SOBRE O BLOGUEIRO

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Antonina, Litoral do Paraná, Palestine
Petroleiro aposentado e petista no exílio, usuário dos óculos de pangloss, da gloriosa pomada belladona, da emulsão scott e das pílulas do doutor ross, considero o suflê de chuchu apenas vã tentativa de assar o ar e, erguido em retumbante sucesso físico, descobri que uma batata distraída não passa de um tubérculo desatento. Entre sinos bimbalhantes, pássaros pipilantes, vereadores esotéricos, profetas do passado e áulicos feitos na china, persigo o consenso alegórico e meus dias escorrem em relativo sossego. Comendo minhas goiabinhas regulamentares, busco a tranqüilidade siamesa e quero ser presidente por um dia para assim entender as aflições das camadas menos favorecidas pelas propinas democráticas.
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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Por baixo da lama: Uma tragédia em quatro atos, por Pedro Munhoz

Copiei de Jean Wyllys

Excelente crônica política e humana do Pedro Munhoz, militante do PSOL de Minas Gerais, escrita com a dor e a memória das vítimas da tragédia de Mariana e com a coragem que precisamos para dar nome aos responsáveis e seus cúmplices.

Primeiro Ato: Abandono
Aconteceu em 2002. A casa que meus pais mantêm em Camargos, distrito de Mariana que fica a 15 quilômetros do perímetro urbano da primeira capital de Minas Gerais, havia sido invadida e roubada. Vaninha, que cuidava da casa enquanto não estávamos por lá, me ligou em casa. Meus pais que estavam viajando, não poderiam cuidar do registro da ocorrência. Coube a mim, portanto, na época um estudante de 21 anos que tinha acabado de tirar carteira, ir até o local para tomar as devidas providências. Chamei um amigo de meu pai, Antônio Rubens, para ir comigo, dirigindo, pois eu ainda não tinha segurança para pegar estrada.
Quando chegamos em Mariana, decidimos parar em uma delegacia para poupar tempo. Apesar da pouca distância entre Mariana e Camargos, a estrada de terra, estreita, sem sinalização, demandava tempo e cuidado para ser percorrida; lá não existia sinal de celular e o único telefone público do lugarejo nem sempre funcionava. Pensamos ser mais fácil comunicar o furto à polícia antes de seguirmos em direção a Camargos.
Na delegacia, a má vontade. O atendente, que torceu a boca e fechou os olhos quando nos ouviu dizer que o local da ocorrência era Camargos, nos explicou que todas as viaturas da cidade estavam com defeito e que até poderia disponibilizar dois policiais para irem conosco até o local, desde que nós os transportássemos até lá. Topamos. Dois policiais militares entraram conosco no carro e se sentaram no banco traseiro, enquanto eu e Rubens seguíamos na frente.
Entre conversas ligeiras e trechos de um silêncio constrangedor, a viagem correu normalmente, até que, diante do lixão de Mariana, que fica mais ou menos na metade do caminho entre Mariana e Camargos, vi um dos policiais cutucar o colega, empolgado.
“Tá vendo esse mato? Aqui é desova de cadáver. Vira e mexe, acham um presunto por aí. Os caras sabem que ninguém vem aqui mesmo; aí, quando eles matam alguém, jogam por aí mesmo.”
Do alto de minha inocência de estudante de Direito com 21 anos de idade, perguntei por que a polícia não montava vigilância no local, já que sabia da fama do local. O policial riu. Disse que tinham poucos homens, poucas viaturas e que os cadáveres que eram desovados ali eram de bandidos. Que não valia a pena, embora meia Mariana conhecesse a fama do trecho. Sem saber o que dizer, me calei.
A viagem seguiu, o carro singrando vagarosamente a estrada, trepidando nos buracos, fazendo subir poeira. Sempre achei o caminho entre Mariana e Camargos, depois do lixão, bastante aprazível. Até chegarmos ao aterro, a paisagem era, quase toda ela de domínio da Vale, com os barrancos escavados e nus, uma sinistra lagoa de dejetos cercada com arames, caminhões carregados de minério que iam e vinham. Ali, naquele trecho, estava representada a renda do município de Mariana, que tem o décimo maior PIB do estado, quase todo ele decorrente da mineração. Do lixão até Camargos, porém, a Mata Antlântica se cerrava e tínhamos que andar devagar para não acabar atropelando uma ou outra jaguatirica mais ousada. Em um dado trecho, víamos a parte de trás da Serra do Caraça, para onde, ao cabo, a estrada levava, depois de passar por Camargos, Bento Rodrigues, Santa Rita Durão e Catas Altas.
Um ano antes, surgia o projeto da Estrada Real, que, encabeçado pela FIEMG, prometia levar desenvolvimento para toda a região. O trecho que percorríamos com os policiais, onde havia a lagoa de dejetos da Vale, o Lixão e área de desova de cadáveres, fazia parte da Estrada Real. Consigo me recordar de alguns moradores de Camargos e Bento Rodrigues se animando com as perspectivas. As cooperativas da região começaram a ressurgir e alguns moradores passaram a ampliar a área construída de seus terrenos para construir pousadas e restaurantes. Receberiam turistas, melhorariam de vida. Alguns sonhavam com a estrada asfaltada. Quando chovia forte, os carros não passavam por ali, havia desmoronamento e gigantescos criadouros de barro, onde os automóveis atolavam. As unidades de atendimento de saúde, por exemplo, ficavam em Mariana. Se alguém se ferisse ou adoecesse em época de chuva, o transporte era, sempre, muito difícil.
Depois de um longo trecho reto, atravessamos um ribeirão com o carro. A ponte havia desabado há alguns meses com uma chuva e não havia sido substituída por outra. Depois de mais quinhentos metros, avistamos a casa de meus pais, no canto direito da estrada; a primeira do vilarejo que se avistava ao chegar de Mariana.
A janela de ferro havia sido arrancada e, por ali, entraram os assaltantes. Reviraram tudo, sacaram da parede os quadros a procura de um cofre, levaram um forno micro-ondas, uns casacos, comeram uns doces em compota, usaram o banheiro. Ajudei a inventariar as perdas e, em um dado momento, fui até o alpendre, na parte de trás da casa, fumar um cigarro. Foi quando o policial, o mesmo que conhecia a fama das proximidades do lixão, se aproximou de mim e deu um tapinha cúmplice em meu ombro. “Parece que os vagabundos gostam de um docinho, né?” perguntou, referindo-se aos doces que os invasores haviam comido. “Sim”, respondi, tentando não render assunto. Do alpendre, se via o terreno, que se estendia até um ribeirão. Eu estava olhando fixamente para frente, mas o policial continuava ali. “O terreno de vocês é grande…” disse, após algum tempo. “Fala pra sua mãe deixar uns doces preparados aí, com chumbinho. Vagabundo entra, come, morre; vocês enterram os caras aí atrás e ninguém vai perceber, ninguém vai dar falta, deve ser alguém dessa região aqui mesmo. Fiz o BO, mas não vai dar em nada. Vamo puxar o carro?”
Voltamos para Mariana em silêncio. Hoje eu saberia o que fazer a respeito da sugestão do policial; na época eu não fazia ideia. Seguindo por mais oito quilômetros para além da nossa casa, ficava Bento Rodrigues.
Naquele dia, eu aprendi que nem Camargos nem Bento Rodrigues existiam para Mariana, para o estado de Minas Gerais, para ninguém. A civilização acabava onde acabavam as terras da Vale, no lixão, onde a cidade de Mariana depositava seus dejetos orgânicos, inorgânicos e, de acordo com o policial, também os humanos.
Aconteceu, treze anos antes da lama.

Segundo ato: Prelúdio
Marquinhos, que residia em Bento Rodrigues, é pedreiro. Irmão de Vaninha, que é a caseira do sítio de minha família, ergueu, com a ajuda de apenas um auxiliar, a confortável casa de quatro quartos que costumávamos visitar nos fins de semana em Camargos. É um sujeito falador, de temperamento alegre, conhecido na região por sua competência. Fazia um tempo que não o via e fui encontrá-lo, no sábado que se seguiu ao rompimento da barreira que destruiu o povoado onde ele vivia, abrigado em um hotel de Mariana, com a esposa, Silvana, e o único filho. Na ocasião, eu estava trabalhando como voluntário, ajudando no cadastramento das vítimas. Minha mãe, que se tornou próxima do povo de Camargos e do Bento, estava comigo.
Fomos cadastrá-lo. Nossa função era inventariar os bens que ele perdeu com o mar de lama e saber de suas necessidades imediatas. Marquinhos, com os olhos marejados, nos contou que vinha sonhando com uma voz que lhe incitava a sair do Bento. Tinha o mesmo sonho com frequência e chegou mesmo a se convencer de que sair do lugarejo era uma necessidade. Silvana, no entanto, relutava: seu pai e todos os seus parentes estavam lá e ela fazia parte de uma cooperativa, lá no Bento, que vinha crescendo com a produção de compota e geleia de pimenta biquinho.
Marquinhos se emocionou diversas vezes durante a entrevista. No momento em que tomou ciência do rompimento da barreira, ele estava trabalhando em Camargos. Correu para ajudar a resgatar as pessoas que estavam perto da área atingida por lá, no local, onde antes existia uma cachoeira mansa e gostosa, com apenas três metros de queda d`água, segura para crianças, rasa. Pensou na esposa e no filho, que estavam em Bento Rodrigues. Ela se salvou com ferimentos nos braços e pernas, correndo do tsunami de lama. O filho, de quinze anos, que a ajudou e estava ileso.
Quando estávamos inventariando os bens que pereceram sob a lama da Vale, ele chorou. Em seu celular, nos mostrava fotos de tudo aquilo que ele conquistara com o seu trabalho. Ele aparece, felizão, segurando uma cerveja, em frente à vistosa churrasqueira de sua casa; orgulhoso, digitando algo no notebook que havia comprado. Nos mostrou a adega de madeira que ele mesmo tinha construído, a tv de tela plana, a geladeira nova, os armários da cozinha. Ele havia registrado tudo sem imaginar que suas conquistas pereceriam, de um momento para o outro, diante do absurdo que é uma invasão de lama.
Marquinhos, como outros, nos relatou que vinha recebendo ofertas da Samarco pelo seu terreno. A empresa estava de olho na área onde se erguia o vilarejo há anos, mas os esforços haviam se intensificado de 2013 para cá. As pessoas que ali viviam, no entanto, unidas que eram por laços de solidariedade e parentesco que podem ser frutos, inclusive, do próprio isolamento do local, não cediam.
Quando eu conheci Bento Rodrigues, quinze anos atrás, era um vilarejo como qualquer outro, mas, da última vez em que fui lá, dois ou três anos atrás, ele já se encontrava quase que circundado por um fosso, concebido pela atividade mineradora, com um acampamento de trabalhadores da Samarco ao lado.
Os tentáculos da empresa se insinuavam cada vez mais, eles estavam cada vez mais perto, batendo na porta, ansiando por entrar e saquear, esburacar, desfigurar o arraial setecentista.
Marquinhos, que ali vivia há anos, deve ter deixado esse avanço, essa invasão, gravada em seu inconsciente. A desfiguração do entorno pode ter sido aquela voz, que ele ouviu em sonho. Depois do fato acontecido, é muito fácil ser profeta, mas, para ele, o prelúdio do apocalipse já se desenhava com contornos nítidos, tão nítidos quanto os buracos no entorno de Bento Rodrigues ou as reiteradas ofertas da Samarco para esvaziar o vilarejo.
O obstáculo que a Samarco/Vale enfrentava para explorar a região da forma como ela queria, eram as pessoas que, como Marquinhos e Silvana, alimentaram a ilusão de que poderiam resistir e ali, construírem suas vidas. Mas quem pode resistir a um tsunami de lama?

Terceiro ato: Cheiro de Morte
Dona Andrina vive em uma bonita casinha do século XVIII, em Camargos, caiada de branco, com portas e janelas azuis, em Camargos. Sua casa fica bem em frente a um cruzeiro de pedra sabão. De sua janela, se vislumbra a Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Camargos que, ao que consta, já teve teto pintado e imagens sacras de elevado valor. Hoje, o teto se resume a algumas vigas de madeira podres. As imagens são novas, eis que as antigas foram, em algum momento, deslocadas para lugar mais seguro (ou roubadas, nunca se sabe).
Dona Andrina e Vaninha guardam as chaves da Igreja, o que, para o povo de Camargos, é uma honra e uma gigantesca responsabilidade. Sem missas regulares há anos, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição ficava abandonada durante a maior parte do ano.
Eu me lembro de, quando jovem, subir as carcomidas escadas para a torre da igreja e encontrar por lá, em meio às fezes de ratos e pombos, instrumentos musicais enferrujados de bandas do século XIX.
Ao lado da Igreja, suntuosa em suas linhas simples, de barroco lusitano, existe um cemitério, com muros, também, caiados de branco. Lá, predominam as cruzes de madeira, mais simples. Apenas um túmulo mais ornamentado, de ardósia, ajuda a criar um certo contraste.
No adro, acontece a festa da padroeira, ocasião ímpar de encontro, com barraquinhas, música em alto-falantes, canjica grátis, quentão.
Faz tempo que ouvia que a Igreja, tombada pelo Patrimônio Histórico de Minas, ia acabar caindo por falta de cuidado. Curiosamente, mesmo com o suposto “abalo sísmico” que teria levado à ruptura de uma estrutura de engenharia do século XXI, como a barragem, a velha igreja continua lá.
A lama da Samarco não encobriu toda Camargos, apenas a área mais próxima de Bento Rodrigues, que incluía a cachoeira e algumas propriedades contíguas. Mesmo assim, o antigo arraial minerador foi evacuado pela Defesa Civil, sob a alegação de um risco que ninguém sabia explicar. Afinal, de acordo com a Samarco, a lama não é tóxica. Afinal, de acordo com a Samarco, a outra barragem não corre riscos de se romper.
Vaninha saiu e foi ficar na casa de parentes em Mariana. Ela, mulher guerreira, além de trabalhar como caseira em alguns sítios em Camargos, abriu um restaurante no lugarejo e vinha melhorando de vida com sua atividade. Vaninha tem sete filhos, sendo que o último era ainda bebê quando o marido faleceu e, aos trinta e nove anos, já era avó.
Dona Andrina, no entanto, resolveu ficar. Mais idosa, com o marido doente, não tinha para onde ir. Na sexta-feira, um dia depois do rompimento da barragem, conseguimos falar com ela ao telefone. Ela nos contou, aos prantos, do insuportável cheiro de enxofre que tomava conta de Camargos,
Outro odor, o de cadáveres apodrecidos, povoa a narrativa do povo de Bento Rodrigues. A vida que ali existia foi invadida por um cheiro de morte, por emanações infernais.
No sábado, Vaninha resolveu que, a despeito do que dizia a Defesa Civil, voltaria a Camargos. Corriam boatos de saques contra as casas vazias, tanto de Bento quanto de Camargos. Ela está de volta à sua casa. Afinal de contas, segundo a Samarco, o lugar é seguro, embora deva permanecer desocupado. Faz-se necessária agora uma dosagem de coerência. Afinal: é seguro ou não é?

Quarto ato: O andar de cima
Sobre o lixão de Mariana, que ficava ao lado do local de desova de cadáveres, antes de Camargos e Bento Rodrigues, pairavam aves altivas, de voo admiravelmente belo, mas que suscitavam nas testemunhas pequenos arrepios de terror. Não há nada de feio nos urubus, mas eles têm o condão de nos lembrar de coisas que certamente nos afligem, como, por exemplo, a finitude, a fragilidade de nossos sonhos.
Depois do rompimento da barragem, uma nova categoria de urubus começou a pairar por sobre a carniça do povo simples de Bento Rodrigues.
Um ex-governador, a pretexto de prestar solidariedade às vítimas, declarou que não era o momento de procurar culpados. Mas foi o seu preposto e sucessor quem concedeu as licenças para que se construísse a barragem que não resistiu a um imaginário sismo.
O atual governador, adversário do anterior, tentando demonstrar que era solidário à “tragédia” que se abateu por sobre um povo para quem ninguém nunca atentou, escolheu dar uma entrevista coletiva na sede do algoz, na casa da Samarco.
O desalento que disso resulta só nos prova que estamos nós, brasileiros, escolhendo entre os urubus domésticos de plumagem azul e os de plumagem vermelha. Domésticos, sim, eis que pertencem e docilmente falam em nome dos interesses da Vale, a responsável por destruir os sonhos de dezenas de pessoas e que, agora, pretendem se alimentar da carniça dos inocentes para adquirir certa substância política.
A Vale irá, gentilmente, ceder aos seus prepostos a mesma salutar dose de carniça alheia. Enquanto isso, a lama avança e, em muito breve, teremos mais carniça disponível. As aves de rapina, certamente, irão se locupletar e crescer, fortes e viçosas. E continuaremos a admirar o seu voo, passivamente, lá no alto, onde nossa voz não alcança.

sábado, 17 de outubro de 2015

O sapo de três cabeças, o escorpião e o tucano: uma adaptação contemporânea


Copiei do Pautando Minas


Pedro Munhoz 

Diz uma antiga fábula que, em um certo país governado por um grande e inerte sapo de três cabeças, um escorpião, muito peçonhento e esperto, sobre quem recaíam sérias denúncias de recebimento de propinas, contas ilegais no exterior e intimidação de testemunhas, foi informado por seu advogado de que, para livrar a própria carcaça, precisaria atravessar um caudaloso e lamacento rio. Do outro lado do rio, disse o advogado, o escorpião encontraria, além do esquecimento dos crimes cometidos por ele, um saboroso plantel de pequenos mamíferos indefesos e atordoados para que ele se alimentasse até a saciedade e, também, variadas e novas oportunidades de novos ganhos financeiros, que fariam do escorpião um animal peçonhento ainda mais rico, bem nutrido, poderoso e influente.

O escorpião, no entanto, sabedor de que seria incapaz de atravessar o rio sozinho, firmou uma série de acordos com um bando de ratos que faziam parte da corte do sapo de três cabeças mas que, na verdade, nunca haviam sido lá muito simpáticos ao velho batráquio-rei. Os ratos, por conta da terra-arrasada que havia se tornado uma inegável realidade do lado de cá do rio, também desejavam atravessar para a outra margem, onde, dizia-se, existiam, além de tudo, as maiores e melhores pizzarias do reino.

O objetivo do consórcio entre o escorpião e os ratos era, por meio de uma série de chantagens e ameaças, fazer com que o sapo transportasse a todos, em segurança, nas suas costas, para o outro lado do rio. Afinal, sapos sabem ou deveriam saber atravessar rios e aquele sapo em especial, que governava um país, tinha as costas largas o bastante para transportar para outra margem todos os animaizinhos rebeldes, tanto o escorpião, quanto sua legião de ratos.

Porém, o escorpião sabia que o sapo já não era tão grande e forte como já fora um dia e, apenas para garantir, foi conversar com o ressentido tucano das montanhas, que há muito tempo, pretendia depor o sapo e passar a governar o país. Afinal, o tucano, por, em tese, saber voar, também seria capaz de transportar o escorpião em suas costas para a outra margem do rio, onde jorrava leite, mel e petróleo do pré-sal, mas não existia Ministério Público.

O escorpião encontrou-se com o tucano no fabuloso balneário de Leblônia, onde a ave se refugiara após perder a última batalha pelo trono para o sapo, para tentarem um acordo, mas o que o animal peçonhento acabou encontrado não lhe deixou lá muito seguro. O pássaro estava com o grande e imponente bico inchado e torto, a asa esquerda estava quebrada; a direita, hipertrofiada. Além disso, o outrora vistoso pássaro tropical parecia obcecado, paranóico, vacilante e havia se rodeado por um barulhento exército de galinhas verdes bastante ariscas, que começavam a bicar panelas de alumínio cada vez que o nome do sapo de três cabeças era mencionado, ou que viam suas fotos nos jornais ou sua imagem nas redes de televisão do reino.

O tucano ficou feliz com a conversa e muito contente de saber que o escorpião havia reunido um exército de ratos para achacar e pressionar o sapo a atravessar o rio e fez uma proposta ao animal peçonhento: se o lacrau conseguisse afogar o batráquio no rio, sem deixá-lo chegar à outra margem, o tucano se encarregaria de transportar o escorpião para onde quisesse. O escorpião não disse nem que sim que não, sorriu, brindou com o combalido tucano e voltou para sua toca para pensar nas possibilidades que tinha diante de si.

A ave, por sua vez, após se despedir do escorpião, sorveu, rapidamente, uma dose generosa de whisky cowboy e pensou: "Eu jamais vou colocar esse animal venenoso por sobre a minha plumagem macia para transportá-lo para onde quer que seja. Ele pode me aferroar, está em sua natureza. Vou deixar que ele afogue o sapo de três cabeças, meu inimigo,e depois vou deixá-lo entregue à própria sorte."
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O sapo que governava aquele país, como já foi dito, tinha três cabeças. A do centro, ostentava o rosto de uma mulher e parecia pensar de forma mais burocrática, endurecida e seca. No seu papel de cabeça central, caberia a ela colocar, em condições normais, as duas cabeças periféricas em seus devidos lugares e, por alguns anos, claramente, foi a cabeça predominante. A cabeça da esquerda era a de um homem barbudo, que fumava um charuto e usava uma boina vermelha. Gritava constantemente palavras de ordem e era boa para discursar para a população mais pobre do país, sendo, também, bastante combativa em batalhas, como aquela que derrotou o tucano das montanhas. Não parecia gostar muito de sua nêmese, a cabeça mais à direita que, por sua vez, tinha o rosto de um homem imberbe, com gravata borboleta e óculos de aros metálicos, redondos. Esta cabeça só falava em números, soltava um risinho cínico todas as vezes que a cabeça da esquerda abria a boca e vivia reclamando, dizendo que o corpo do sapo estava grande demais, que era necessário diminuir o tamanho do sapo e que o povo daquele país precisava de fazer sacrifícios junto com o sapo, para que ambos ficassem cada vez menores, mais fracos, porém mais leves e esguios. Quando falava demais, a cabeça à destra, obcecada com silhueta, arrumação e números, acabava emitindo trinados exatamente iguais ao do tucano das montanhas, levantando suspeitas em todos de que aquela porção do sapo tinha, na verdade, origem ornitológica.

O rei só era capaz de decidir algo e de se movimentar em alguma direção quando havia alguma concordância entre as três cabeças ou, pelo menos, quando uma delas apenas era vencida e se resignava. Para tanto, a cabeça do centro exercia um papel primordial, de juíza do que diziam as demais. Desde a última batalha contra o tucano, porém, a cabeça do centro parecia distante, um pouco perdida, dormindo demais. Para tornar a situação ainda mais complexa, na última guerra, o sapo havia se cercado de uma corte nada confiável de ratos, alguns dos quais, como já se disse, haviam se aliado ao escorpião. Com a cabeça do centro reduzida a um estado de torpor e à batráquia função de, vez ou outra, comer moscas (comer moscas, nunca se esqueçam, é algo próprio da natureza dos sapos); os ratos ganharam força e decidiriam que, sozinhos, governariam o país; a cabeça da esquerda passou a tentar enxergar no torpor e no degustar insetos da cabeça central, sua líder, alguma insondável, incompreensível, porém genial estratégia revolucionária que a levaria, guiada pela cabeça central, a derrotar a antipática cabeça da direita e a sepultar, definitivamente, o maligno tucano das montanhas; a cabeça da direita, por sua vez, passou, sozinha, a elaborar escorchantes e absurdos decretos para reger o país, falando sempre em nome da cabeça central, que não manifestava nenhum tipo de oposição às cada vez mais impopulares medidas.

Não bastasse esse confuso estado de coisas, o tucano vencido na última batalha e seu exército de galinhas verdes, inconformados com a derrota, tramavam, às vistas de todos, afogar o sapo no rio para assumir o poder. Como o sapo não reagisse e, com a maligna cabeça da direita ditando as regras, boa parte do povo do país, que lutara a favor do sapo na última batalha, começou a pensar que ver o sapo se afogando no rio talvez não fosse assim uma idéia tão má. Afinal, apenas a cabeça da direita estava governando de fato e, ultimamente, dizia-se, estava tão parecida com o tucano da montanha que tinha até desenvolvido, no lugar do nariz, um pequeno bico que, no entanto, crescia um pouco a cada dia.

Foi esse sapo adoentado, mero reflexo de sua antiga grandeza, que, dizem por aí, acabou topando se encontrar com o escorpião para tentar um acordo. O influente animal peçonhento, que, repetidas vezes, havia ameaçado o sapo de afogamento e sempre exibia para o batráquio seu imenso e venenoso ferrão de forma ameaçadora, teria dito, com sua voz macia, que, caso o sapo concordasse em transportar a ele e a alguns ratos em suas costas para a margem segura do rio, poderia, muito bem, apontar o seu ferrão contra o tucano da montanha e suas galinhas no decorrer da travessia, garantindo, assim, que o sapo chegaria, também, do outro lado em segurança.

Como as três cabeças do sapo não andam funcionando muito bem, talvez elas tenham se esquecido do fato de que o tucano, ferido e também doente, provavelmente não tem, hoje, muita autonomia de vôo, além de não saber nadar. Que suas galinhas verdes, apesar de barulhentas e de ciscarem o alumínio com maestria ímpar, nunca souberam voar (e caso resolvam andar com os patos ou sapos, morrerão afogadas, pois também, de águas e correntezas, não entendem nada).

Talvez as três cabeças do sapo tenham se esquecido que o ferrão do escorpião só trabalha por ele e de que está na natureza desse animal, infelizmente, inocular veneno. Que qualquer travessia, com um escorpião venenoso e traiçoeiro nas costas, talvez seja longa e perigosa demais. Talvez.

Se o sapo tem dúvidas, poderá sempre perguntar às algumas poucas vítimas do perigoso lacrau que, inoculadas com o veneno do escorpião, sobreviveram para contar a história. Sabe-se, ao menos, da triste história de um garotinho, que confiando no animal, com quem gostava de passear, o alimentou e dele cuidou por anos, até tomar uma ferroada. Mas com nenhuma das três cabeças do sapo funcionando em harmonia, talvez seja pedir demais esperar que elas procurem saber disso.

Resta-nos esperar pelo fim desta triste quase-fábula que, ao que parece, não vai terminar com um construtivo provérbio, mas com alguma ou algumas frases lapidares.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Acabou: todas as mulheres agora são lésbicas

O Serviço de Alto Falantes Ornitorrinco, hoje falando urbi et orbi, proclama que a Frente Parlamentar Evangélica é uma pocilga fedorenta, cujos membros chafurdam na gosma da ignorância, do preconceito, da intolerância, da exclusão e do ódio, que nascem da fé obtusa que derreteu o cérebro desta cambada de picaretas religiosos. 
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Quando crescer, quero ser como Pedro Munhoz, 
para escrever textos assim inspirados

Segundo os deputados e senadores que compõem a Frente Parlamentar Evangélica, o amor e o desejo entre duas mulheres é um modismo, criado para afrontar os cristãos e propagado pela Rede Globo.
A Globo, entediada, teria decidido "impor" o lesbianismo para toda a sua respeitável audiência, o que levou os nobres parlamentares a se reunirem em caráter emergencial, redigirem uma nota de repúdio e convocarem a população, por meio de um manifesto escrito em caixa em alta divulgado pelo whatsapp, a um boicote à emissora.
Não importa se o referido modismo seja mais antigo do que o próprio cristianismo, havendo registros históricos de relações lésbicas desde, pelo menos, os tempos do Império Babilônico (o que não significa, por óbvio, que o amor e o desejo entre mulheres não seja, provavelmente, tão antigo quanto a própria humanidade). A Frente Parlamentar Evangélica disse que é um modismo, então deve ser.
Também muito me estranha existirem relações felizes e duradouras entre mulheres na sociedade, já que segundo a Frente Parlamentar Evangélica, tais relações não se construíram com base no afeto, em afinidades e em desejo. Todos esses milhares de relacionamentos partiram única e exclusivamente de uma vontade imensa, incontrolável, sádica e cruel, de deixar o Sr. Magno Malta e os seus amigos cristãos um pouco tristes e bastante incomodados.
Só reprovo na nota de repúdio de nossos legisladores a sua extemporaneidade, já que, considerando que transmitir um beijo lésbico na TV equivale a "impor" o lesbianismo, a iniciativa dos deputados e senadores veio um pouco tarde. O beijo já foi dado e transmitido; o lesbianismo foi imposto e não há mais nada que se possa fazer ou dizer a respeito.
Acabou: todas as mulheres agora são lésbicas, pois tia Globo mandou e João Campos e Magno Malta foram lerdos demais para reagir. Inclusive, por meio desta, cientifico as outrora mulheres heterossexuais de minha timeline sobre sua nova orientação sexual. Pela atenção, obrigado.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

ACUDA MARIA SACUDA!!! COMPARTILHEM ESSE POST ANTES QUE O PT TIRE ELE DO AR!!! VAMOS MOSTRAR A DILLMALLANDRA, LULLARAPIO E CORJA QUE SOMOS MAIS ESPERTOS QUE ELES!!!!!

Copiei a imagem daqui

Copiei do afiadíssimo Pedro Munhoz

ATENÇÃO!! IMPORTANTE!!! VOCÊ NÃO IMAGINA O QUE ESTÃO ESCONDENDO DE VOCÊ!!!

Todos sabemos que a presidAnta Dillmallandra a mando de seu patrão, o Lullarapio aumentou o preço da gasolina em 578% para cobrir o rombo de 500 trilhões de euros desviados da Petrobras para construir um parque aquático em homenagem ao Lula na Venezuela e uma réplica do Kremlin em Garanhuns.

O que você nem de longe desconfia, e que o governo está fazendo de tudo para esconder de você, é que você não precisa da gasolina suja de Dona Dilma para fazer seu automóvel funcionar.

Ocorre que por determinação da lei 12.518 do Código de Combustíveis (do governo FHC), desde 1997 o Brasil fabrica carros que funcionam perfeitamente com um tipo de combustível caseiro, que pode ser feito por qualquer cidadão brasileiro em dia com suas obrigações militares e eleitorais. Dilma tentou derrubar essa lei de todas as formas, mas foi impedida pelo patriota Eduardo Cunha, que declarou: se derrubares esta lei e, com ela, o direito de ir e vim do brasileiro médio, contarei ao povo tudo que eu vi durante a copa do mundo. 

Dilma recuou, mas ainda está tentando derrubar a lei e conseguiu comprar os jornais para que eles não divulgassem a formula do combustível caseiro. 

Porém, consultamos o cientista brasileiro erradicado em Miami Jefferson Crick, que nos passou a seguinte formula, que faz qualquer veiculo fabricado depois de 1997 circular por cerca de 1000km:

-dois vidros de acetona
-dois vidros de azeite de oliva extra-virgem
-detergente liquido de limão (uma garrafa)
-dois litros de água boricada
-quatro pacotes de suco tang de morango dissolvidos na água boricada
-quatro tubos de pasta de dente colgate total 12

Misture os ingredientes em uma bacia e coloque no compartimento de seu veiculo destinado à água do radiador. Sobrando um pouco, passe sobre a bateria de seu carro com um pincel para garantir melhores resultados.

COMPARTILHEM ESSE POST ANTES QUE O PT TIRE ELE DO AR!!! VAMOS MOSTRAR A DILLMALLANDRA, LULLARAPIO E CORJA QUE SOMOS MAIS ESPERTOS QUE ELES!!!!!