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Antonina, Litoral do Paraná, Palestine
Petroleiro aposentado e petista no exílio, usuário dos óculos de pangloss, da gloriosa pomada belladona, da emulsão scott e das pílulas do doutor ross, considero o suflê de chuchu apenas vã tentativa de assar o ar e, erguido em retumbante sucesso físico, descobri que uma batata distraída não passa de um tubérculo desatento. Entre sinos bimbalhantes, pássaros pipilantes, vereadores esotéricos, profetas do passado e áulicos feitos na china, persigo o consenso alegórico e meus dias escorrem em relativo sossego. Comendo minhas goiabinhas regulamentares, busco a tranqüilidade siamesa e quero ser presidente por um dia para assim entender as aflições das camadas menos favorecidas pelas propinas democráticas.
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segunda-feira, 16 de março de 2015

Levy Fidelix, escrotão abjeto, é condenado em R$ 1.000.000,00 por homofobia

Copiei de Somos Uma Família
LEVY FIDELIX É CONDENADO EM 1 MILHÃO DE REAIS EM PROCESSO POR HOMOFOBIA, EMISSORA DEVE VEICULAR DIREITO DE RESPOSTA.

"(...)Feitas todas estas considerações e parâmetros, tenho como justo entre as partes a fixação do dano moral coletivo sofrido em R$1.000.000,00. Por fim, reputando presentes os requisitos legais autorizadores, entendo que é de ser deferida a tutela antecipada, como bem ponderou o D. Representante do Ministério Público, a urgência da medida caracteriza-se diante da demanda social por resposta imediata, pois já foi constatado o dano, e a morosidade na apresentação de programa compensatório poderia potencializar as influências negativas, acentuando ainda mais a discriminação perpetrada contra a sociedade LGBT. POSTO ISSO e considerando o que mais dos autos consta, JULGO PROCEDENTE o pedido inicial condeno a requerida ao pagamento do valor de danos morais no valor de R$1.000.000,00 (um milhão de reais), devidamente corrigidos a partir da presente ocasião (Súmula 362 do CSTJ) e juros legais a partir do evento danoso (Súmula 54 do CSTJ), que reverterá para as ações de promoção de igualdade da população LGBT, conforme definição do Conselho Nacional de Combate à Discriminação LGBT, em analogia ao disposto no § 2º do artigo 13 da Lei 7.347/85, deferindo a tutela antecipada para que os requeridos promovam um programa, com a mesma duração dos discursos do requerido Levi Fidelix, e na mesma faixa de horário da programação, que promova os direitos da população LGBT, no prazo de trinta dias a partir da publicação da presente sentença, fixando-se multa no valor de R$500.000,00 (quinhentos mil reais) por cada ato de descumprimento da ordem judicial aqui determinada, extinguindo o processo com resolução do mérito na forma do artigo 269 inciso I do Código de Processo Civil. (...)"
PROCESSO: 1098711-29.2014.8.26.0100
18ª Vara Cível - Foro Central Cível
JUIZA: Flavia Poyares Miranda
---xxx---

Pra comemorar, segue poeminha que 
escrevi em 24/03/2012

Os obtusos religiosos apagam a luz? 
Nós acendemos de novo!
Eles fecham portas e janelas? 
Nós escancaramos!
Eles odeiam? 
Nós amamos!
Eles se borram de medo? 
Nós aceitamos!
Eles se benzem? 
Nós acarinhamos!
Eles ameaçam?
Nós lutamos!
Eles são muitos?
Nós somos o mundo!

Para Jean, meu filho. 
Sou seu pai, menino, 
incondicionalmente.
Amo você.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Carta Aberta ao senadorzinho LGBTT-fóbico Magno Ameba Malta

Copiei da minha querida e inoxidável amiga Majú Giorgi
(O título meio aloprado é de minha lavra)

Magno Malta.... deixa eu desabafar....
Em primeiro lugar sua AMEBA, não existe O TRAVESTI!
Em segundo lugar, a travestilidade NÃO É OPÇÃO!
Em terceiro lugar, a sociedade empurra as travestis e transexuais para prostituição e para a marginalidade, quando fecha as portas do ensino e da empregabilidade para essa população, chegando ao absurdo de 90% das TTs brasileiras terem que se prostituir para sobreviver, não por OPÇÃO, mas por TOTAL FALTA DE OPÇÃO!
Em quarto lugar, a média de vida de um brasileiro qualquer e pode incluir aí, eu, você ou a população de rua, como queira, é de mais de 80 anos quando a de travestis e transexuais é de 34 anos colocando essa população em desvantagem absoluta com QUALQUER outra! São VIDAS que estão sendo roubadas, VIDAS, que não se paga com dinheiro algum, mas que talvez essas porra de bolsa mequetrefe que fazem tanta falta pra essa gentalha hipócrita, ignorante e limitada, ajudem a salvar! A maldade escondida atrás da Biblia foi responsável por N genocídios na história e CONTINUA SENDO!
Em quinto lugar, TODOS os dias travestis e transexuais são assassinadas em algum meio fio desse país por loucos embalados por discursos como o seu, seu ungido do capeta!
Em sexto lugar aqui é São Paulo e você não tem nada que ver com a prefeitura de São Paulo (Graças a Deus)!
Em sétimo lugar... Pimenta no PIIIIIIIIIIII dos outros é refresco!
Em oitavo lugar... Parabéns ao Prefeito Fernando Haddad que tem instrução, cultura, coragem, visão de mundo e sensibilidade suficiente para resgatar VIDAS de seres humanos que nós sociedade jogamos no LIXO todos os dias! Mais um motivo para que eu tenha orgulho de ser paulistana! É São Paulo salvando VIDAS! Por mim, Haddad pode continuar sendo o Prefeito Suvinil, Eucatex, Lukscolor ou Sherwin-Williams, ou o que ele quiser que enquanto estiver salvando VIDAS, eu continuarei defendendo! PARABÉNS HADDAD... MIL VEZES PARABÉNS! Por um mundo com mais Haddad e menos Magno Malta BLECT NOJO ASCO!

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Meu manifesto pela igualdade: sobre ser travesti e ter sido aprovada em uma universidade federal


Hoje, eu tive minha sobrancelha raspada por minha mãe, emocionada por eu ter sido a primeira pessoa de minha família a ser aprovada na Universidade Federal de Pernambuco. O que pra ela é uma realização pessoal de mãe que, diga-se de passagem, sempre me incentivou a estudar, para mim, uma travesti negra, é uma conquista com imenso valor simbólico.
Desde muito cedo, o âmbito educacional deixou o mais explicito possível suas dificuldades em compreender as particularidades de minha vida: aos 6 anos, desejando ser a Power Range Rosa, aos 13 usando lenços na cabeça, aos 18 implorando pelo meu nome social e, logo, o reconhecimento de minha identidade de gênero. Nenhuma foi atendida. Nenhuma foi levado a sério como algo que eu, enquanto um ser humano, preciso daquilo para me construir e ter minha subjetividade.
Se ontem a professora tirou a boneca de minha mão, hoje o Reitor diz não ter demanda para meu nome social.
Eu existo! Nós existimos!
As violências por conta de minha identidade sempre trouxeram retaliações em salas, corredores e banheiros durante toda minha permanência na escola. Lembro-me de, inúmeras vezes, minhas amigas entrando em rodas feitas por rapazes para me bater e tentarem me salvar. "Para com isso! Deixa ela!"
Não era só comigo, mas fui a única que aguentei. Vi, de pouco em pouco, outras possíveis travestis e transexuais desaparecendo daquele ambiente, porque ele nunca simbolizou um espaço de acolhimento, educação e aprendizagem. Mas sim de opressão, dor e rejeição.
Uma vez encontrei na rua com uma das que estudou comigo. Eu voltava do curso, ela ia se prostituir. "Mulher, o que tu ainda faz em lugares desse?", ela me perguntou. Indignada, aliás. Ela me questionava com a testa franzida porque eu insistia em permanecer em um lugar que, cada vez mais, desmarcava que eu não era bem-vinda. Quando fui?
Os banheiros femininos estão com as portas fechadas, o nome nas cadernetas não pode ser alterado e os olhares de escárnio estão por todas as partes. De corredor à sala, de banheiro à secretaria.
"O que ela faz aqui?", se perguntam diariamente ao me ver andando na luz do dia. Afinal, eu, enquanto travesti, devo ser uma figura noturna. Assim, sedimentando a posição que a sociedade me atribuiu: de sub-humana. E quando falo isso, meus queridos, estou sendo o mais honesta que posso.
Olhe ao seu redor! Quantas travestis e mulheres trans você se depara no seu dia a dia? Quantas estão na sua sala de aula? Quantas te atendem no supermercado? Quantas são suas médicas?
Espere até as 23hrs. Procure a avenida mais próxima. As encontrará. Porque lá, embaixo do poste clareando a rua escura, é onde nós fomos condicionadas a estar por uma sociedade internalizadamente transfóbica.
Quando vi minha aprovação, foi uma alegria por eu ter tido uma conquista, mas para além disso, eu tive a consciência de forma imediata, que dentro de minhas perspectivas de vida, ver uma pessoa como eu em um espaço acadêmico é algo utópico. Até quando será? Até quando minhas irmãs irão ter que ser submetidas a essas condições de vida?
Sem moradia, sem estudo, sem trabalho. Se prostituindo por 20 reais.
Onde está a dignidade?
Não somos iguais. Eu, travesti, não sou igual a você. Eu, travesti, além de ter batalhado por minha entrada, a partir de agora irei batalhar por minha permanência.
Optei por Pedagogia com a esperança de poder ser um diferencial. De finalmente pautar a busca por uma educação que nos liberta e não mais nos acorrente.
A escolha é apenas uma: lutar ou lutar. E eu, Maria Clara Araújo, escolhi ser um símbolo de força.
A revolução será travesti!

sábado, 24 de janeiro de 2015

Eles, os LGBTT-fóbicos, passarão; nós, passarinhos!

Copiei de Dirce Pereira da Silva

Olá a todas e a todos. Inicialmente gostaria de salientar que já sou mãe, digamos assim, por "três vezes": tenho uma filha com 60 anos de idade, meus netos (ele 33, ela 26) e um bisneto de 4 anos. Dá para perceber que não sou jovem: já são 80 anos de caminhada. Uma caminhada muito árdua, diga-se de passagem. Não sou homoafetiva mas, sempre que conheço alguém que fuja à condição sexual dominante, lembro-me um pouco de minha mãe. 
É uma pena que mamãe já tenha falecido em 1997: mesmo analfabeta ela adoraria ouvir a leitura de diversas postagens aqui. Ao contrário de mim, mamãe não era propriamente alguém simpatizante da causa gay ou de qualquer outra. Hoje percebo que minha mãe, sem saber, pregava a compaixão no sentido do budismo. Na nossa cultura compaixão significa ter dó, piedade, enfim, ver o outro como um coitado. No budismo não: ter compaixão é conhecer a dor do outro e dar a ele o seu ombro, para ajudá-lo a caminhar. E essa foi minha mãe a vida toda.
Eu tive experiências horrendas com o preconceito racial. Sou de um tempo muito anterior à lei do racismo e aturei desde violência verbal (como me chamarem de macaca) até agressão física (expulsar-me de um baile porque eu era negra e me jogar na sarjeta, ou cuspirem na minha cara).
O maior amigo que tive em minha vida era gay. Faleceu há alguns anos, vitimado por enfarte. Embora eu desconfiasse bastante, ainda na distante década de 1950 ele me contou sobre sua condição sexual. Aos poucos fomos percebendo as semelhanças existentes nas formas em que éramos excluídos da sociedade: eu fui recusada pelos pais de meu noivo em casamento (por ser negra e ele branco) e, por isso, adotei minha filha. Eu e meu ex-noivo tivemos idas e vindas, mas ao acertarmos nossa vida o câncer o matou.
Com meu amigo foi pior. Morávamos em uma cidade pequena do interior de São Paulo e ele me dizia que, por vezes, conhecia alguns homens no banheiro da rodoviária. Depois havia um lugar em que os gays da cidade se encontravam - até mesmo quis ir um dia, mas ele me disse que isso traria medo a todos. Vivíamos sob a ditadura militar.
Uma palavra que ele me dizia e marcou minha vida foi "migalhas". Ele dizia ter migalhas de amor, apenas isto. Conhecia alguém numa noite, tinha ou não relações sexuais e, no dia seguinte, ninguém se olhava no rosto. Havia homens e mulheres casados que, na verdade, eram gays. O único local seguro para falar sobre isto era minha casa, pois na dele os pais sequer tocavam em assuntos dessa natureza.
Minha mãe, depois de certo tempo, passou a se "intrometer" nas questões. Mamãe era uma mulher inteligente, apesar de pouco instruída: ela queria aprender. Cheguei a ficar surpresa quando ela, católica fervorosa que era, disse que ele ainda encontraria "um rapaz" a quem amar. Não, isso não foi no século XXI: foi na virada da década de 1960 para 1970. 
Lembro-me de quando nós dois fomos passar férias em São Paulo, capital, e nos dirigimos a uma boate gay. Na época passava a novela "Dancin' Days" e tanto as casas quanto o público buscavam imitar personagens da novela. Lá ele conheceu seu primeiro namorado, e eu mesma sugeri que ele se mudasse para São Paulo: lá haveria mais liberdade que no interior. Ficávamos na casa do meu ex-noivo que, por ser um homem muito culto e à frente de seu tempo, também apoiava meu amigo nessa questão. No entanto, a mãe do meu amigo ficou viúva e alegava estar doente todo o tempo. As idas a São Paulo tornaram-se cada vez mais raras.
Meu ex-noivo finalmente pôde se divorciar graças à aprovação da lei (antes era apenas "desquitado": não podia casar novamente) e seguiu ainda os protocolos da década de 1950: foi falar com meu pai, que o tratou muito mal. Só que dessa vez enfrentamos tudo - sobretudo a mãe dele, que era racista - porque já tínhamos mais de 50 anos de idade. Meu pai achava "absurdo" se casar nessa idade, mas desde quando há tempo para o amor? Só que ele morreu... e eu o amei até sua morte. Na verdade, ainda o amo, mesmo passados 62 anos do início de nosso noivado. 
Eu e meu amigo às vezes nos questionávamos: o que seria pior? Um amor correspondido e proibido de se viver (como o meu) ou nunca ter um amor, como era o caso dele? O preconceito existe, a homofobia atinge níveis que assustam e eu não sou tola ao ponto de desconsiderar nada disso. Só que há 40 anos sequer ouvíamos falar em namoros gays, embora alguns existissem. O mundo já conseguiu ser pior do que é hoje. 
Mais que por mim ou por meu falecido amigo adotei desde minha aposentadoria, dada aos 70 anos de idade, que minha bandeira seria a criminalização da homofobia (embora o termo nem existisse). O preconceito contra nós, afrodescendentes, continua a existir... mas graças à Lei ninguém fala! Bem ou mal, conseguimos formar já umas duas gerações sem ouvir os constantes insultos que eram dirigidos às pessoas negras.
Penso que criminalizar a homofobia tornará a sociedade melhor. Continuará a existir preconceito, mas ao menos ninguém poderá falar! As novas gerações talvez consigam ser mais generosas do que a minha foi. Considerando que estou provavelmente na geração mais velha ainda viva (nasci em 1934), eu me envergonho pelo que nós legamos e continuamos a legar ao mundo. Só que mesmo gerações mais novas, como a da minha filha, ou a dos meus netos, continuam com práticas sectárias dignas de minha juventude.
É hora de mudar. Sou mãe, avó e bisavó em luta pela igualdade. Nossa bandeira não tem limitações nem idade para ser hasteada. E se eu puder contribuir em algo com esta luta, acredito que uma parte muito considerável de minha vida não terá sido em vão. 
Acredito que aqui há muitas mães pela igualdade. Sintam-se meus filhos, caso queiram, embora eu me ache mais avó que mãe em meio a tantos rostos jovens. Que nossa luta e nossa voz sejam uma só coisa e reverbere no coração das pessoas.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Levítico no dos outros é leite e mel. Agora, tente aplicá-lo a si mesmo e depois me conte

Copiei de Boca no Trombone

A Bíblia que condena os homossexuais ou Na cama com Levítico

Por Wilson Gomes

Levítico é um dos meus livros preferidos da Bíblia. Não exatamente por ser um tratado sobre a ternura entre os seres humanos ou sobre um Deus amoroso, que disso nele nem vestígio há. Gosto é da experiência etnográfica que esse livro proporciona, porque nele estão fixados e expostos, sem disfarces, filtros ou peias, as mentalidades, o sistema moral e legal de um povo antigo e do modo como conecta tudo isso com a sua experiência religiosa. O retrato não é bonito, longe disso, mas é muito interessante.

Em tempo: é Levítico o livro que provê a “autorização bíblica” mais recorrente para a homofobia evangélica. Os católicos não curtem muito esse livro, usado contra eles pelo proselitismo dos evangélicos populares há muitas décadas, principalmente por causa da proibição de imagens. Na verdade, é um livro judaico por excelência e as referências são exclusivas para “os israelitas”, mas os evangélicos adoram se sentir parte de passado nobre e remoto e entendem que, mediante algum hocus pocus cujo sentido me escapa, ganharam como herança o direito de se incluir entre os israelitas do Antigo Testamento. O livro é simplesmente o código sacerdotal e teocrático da comunidade política de Israel (parte do conjunto legal do Pentateuco) e refere-se a uma experiência histórica que terá acontecido lá por 1.200 a.C. (segundo uns) ou 1.400. Faz um tempinho, né?

Como Levítico é base do argumento “a Bíblia condena”, deixem-me dizer alguma coisa sobre esse livro, ainda que não dê para fazer isso de maneira muito breve. Vejam aí se vocês gostariam, como querem os evangélicos populares, que esse livro fosse a norma e o farol moral das suas vidas.

Um livro ameaçador e sem concessões

Primeiro, o livro é uma lista de interdições sociais e morais, atribuídas diretamente a Deus (ordem cósmica) e a Moisés (ordem política) – “Disse Deus a Moisés…” está para os israelitas como o “a Constituição diz” está para nós. Só que há mais ou menos 2.900 anos antes que a civilização cogitasse distinguir entre comunidade religiosa (o liame social estabelecido pela fé e pelos laços étnico-religiosos) e comunidade política (ou Estado, em que o cimento social é dado pela lei). E numa fase em que leis sobre pureza e impureza se misturam com regras de higiene e normas sobre agricultura, tudo junto, misturado e coordenado pela autoridade dos sacerdotes (levitas). É como se hoje prescrições religiosas fossem ao mesmo tempo Código Penal, políticas públicas e material ideológico para formar a ideia de povo. Puxado. Em Levítico, violações leves das regras, todas descritas em detalhes, podem ser purificadas com rituais (em geral, sacrifícios de animais e de produtos agrícolas), e as graves são resolvidas com penas de morte mesmo, que 3.400 anos atrás não estavam para brincadeira.

Segundo, é um livro duríssimo, ameaçador, sem concessões. O “Deus” que empresta voz às prescrições é, por consequência, um sujeito assustador, ciumento pra caramba (“te salvei do Egito, você é meu, mas vou te botar na linha” é o mote) e ameaçador. Não tem a menor noção de direitos humanos e misericórdia. Terceiro, não tem hierarquia nas regras, não, vem tudo misturado – pecou, perdeu! Quarto, 98% das regras se aplicam a homens. É um mundo masculino. Peca-se com mulheres, mas mulheres não pecam. Fora a obsessão com menstruação, quase não se menciona punição a mulheres.

É bom lembrar que esse Levítico que abomina “homens que se deitam com homens como se fossem mulheres”, admite a escravidão numa boa, viu? Só avisa que um israelita não pode escravizar outro. De resto, está liberado. Lv 25, 44-46: “Vossos escravos, homens ou mulheres, tomá-los-eis dentre as nações que vos cercam; delas comprareis os vossos escravos, homens ou mulheres. Podereis também comprá-los dentre os filhos dos estrangeiros que habitam no meio de vós, das suas famílias que moram convosco dentre os filhos que eles tiverem gerado em vossa terra: e serão vossa propriedade. Deixá-los-eis por herança a vossos filhos depois de vós, para que os possuam plenamente como escravos perpétuos. Mas, quanto a vossos irmãos, os israelitas, não dominareis com rigor uns sobre os outros”. Não é certamente uma boa premissa para um livro considerado tão santo e tão verdadeiro que dele não pode se desviar uma vírgula quando se trata de condenar os homossexuais. Então, não se enganem, meus amigos, o mesmo Levítico hoje usado para a “condenação bíblica” dos homossexuais foi secularmente usado para a “autorização bíblica” à escravidão dos não cristãos.

O santo livro também se ocupa imensamente de purezas e impurezas morais, religiosas e físicas (não há qualquer distinção entre os níveis). Lv 11 estabelece os animais que podem ou não ser comidos. Não podem ser comidos coelhos, lebres, porcos, peixes sem escama, assim como avestruz, cisne, cegonha, garça, morcegos (viu, Ozzy?), toupeira, rã e camaleão. Réptil de nenhuma espécie, “uma coisa abominável” (Lv 11,41). Banha de porco e toucinho, mesmo de gado, torna você impuro também (Lv 7, 22-23). Sarapatel, chouriço, molho pardo ou qualquer coisa que leve sangue são, literalmente, pecado (Lv 7,26; 17,11). Aposto que Feliciano e Marisa Lobo nunca tocaram num torresminho ou costeleta. Porque basta encostar em um desses animais proibidos, vivos ou mortos, no todo ou em parte, e você fica automaticamente impuro. Para ficar puro de novo só sacrificando algum bicho ritualmente. Se uma linguicinha que seja cair no fogão, tem que destruir o fogão (Lv 11,35).

Sabe o que mais é impureza total segundo o livro santo e verdadeiro? Mulheres que deram à luz. Sim, senhoras. Mas o nível de impureza varia, viu. Se o bebê for homem, a mulher fica impura por sete dias; se for uma menininha, por duas semanas (Lv 12, 2, 4-6). Entenderam a sutileza da dosimetria? E só passado o tempo em que é “imunda” (sorry, it’s the Bible!) é que poderia matar algum bicho “em sacrifício pelo pecado”. Pecado, sim, senhora, tá pensando o quê? E sabe quando mais as mulheres são impuras? Acertou quem pensou “todo mês”. Menstruou, pecou (Lv 15,19) – impura por sete dias, viu? Se alguém tocar nela (não é transar, não, é só encostar a mão mesmo) naqueles dias, fica impuro até o fim do dia; se uma mulher menstruada sentar em algum lugar, o lugar fica impuro (Lv 15,24). Se algum parceiro na secura transar com ela nesse período, pega sete dias de gancho de impureza também, que é para aprender a não mexer com impuras.

A parte sobre homossexualidade vem no meu capítulo favorito, Lv 18, que é todo para garantir que os israelitas não copiem os costumes dos egípcios, de onde fugiram, nem dos cananeus, cujas terras eles invadiram, numa boa, “porque Deus mandou”. Por isso, a lista é aleatória, acho que alguém foi vendo do que não gostava nos costumes dos outros povos e saiu proibindo tudo.

O versículo 20 diz que os homens não devem ter relações sexuais com a mulher dos outros. Notem, contudo, que no século 14 a.C. não há norma sobre o comportamento sexual das mulheres, exceto uma regra que proíbe que copulem com bichos. Além disso, como veremos adiante, um homem transar com uma escrava é, digamos assim, uma contravenção, e não um crime. Parece, portanto, que o problema consiste no fato de a mulher ser “dos outros”.

Moloc e os moleques

Prestem atenção agora a três versículos seguidos de Lv 18. Lv 18,21 diz: “Não darás nenhum dos teus filhos para ser sacrificado a Moloc”. Ok, eu gosto dos meus filhos e não conheço nenhum Moloc, então, nada de sacrificar um deles. Sim, meus pagãos, Moloc deve ter sido um deus, e nesta época a Bíblia admitia haver outros deuses, o que distinguia o dos israelitas é que era exclusivo daquele povo. O único requerimento do deus particular do antigo povo de Israel era que, já que ele foi legal e os retirou do Egito, fosse considerado o maior de todos (Ex 20, 3: “Não terás outros deuses diante de mim”). Lv 18,22 salta bruscamente da competição com Moloc para “Não te deitarás com um homem, como se fosse mulher: isso é uma abominação”. Estão no mesmo nível: nada de degolar o meu moleque para agradar a Moloc e nada de ser passivo numa transa gay – a pena, inclusive, é a mesma. Com a mesma incompreensível coerência, Lv 18,23 proíbe que homens transem com animais. E, pela primeira vez, acha que é melhor estender a interdição também às mulheres. A galera por lá devia andar a perigo, não é? “Uma mulher não se prostituirá a um animal: isso é uma abominação.”


Levitico01 

Aliás, há apenas quatro pecados “só para mulheres” em Levítico: parir, menstruar, transar com animais e fazer adivinhações. Faz sentido para vocês, meninas? As lésbicas, entretanto, tiveram algum lucro, já que não há qualquer interdição que mulheres se deitem com mulheres. Que tempos! Adoro as listas supercoerentes de Levítico: parir no mesmo nível que copular, sacrificar o filho é praticamente o mesmo que sexo entre homens.
O Antigo Testamento hebraico não tem uma palavra para “homossexualidade” ou “homossexualismo” – a preocupação é com o comportamento. Não se pode transar com parentes, não se pode transar com bicho (nem as mulheres podem, está confirmado), não se pode transar com a mulher de outro homem e não se pode transar com outro homem “como se fosse mulher” (em Canaã a preocupação era só com o sexo homossexual passivo, viu meninos?).

Depois de cuidar do sexo, no capítulo 18, Levítico dá regras sobre agricultura (não se pode misturar dois cereais diferentes no mesmo campo) e dispara mais um monte de mandamentos no capítulo 19, dentre os quais dois dos meus prediletos: a proibição de xingar surdos (v. 14) e a de dar rasteira em cegos. Isso me parece aquelas proibições que se leem por aí em locais públicos, como a de urinar no chão do banheiro ou de cuspir no metrô. Como ninguém proíbe o que as pessoas naturalmente não fariam, derrubar ceguinhos e dizer palavrões a surdos devem ter sido duas das diversões locais no século 14 a.C. O meu terceiro mandamento predileto está em Lv 19,27: “Não cortareis o cabelo em redondo, nem rapareis a barba pelos lados”. Se eu fosse Moisés, completaria com um mandamento só para mulheres “Não abusareis do animal print nem vos enfeitareis com mais de cinco acessórios dourados ao mesmo tempo”. Cada um com seu gosto: Moisés curtia um barbão, eu não curto peles de répteis.


Acho particularmente interessante o Lv 19,20, especificamente sobre sexo com escravas. Notem que se o cara for para a cama com a mulher de alguém, tem que morrer, ele e a mulher. Pois bem, “se um homem se deitar com uma mulher escrava desposada com outro, mas não resgatada nem posta em liberdade, serão ambos castigados, mas não morrerão, porque ela não era livre”. Basta oferecer um carneiro como “sacrifício de reparação” e está liberado. Alegrem-se, meninos: é só controlar quantos carneiros ainda se tem no pasto e se jogar na fornicação; só não se pode fazer com a mulher que pertence a outro homem. É a origem do “lavou [com sangue de cordeiro], tá novo”.


Na lista do proibidão ainda tem: usar roupas tecidas com duas espécies de fio, comer os frutos das três primeiras colheitas da sua roça (a agroindústria deve praticar muito isso em Israel hoje) e fazer tatuagens com figuras (“Wilsão, amor para sempre” está superliberado).


No capítulo 20, o santo livro que os homofobíblias querem que substitua o nosso Código Penal trata das penas pela violação das interdições. Sacrificar filhos a Moloc (acho um nome digno para um deus), amaldiçoar pai e mãe, fazer adivinhações, transar com mulher casada, madrasta, nora, ou outro homem “como se fosse mulher” (v. 13), com sua mãe ou sua filha, ou com bicho, tudo isso se paga com a morte. Incesto, adultério masculino, sexo homossexual masculino, práticas divinatórias, zoofilia e amaldiçoar os pais estão todos no nível máximo da transgressão. E há penas de excomunhão, como no caso de se transar com uma mulher menstruada, comer sangue de animais (Lv 17), fazer sacrifícios fora do templo. No capítulo 21 tem uma dessas penas adoráveis da lei mosaica (Lv 21, 9): se a filha de um sacerdote tiver relação sexual sem ser casada “será queimada no fogo”. Nice and sweet! Em Lv 24, 17-20 se apresenta, enfim, toda a doçura da Lei do Talião, a que manda cobrar olho por olho e dente por dente. Tão levítico!


Excomunhão e pena de morte são para os indivíduos, mas se essas doces leis não forem aplicadas, o deus de Levítico manda dizer que vai detonar geral. E o diz sem palavras suaves nem misericordiosas no final do livro (Lv 27): mandará doenças, soltará feras “que devorarão vossos filhos” (v. 22) e animais de criação, lançará a peste, entregará o povo aos seus inimigos, destruirá as cidades e, por fim, “comereis a carne dos vossos filhos e filhas” (v. 29). Canibalismo total no horizonte.


Não se pode fazer uma moral seletiva

Eis o espírito da “Bíblia que condena os homossexuais”. Quando alguém me diz que organiza todo o seu julgamento moral sobre a homossexualidade a partir de Levítico eu só consigo pensar que ele nunca leu ou entendeu Levítico ou não tem a menor ideia do que seria organizar sua vida e a experiência social por esse livro. Ao pé da letra, Levítico é arcaico, anacrônico, cruel. Muito cruel. Como alguém pode sequer imaginar que uma sociedade de 3.400 anos atrás poderia prover a norma moral e legal para sociedades democráticas do século 21 é algo que me escapa ao entendimento. E como se pode sequer suspeitar que um livro escrito por sacerdotes e para justificar o domínio social dos sacerdotes (claramente, o livro é feito para colocar a tribo de Aarão no topo do poder político) possa ser base moral, intelectual e legal para sociedades laicas, baseadas no conhecimento científico, na tolerância moral, no Estado de Direito, na ideia de direitos humanos e no princípio da igualdade entre todas as pessoas?

E, se alguém diz que o livro deve ser seguido ipsis litteris porque é fruto da revelação de Deus, eu só consigo pensar que essa pessoa não tem a menor ideia do que possa teologicamente significar “revelação”. Uma pessoa dessas só pode ter uma concepção infantil da fé, segundo a qual um deus que tem semelhança aos homens teria ditado, palavra a palavra, e já em sua forma final, cada letra dos livros sagrados do judeo-cristianismo. Uma compreensão dessas está para a teologia como a crença em dragões e unicórnios está para o universo científico.

De qualquer modo, o teste definitivo a que devem ser submetidos os que querem fazer de Levítico a régua e o compasso para a sua decisão moral (e a dos outros) é exigir-lhes coerência. Primeiro, não se pode fazer uma moral seletiva: não há razão aceitável para dizer que vale a regra da “abominação homossexual” e não a outra centena de regras que abominam milhares de comportamentos humanos, práticas, pessoas e coisas, inclusive os tabus alimentares. Segundo, não se pode ficar só com as proibições, então temos que assumir todo o quadro moral: passaremos os dias fazendo sacrifícios rituais pelos nossos pecados matando ovelhas e cordeiros nos altares das cidades? Faremos excursões aos povos vizinhos para adquirir escravos e escravas (sexo à vista!) que passaremos aos nossos filhos como propriedade? Toda a tarde reuniremos os adúlteros da cidade para um ritual coletivo de apedrejamento básico? Alguns dias por mês não faremos um carinho sequer nas nossas filhas e não tocaremos sequer as roupas das nossas mulheres para evitar que fiquemos impuros com a sua imundície moral? Proibiremos o abate de porcos e o uso de gordura animal de qualquer espécie? Uma vez ou outra, tocaremos fogo em alguma mulher para honrar a Lei do Senhor?

Porque é lícito exigir que se alguém escolhe Levítico como regra moral para decidir o que é certo e errado para os outros, tem que assumi-lo por inteiro para si e viver segundo as suas normas. Mas, não: principalmente essas pessoas, em geral, não aceitam examinar racionalmente a norma moral que eles depreendem desse livro. Não seriam anacrônicas e excessivamente relacionadas a mentalidades que, depois, foram superadas? Será que o propósito do livro, na verdade, não era garantir a fecundidade, e não há razão hoje para mantermos a norma X, uma vez que a norma Y e Z claramente não podem ser aplicadas? Essas perguntas, que caberiam num universo moral conduzido pela razão, são, em geral, recusadas dogmaticamente. Então, só resta a solução contrária: quem crê na norma X de Levítico tem que viver todo Levítico. Aí, eu quero ver. Levítico no dos outros é leite e mel, agora tente aplicá-lo a si e depois me conte.

Na verdade, gente que diz “sigo a Bíblia”, antes de cuspir uma condenação à orientação homossexual, faz mais mal à religião do que aos homossexuais. Afinal, se leitores e seguidores da Bíblia não forem moralmente superiores aos do Mein Kampf, mais vale que leiam o livro de Hitler, já que é mais curto. Se os filhos da luz forem mais preconceituosos e malvados e tiverem o coração mais impermeável (que é a definição de “impiedade”) do que os filhos das trevas, melhor seria sair com os segundos, sabidamente mais espertos e mais divertidos. Da minha parte, nunca consegui identificar um único artigo da fé cristã violado pela admissão da homossexualidade como parte da natureza humana. Na verdade, a homofobia de base religiosa parece-me menos um ato de fé do que uma via reta para a impiedade.

Wilson Gomes é professor titular da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia.

Ilustrador convidado: Mário César.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Por que eu teria dado voz de prisão a Levy Fidelix no debate da Record

O Serviço de Alto Falantes Ornitorrinco, por importante, informa que o couro deste jaguara homofóbico está negociado, e a preço vil. Pelo que sei PSOL, PT, OAB, Secretaria Estadual da Diversidade (SP) adotaram medidas legais contra este filho da puta.
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Copiei de O Charuto
29 de Setembro de 2014, por Tania Mandarino


A todos que estão questionando sob quais fundamentos legais eu, no lugar da Luciana Genro, teria dado voz de prisão ao Levy Fidelix no debate de hoje, na Record, explico que, primeiramente o candidato violou o Princípio Constitucional da Dignidade da Pessoa Humana, valor universal e princípio fundamental segundo o qual, já ensinou o jurista Dalmo Dallari, não importam as diferenças, todas as pessoas são detentoras de igual dignidade, pois, embora diferentes em sua individualidade, apresentam, por sua humana condição, as mesmas necessidades e faculdades vitais.

A condição humana nos torna a todos, credores de igual consideração e respeito por parte de nossos semelhantes.

Direito fundamental, a Dignidade da Pessoa Humana está assegurada no inciso III do artigo 1º da Constituição Federal e é valor fundante da República!

Levy Fidelix o violou hoje, em rede nacional.

Segundo o artigo 301 do Código Penal brasileiro, qualquer cidadão tem o poder de anunciar a prisão de uma pessoa que cometa flagrante delito. Não é necessária a presença da autoridade no momento do flagrante, basta o simples anúncio.

o Art. 3º da Constituição Federal define que o objetivo da República Federal do Brasil também consiste em "IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação." O artigo 5º, inciso XLI diz que "a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais",

Liberdade de pensamento e de expressão está umbilicalmente ligada ao conceito de respeito pessoal e coletivo de modo que ofensas pessoais ou promoção de estereótipos negativos que atingem grupos não cabem no conceito de liberdade de expressão, e são crimes passíveis de punições cíveis e penais.

Ainda que a homofobia não seja criminalizada no Brasil, a Declaração Universal dos Direitos Humanos assevera:

Artigo I: Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.

Artigo II: Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.

Feitas as devidas considerações, reitero: se estivesse no lugar da Luciana Genro naquele debate de hoje na Record, eu teria dito ao sr. Levy Fidelix: "O sr. está preso, em nome da Lei!".

(por Tânia Mandarino)

sábado, 13 de setembro de 2014

De Ingrid Soares para o menino João Donatti

Copiei de Ingrid Soares

Ô, meu menino, vem cá.
Deixa eu limpar o teu corpo. Cospe longe esse papel cheio de ódio que te enfiaram na boca. Tua boca é pra beijar, pra sorrir, pra falar de amor.
Ei, vamos cuidar dessas pernas, que desse jeito, você não vai correr mundo. E o mundo é pra correr.
Vem cá, João, se afasta dessa gente que tem medo de liberdade.
Fica aqui, fica do meu lado que eu te protejo. 
Pode ser, pode ser à vontade que você tem vontade de ser.
Desculpa por toda essa confusão, é que nessa mania que a gente tem de se levar a sério, um monte de gente saiu por aí pregando certezas e erradezas da vida. E a gente tão pequeno. E a gente tão mesquinho. E a gente se afastando de tudo o que realmente é importante.
Ai, que dor. Essa impotência sangra muito, menino, fragmenta os ossos, diminui.
Queria ter voz firme pra proclamar a alforria, pra mandar te deixarem solto, livre, bonito, em paz.
Mas eu nada. 
Vou rezar uma ladainha e mastigar o conformismo.
Vou cantar baixinho pra ver se a tristeza se desinteressa de mim.
Vou falar de você. Vou levantar uma bandeira com o teu nome nas praças.
Veja só, meu pequeno, tem gente na tv dizendo que o que te fizeram tá é correto. 
Que loucura essa tv, que loucura esse mundo. 
Espero que no seu novo lugar, as coisas sejam diferentes, tá? Espero que nem haja tv. Espero que você possa amar. E ser. Eu acredito, é o que me resta.
Afetuosamente,
Eu.
(A João Donati, brutalmente assassinado aos 18 anos, por sentir atração sexual e afetiva por homens.
A João Donati, que poderia ser - e, de certa forma, é - meu filho.)