutos ao fim, saindo sem nem olhar para trás. Perdi a oportunidade tão desejada de conversar com o poeta. Talvez por covardia. Talvez para fazer que um futuro encontro fosse o grande objetivo de minha vida naqueles anos de Curitiba.
Saí pela noite, andando por ruas vazias, preenchido afetivamente por uma amizade que não se efetivara, unilateral, mas que nem por isso era menor do que qualquer outra.
Algum tempo depois, o poeta morreu sem nunca saber de minha existência. Eu passei a negá-lo porque minha vida já estava em outras latitudes. Deixei Curitiba, seguindo a carreira de professor universitário, tal como aqueles que eu achara, na mesa com meu ídolo, tão apagados.
Hoje, mais de duas décadas depois de sua morte, ele continua uma presença viva - a Companhia das Letras, aliás, está lançando nesta semana o volume "Toda Poesia". Nenhum poeta que tenha estreado nos anos 1970 exerceu tanta influência na literatura e na cultura brasileira como Paulo Leminski, que fez que Curitiba fosse paulista-concretista e ao mesmo tempo baiana, que deu nervos vanguardistas para a geração marginal e sangue africano para os experimentalismos mais frios. Leminski é o poeta brasileiro, gostemos ou não de sua poesia, mais emblemático da contemporaneidade.
Miguel Sanches Neto é escritor, autor entre outros, dos romances "Chove Sobre Minha Infância" (Record, 2012), " Chá das Cinco com o Vampiro" (Objetiva, 2008) e "A Máquina de Madeira" (Companhia das Letras, 2012)

domingo, 3 de março de 2013

Tortura: Uma carta de Teresa Urban para Ismael

Henry Milléo/Gazeta do Povo / O servente de pedreiro Ismael da Conceição: tortura 40 anos depois.
O servente de pedreiro Ismael da Conceição: tortura 40 anos depois.

Teresa Urban, a jornalista, foi presa e torturada durante o regime militar por suas posições ideológicas. Ela mandou uma carta para o garoto Ismael, de 19 anos, torturado pela PM no Uberaba na semana passada. Veja abaixo.

Caro Ismael,
Somos moradores da mesma cidade mas não nos conhecemos. Posso ter passado por você, ou você por mim, numa rua qualquer, mas nem nos olhamos, como é costume por aqui. Ou, então, vi você passar de bicicleta e mais uma vez pensei na vontade que tenho de fazer o mesmo, andar de bicicleta pela cidade, mas sempre deixo para depois. Mesmo assim, conheço bem seu olhar na foto publicada na Gazeta do Povo de terça-feira, dia 6. Já vi esse olhar antes, muitas vezes, mistura de perplexidade, humilhação, medo, dor e raiva (a raiva bem escondida para ninguém perceber) em quem foi agredido, espancado ou torturado. Eu mesma já tive esse olhar um dia.
Por essas coisas todas – e porque você tem a idade de meu neto – quero te contar uma história (coisa que as avós adoram fazer).
Em 1972, fui presa e levada para a Delegacia de Vigilância e Captura (não sei se ainda existe). Ficava na Rua Barão do Rio Branco, onde depois foi instalado o Museu da Imagem e do Som e durante muito tempo imaginei se os sons e as imagens guardadas nesse museu eram os das celas que ficavam na parte de trás do prédio.
Fui colocada na cela com umas 20 mulheres. Todas nuas, amontoadas. Havia também uma garota muito jovem. O que elas tinham feito? Vadiagem e atentado ao pudor, me explicaram. Eram prostitutas que, dia sim, dia não, eram detidas durante a madrugada e soltas no final da tarde. De tempos em tempos, os policiais jogavam água dentro da cela, segundo eles, para esfriar os ânimos.
A mangueira era grande como as usadas pelos bombeiros, e o jato feria a pele. Quanto mais as mulheres gritavam, mais forte era o jato. Quando a situação ficava insuportável, elas ofereciam a menina aos policiais, garantindo que era virgem. Mesmo com todo aguaceiro, o calor era insuportável e quando pediam água, os policiais traziam um balde e um caneco. Antes de entregá-lo às mulheres, urinavam dentro.
No final do dia, as mulheres eram liberadas. Pegavam as roupas guardadas num vão no alto da cela, se vestiam e saiam, levando junto a menina. Já era rotina. Em alguns dias, tudo isso voltaria a acontecer e ninguém, lá fora, saberia. Elas não contariam, é claro, e mesmo que contassem, quem iria ouvir?
Já tinha visto e sofrido maus tratos – afinal, eu era presa política – mas foi ali que compreendi que a tortura praticada nos quartéis durante a ditadura militar era só um prolongamento do que acontecia diariamente nas delegacias deste país. É verdade que o regime militar facilitou as coisas porque, se os homens fortes do pais permitiam a tortura, a morte e faziam desaparecer quem ousava levantar a voz, então “liberou geral”. Por isso, ninguém temia ser censurado ou punido por isso.
Gostaria de terminar a história assim: voltou a democracia, houve uma rigorosa investigação sobre os crimes cometidos durante a ditadura e todos os responsáveis foram punidos. Aí, acabaria o “liberou geral” e ninguém, em nenhuma delegacia, ia ter coragem de colocar a mão num preso porque saberia do risco. Aí, os policiais pensariam duas vezes antes de bater num menino de rua ou num garoto tatuado ou num jovem trabalhador negro numa bicicleta porque a tortura – qualquer tipo, em qualquer grau – foi banida do pais. Afinal a Constituição que conquistamos com tanto esforço em 1988 diz que “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante”.
Isso não aconteceu, Ismael, e 40 anos depois do começo de minha história, os velhos hábitos herdados da Inquisição portuguesa e praticados por séculos contra o africanos escravizados aparecem no seu olhar e na história contada nas páginas do jornal.
Mas então, por que estou escrevendo? Só para aumentar sua inquietação? Não, Ismael, escrevo para dizer que isso pode e precisa mudar. Exige coragem - que você e sua família tiveram – e exigem um compromisso da sociedade. O silêncio foi rompido pela imprensa e pela OAB. Agora, é preciso ir adiante. É preciso localizar os quartos dos horrores, onde é possível espancar uma pessoa, dar choques, sufocar com um saco plástico e ninguém mais, além dos algozes, fica sabendo. São estúdios especiais à prova de som, onde o terror reina? Existem máquinas de choque (talvez herdadas dos quartéis) ou usa-se a instalação elétrica comum, com fios descascados? Ninguém mais sabe ou ninguém se importa?
Sem responder a essas questões e punir que fez, quem viu, quem permitiu, quem se calou, não há política de segurança possível. Precisamos construir uma nova história. Para “congelar o crime” é preciso saber quem são os criminosos e a primeira lição básica está na própria Constituição Federal: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.”
Paz e bem, Ismael, para você e seus familiares.



Cristões em cristo, deus é um completo vagau!

O Serviço de Alto Falantes Ornitorrinco, hoje a serviço das seguradoras, cumprimenta os presentes nesta melancólica quermesse em louvor de Nossa Senhora das Patifarias Religiosas e, por procedente, permite-se fazer esta dura declaração: Este deusinho mequetrefe e inexistente ainda assim é apatifado e completamente vagabundo!
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Copiei a imagem de Os crente pira

Os números da matança: bom dia, LGBTT-fóbicos de merda!

Anônimo homofóbico de merda trouxe esta "extraordinária contribuição" ao meu blog: "Bem, como o comentário vai pro lixo mesmo... Lembrando que muitos desses que morreram, foram mortos por homossexuais, ou você acha que só pelo cara ser ativo, bancar o "homem", deixa de ser gay? Eu só não entendo tanta ira, revolta e "atitude" simplesmente por gostarem de dar o cú, tão nobre causa da vossa existência". 
Como existem incontáveis imbecis como este, atualizo os números da matança em curso, embora não tenha nenhuma expectativa que entendam porque todos nós devemos lutar pelos direitos do povo LGBTT e pela imediata criminalização da homofobia. 
De minha parte, fodam-se!
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Com informações de Quem a Homofobia Matou Hoje?

homofometro2013b51

sexta-feira, 1 de março de 2013

Alvará de Localização e de Funcionamento

ALVARÁ

O Prefeito Municipal, no uso das suas atribuições, autoriza Vovô Paulo a praticar os seguintes atos com seus netos e netas:

1. Testar 3 vezes ao dia suas tripas gaiteiras.

2. Disfarçar-se de Bicho Atacador de Sovaco e, de surpresa, aplicar-lhe as cócegas necessárias.

3. Atacá-los de inopino na forma do terrível e alucinado Bicho Horrrorrrrozzzo.

Revogam-se as disposições em contrário.

Publique-se. 
Intime-se. 
Prendam pais e mães que se opuserem. 

Antonina das Gargalhadas, 1º de março de 2013.


Haulo Boberto Tequinel
Prefeito Municipal 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

"Homem-Tartaruga" ou Elenir?

O Serviço de Alto Falantes Ornitorrinco cumprimenta os presentes nesta quermesse em louvor de Nossa Senhora dos Invisíveis e divide com vocês este belo texto.
Tem muito Juiz de Direito que "esquece" que, como qualquer um de nós, faz o seu cocozinho regulamentar todos os dias. 

Não é o caso, vê-se logo com meridiana clareza, de Rosivaldo Toscano Júnior.
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Copiei de Rosivaldo Toscano Jr.

"Homem-Tartaruga" ou Elenir?

Hora do almoço. Liga-se a televisão. Jornal do Almoço. Na tela, a reportagem “Conheça o homem que carrega a própria casa nas ruas do Centro de Porto Alegre”. Uma elegante apresentadora fala o seguinte: 

- Muita gente acha que viver bem depende de espaço e conforto. Mas, no centro de Porto Alegre, chamou a atenção de nossa equipe um carrinho de papeleiro. Mas, olhando bem de perto, o “fulano de tal” (o repórter) descobriu não somente o carrinho de recolher resíduos para reciclagem. Mas uma casa. E dá pra dizer uma casa bem equipada! 

Em uma tomada externa, sem rodeios, o repórter apresenta o que etiquetou de “o homem-tartaruga”. Aparece, então, um sujeito maltrapilho e descamisado. Ao lado, uma pequena carroça de tração humana que tem uma cobertura improvisada de restos de madeira, alumínio e plástico. O entrevistado é catador de lixo reciclável. Sua voz é suave, mas suas palavras gritam seu analfabetismo. 

Como fundo musical da matéria, uma música do Kid Abelha, cujo refrão é “dizem que sou louco por eu ter um gosto assim: gostar de quem não gosta de mim... Jogue suas mãos para o céu; agradeça, se acaso, tiver, alguém que você gostaria que estivesse sempre com você; na rua; na chuva; na fazenda ou numa casinha de sapê...” A música traz à tona duas falsas ideias: de loucura ou de escolha de um modo de vida de ser rejeitado. De alguém que teve alternativas e, espontaneamente, resolveu viver o dia-a-dia nas ruas, acompanhado somente do frio do inverno e do calor do verão, da fome e das infelicidades de toda sorte. 

Um rápida legenda diz o nome do entrevistado. Mas em nenhum momento Elenir é chamado pelo próprio nome. É sempre o “homem-tartaruga”.

O cameraman faz tomadas da pequena carroça puxada manualmente por Elenir. Mostram-se os sacos em que ele recolhe o lixo reciclável. Dentro da cobertura improvisada, um pequeno fogão em que, supostamente, cozinhava o almoço. Logo depois, eis o homem tomando o que parece um café e comendo uma bolacha, prostrado na entrada frontal da minúscula carroça. 

O repórter cai logo na histórica “falácia da criatividade” – que esconde a verdadeira causa do improviso: a falta de recursos financeiros para questões básicas ou urgentes. E assim, o elogio ao pedaço de retrovisor amarrado com arames, providenciado pelo “homem-tartaruga”, pois evitaria o risco de “batida” na “casa”. E após louvar outras improvisações oriundas da miséria, o repórter faz uma inacreditável pergunta: 

- Você consegue ter o conforto de uma casa aqui dentro? 

Elenir, até então invisível para a sociedade, abandonado à sua própria sorte, sem um lar, uma família, sem perspectivas, estava diante do instante de maior destaque de sua vida. Teria seu momento de notoriedade, que sequer duraria os 15 minutos de Andy Warhol. Apenas três minutos de fama. Ou infâmia. Diante de tantos elogios, Elenir mordeu a isca de uma resposta que já estava lançada na pergunta: 

- Sim. 

Elenir, que naquele instante era a celebridade, não poderia atrapalhar o roteiro, mesmo que fosse para esquecer que não tinha um lar, que carregava manualmente uma carroça de três metros quadrados, e um metro e meio de altura, que não tinha sequer um banheiro, uma latrina, um chuveiro, uma pia, um colchão, uma lâmpada. Um chão. Um endereço. 

Em nenhum momento, há uma pergunta óbvia: se Elenir gostaria de ter uma casa. Um lar com portas, janelas, uma cama, um banheiro, um vizinho. Um lugar em que ele não precisasse viver curvado nem pela altura do teto e nem pela humilhante vida de indigente nas ruas. 

Resignado com a sua condição, Elenir ainda se justifica da seguinte maneira: “pra não roubar, não assaltar, não fazer nada de mal, eu prefiro viver assim como estou vivendo.” 

Ainda dá tempo para um pequeno interrogatório do repórter. Afinal, estava-se diante do estereótipo: 

- É usuário de alguma droga? 

E após agradecer “pela lição de vida”, como se alguém quisesse ter aquele estilo de viver ou que este servisse de exemplo a ser seguido, o repórter termina em grand finale: 

- Dizer o quê, não é, gente? É o homem tartaruga... 

Criou-se uma insólita crônica multimídia da miséria. De como transformar a sonegação de direitos fundamentais em algo banal, até pitoresco ou burlesco. Uma tragédia distorcida em comédia. Um exemplo de que a fronteira entre informar e deformar, desvelar ou alienar, é pequena. Mas há um imenso abismo no meio. 

A reportagem escondeu o Elenir por trás da tartaruga. Coisificou-o. Afinal, não era um homem como igual. Era um homem animalizado. Meio homem, meio tartaruga: lenta, inferior, passiva, resignada, que carrega em si sua “casa” para se abrigar e se proteger de todos os perigos a que está exposta na vida das ruas. 

E como só mostrou a tartaruga, não conseguiu se colocar no lugar do outro. Aí, perceberia que não existe graça nenhuma. Não era a tartaruga. Era o homem na selva de pedra em que o animal dominante e supostamente racional é capaz de maltratar por egoísmo ou prazer seu próximo; que é capaz de consumir e comprar mais do que necessita, destruindo o planeta; e abandonar seu igual à própria sorte ou morte. 

O telejornal reproduziu uma violência simbólica, uma violência que se esconde no discurso, nas palavras. Ela “normaliza” as desigualdades e o sofrimento dos oprimidos. Violência que anestesia a realidade através de eufemismos. Os mesmos que transformam catador de lixo em “recolhedor de resíduos para reciclagem”; carroça em “casa”; necessidade e falta de recursos em criatividade; sem teto em “homem-tartaruga”. Trata-se de um exemplo de como a violência simbólica muitas vezes não é percebida nem mesmo pelos que a exercem. E em que as vítimas se transformam, não raras vezes, em cúmplices, reforçadores e naturalizadores de uma violência artificial, culturalmente construída contra elas. 

Mas a reportagem não teve a intenção de humilhar Elenir, destaco. Ela é fruto de uma cultura voltada para “o mercado” – na qual ter senso crítico, questionando suas contradições e perplexidades, não convém. 

Quem sabe se um dia o referido noticiário pudesse despertar desse sono alienante e fazer uma nova reportagem. Dessa vez, não sobre a história do “homem-tartaruga”, mas de Elenir, vítima do déficit habitacional do país; um exemplo de nossas desigualdades sociais; do analfabetismo; ou do egoísmo e da falta de educação dessa sociedade de consumo que, ao invés de recolher devidamente o seu lixo, descarta-o nas vias públicas. E nada de campanha para Elenir comprar uma casa, como vemos em certos programas por aí. Seria morder a isca de uma utopia: resolver pontualmente um problema conjuntural. E não utilizaria a comunicação social da maneira correta: como meio de informar e desenvolver a igualdade e a humanidade na vida social. Quando sofrimento vira entretenimento no Jornal do Almoço. Vou parar por aqui porque essa reportagem me deu um embrulho no estômago.

* Rosivaldo Toscano Jr. é juiz de direito no RN e membro da associação Juízes para a Democracia