SOBRE O BLOGUEIRO

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Antonina, Litoral do Paraná, Palestine
Petroleiro aposentado e petista no exílio, usuário dos óculos de pangloss, da gloriosa pomada belladona, da emulsão scott e das pílulas do doutor ross, considero o suflê de chuchu apenas vã tentativa de assar o ar e, erguido em retumbante sucesso físico, descobri que uma batata distraída não passa de um tubérculo desatento. Entre sinos bimbalhantes, pássaros pipilantes, vereadores esotéricos, profetas do passado e áulicos feitos na china, persigo o consenso alegórico e meus dias escorrem em relativo sossego. Comendo minhas goiabinhas regulamentares, busco a tranqüilidade siamesa e quero ser presidente por um dia para assim entender as aflições das camadas menos favorecidas pelas propinas democráticas.
Mostrando postagens com marcador Walter Silva. Mostrar todas as postagens
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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Sobre as sementes

Copiei do meu (inspirador) amigo Walter Silva

E se de repente, aos 16 anos, você caísse dentro de um sono de 25 anos?
Dormir, dormir o tempo de uma vida? Não seria algo realmente terrível?
Em 25 anos muita coisa pode ser realizada. Faculdade e trabalho com certeza. Talvez até casamento e filhos.
Impossível de mensurar o que se perdeu durante esses 25 anos de sono perpétuo.
Esses tais 25 anos desperdiçados lhe foram entregues, estes 25 anos representam um quarto da sua vida.
Não existem garantias depois dos 25 anos que lhe foram dados.
Então você acorda, depois de longos 25 anos e percebe que há um trabalho hercúleo para ser feito, um trabalho que somente um herói pode concretizar; a teia que você teceu antes de dormir está inacabada, não lhe serve para coisa alguma.
O que você faria? Iria sentar e chorar? Reclamar da injustiça, de tudo que lhe roubaram? Desistir de vez?
Eu fiz isso. Eu sentei e chorei desconsolado, e reclamei muito da injustiça de ter sido colocado para dormir por 25 anos.
Mas nada disso adiantou, e o tempo continuava a escorrer pelos dedos, estivesse eu a dormir ou a acordar.
Tomei então relutantemente algumas decisões.
Lavrei o solo e plantei as sementes.
Não recebi nenhuma garantia de que eu teria uma colheita, nenhuma certeza disso. Eu só tenho o brilho da esperança e o fogo dos meus sonhos me guiando na cegueira da noite escura.
Eu ouço vozes me dizendo que é tarde demais, continuamente. E me esforço para silenciar essas vozes.
Cada golpe que eu recebo me deixa prostrado; mas eu me levanto de novo, mesmo após desejar não me erguer mais.
Observo pessoas muito jovens reclamando que está tarde para elas, que o tempo voa, que elas se atrasaram.
Não consigo conter um sorriso.
Eu preciso fazer tudo em dobro; correr, lutar, esperar, acreditar.
Isso não é uma queixa. Antes disso, é um hino de amor por mim mesmo. Amor e gratidão.
Me ensinaram a me odiar profundamente, me ofereceram a morte branca, eu dormi por 25 anos, eu estive morto todo este tempo, vivendo no mundo dos espíritos.
Eu me levantei, voltei à vida, e aprendi a gostar de mim, sozinho, sem ajuda de deuses ou mortais comuns.
Não sei se terei mais 25 anos pela frente. Isso é o que menos me importa agora.
O importante é olhar ao meu redor, e de pé, contemplar esse jardim que está brotando da terra neste exato momento. Essas sementes que eu audaciosamente plantei um dia vão se tornar árvores, e essas árvores alcançarão o céu.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Carta de um nordestino para nós todos

Copiei do meu querido amigo Walter Silva

Eu fui para São Paulo com meus pais quando era criança, refazendo o caminho doloroso da migração, assim como milhares de outros, antes e depois.
Moramos poucos anos em um barraco próximo de um córrego sujo que inundava tudo durante as chuvas, chegando muito perto de nós. Nos dias de sol forte, meu pai molhava o teto de zinco, tentando diminuir o calor sufocante.
Lembro da grande metrópole vagamente, as imagens rasgadas e desbotadas, flutuando nas profundezas da mente, de vez em quando evocadas.
As montanhas cilíndricas de concreto, o céu cinza escuro, o chafariz na praça, o zoológico, o dia da feira com flores, pastéis e um suco de uva artificial vendido dentro de um bicho de plástico. E lembro dos tiros de madrugada.
Não era uma vida feliz, não era uma vida próspera, então meu pai decidiu voltar conosco.
Eu me lembro do retorno; ainda vejo as lágrimas de despedida da minha avó, lágrimas do último dia. Ela ficava lá, tinha emprego fixo.
Senti uma emoção estranha e doce naquele evento; tristeza e ansiedade, eu tinha oito anos?
Voltamos; eu enjoei e passei mal durante a viagem terrível de três dias de ônibus. Então chegamos.
Eu me lembro do lugar cercado de luz, do oceano de luz, do céu azul de turmalina, do rochedo orgulhoso e matuto. Eu me lembro da coroa serrana abraçando o povoado.
Eu me lembro da floração do ipê amarelo e roxo, e da canção de balir das cabras.
O ângelus das seis horas.
O vento do oeste trazendo o cheiro da tacaca. O povo dançando alegre nas festas sob as estrelas ou em pavilhões de folhas de palmeira.
Aqui eu passei fome, eu morri e renasci várias vezes.
Não existe nenhum lugar do mundo que eu queira maior amor.
Não existe nenhum lugar do mundo em que eu queira estar.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Notícias da matança do povo LGBTT

Boa tarde, deputados, deputadas e senadores (inclusive do PT) que chafurdam na pocilga fedorenta chamada Frente Parlamentar Evangélica. Boa tarde, pastores de merda, boa tarde padrecos jaguaras. Vocês são os mandantes intangíveis desta matança (em 2014 já são 170 assassinatos) feita em nome do inexistente patifão esfumaçado que vive nas nuvens.
xxx---xxx

Copiei de Walter Silva

Observe o que ocorre no Piauí.
Uma mulher bissexual chamada Gerciane foi vítima de um crime de ódio pavoroso.
Cortada ao meio, dos seios até a vagina, o órgão genital separado do corpo e enfiado na boca. O detalhe da vagina na boca é cruelmente simbólico e significativo,mas escapa à compreensão dos agentes do Estado.
As marcas da violência extrema devastando o corpo frágil dessa moça de apenas 26 anos, encontrada em um matagal no estado nordestino me fazem pensar que esses crimes perderam a capacidade de chocar as pessoas. A demora em prender o acusado desse crime de ódio (acusado que é homem, branco, heterossexual e se encontra foragido) é um sintoma do descaso público.
Gerciane era mulher, era pobre, ficava com homens e mulheres.
Há um anestesiamento social, uma brutalização do espírito humano aqui.
Não sei que nome se dá a esse fenômeno em sociologia.
O mesmo acontece com Antonio Gomes de Souza, homem gay assassinado com 40 facadas.
O crime é de ódio, mas as instituições, todas heteronormativas, ainda estão preferindo acreditar que é um simples caso de latrocínio.
Antônio, a propósito, foi vítima de um serial killer, especializado em seduzir, matar e roubar homens gays.
Ele não foi a primeira pessoa a morrer nas mãos deste mesmo criminoso que age cheio de ódio. Ele é parte de uma sequência macabra.
Recentemente, Marinalva Santana, militante do grupo Matizes, foi ameaçada em rede social.
Um grupo intitulado "irmandade homofóbica" afirmava: "A gente vai pegar ela e enforcar em praça pública como exemplo".
Essas ameaças não são vazias.
Tem pessoas morrendo no Piauí, vítimas de ódio.
Até quando?

terça-feira, 3 de junho de 2014

A ditadura dalit

Copiei do meu amigo Walter Silva

Duas meninas Dalit foram sequestradas. A família procurou a polícia na mesma noite, que se recusou a ouvir a queixa e não tomou nenhuma providência; antes ameaçou-os de morte.

As meninas foram encontradas posteriormente no desespero das horas; enforcadas numa árvore.

Os corpos franzinos balançando ao vento, a dobra suave dos vestidos coloridos contrastando com a violência que se abateu sobre elas.

Aquelas meninas intocáveis sofreram sevícias nas mãos de vários homens de uma casta elevada e depois foram enforcadas na grande árvore cinzenta, deixando de si apenas o perfume da flor de magnólia neste mundo.

Será que na Índia....

("esses dalits querem privilégios")

("todo dia alguém de uma casta elevada morre e é assassinado")

("não existe ódio contra os dalit. A propaganda Nazi dalitista é que distorce a realidade")

("existe sim preconceito e intolerância contra quem não é dalit. Eu fui expulso de uma casa dalit uma vez")

("se alguém nasceu dalit é para expiar o seu mau karma. Essas pessoas são criminosas de vidas passadas")

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Sobre o pai gay

Meu amigo Walter Silva publicou em seu face o texto que reproduzo a seguir.

"Um estudo publicado recentemente na National Academy of Sciences americana revelou um fenômeno curioso.
O cérebro de pais e mães se torna hiper ativo durante o tempo que eles passam cuidando dos filhos, respondendo a estímulos emocionais e cognitivos.
Nas mães ocorre uma intensificação cerebral justamente nas áreas mais "emotivas".
Ruth Feldman, autora do estudo e professora de psicologia e neurociência, disse que nos pais heterossexuais, a ativação emocional mais intensa ocorre somente na ausência da mãe.
Mas isso é lugar comum.
O que me interessa é a segunda conclusão do estudo; 48 pais gays também foram avaliados na pesquisa.
E descobriu-se que o cérebro de um dos pais gays vai reagir exatamente igual o cérebro da mãe heterossexual, funcionando desta forma o tempo todo, ao passo que o cérebro do outro vai operar de acordo com o esperado no pai heterossexual.
Feldman concluiu que a plasticidade do cérebro dos pais gays permitiu essa adaptação biológica, apresentando aquilo que ela chamou de "condição de parentalidade ideal", não detectando nenhuma desvantagem no arranjo homoafetivo.
MAS E AGORA HEIM SEUS REAÇA COXINHA???"

Então surgiram os seguintes comentários, que enriqueceram o debate. E eu, ó, fiquei quietinho ali no canto, só aprendendo.

Diogo Petersen: muito interessante e curioso.

Tiago J Silva: Ótimo estudo.

Jean Tempest: Em suma a pesquisa esta dizendo que existe sempre uma "mãe" e um "pai" em qualquer arranjo homoafetivo onde haja uma criança?

Walter Silva: Não querido. A pesquisa está dizendo que estereótipos de gênero são falsos.

Diogo Petersen: preciso pensar um pouco mais sobre o assunto, pois tive uma impressão semelhante ao de Jean Tempest, mas achei q eu tinha viajado. Ao mesmo tempo q ela diz q "esteriotipos de gêneros são falsos", a pesquisa aponta q uma das mentes dos homens acabam ocupando o perfil da mãe.
Mas para uma relação familiar saudável isso é realmente necessário? O papel do pai e da mãe? não podendo ser mãe e mãe, ou pai e pai?

Paulo Duarte: Entendo que o que foi dito é que qualquer cérebro pode se adaptar a função de cuidador. No caso de casais heteros a ativação do cérebro do homem só costuma ocorrer na ausência da mãe (justamente quando estes têm que desempenhar a função de cuidador principal em nossa cultura). No casal de dois homens pelo menos um assume a função de cuidador principal. Coisa similar, imagino, deve ocorrer em casais lésbicos. O que essa pesquisa parece mostrar é que o cérebro masculino pode se adaptar a essa função de cuidador, seja hetero ou gay. Chamar o cuidador principal de "mãe" do casal é apenas uma interpretação cultural do fenômeno.

Daniel Silva: Uma senhora interpretação cultural. O gênero também está nas minúcias.

Diogo Petersen: preciso juntar tudo e v no q dá.

Daniel Silva: Aproveite a greve e junte.

Paulo Duarte: Acho que é necessário separar o que é conteúdo da pesquisa e o que é apresentado pelas matérias de divulgação científica e interpretado por seus leitores. Até onde pude ler, a pesquisa nega a existência de um "cérebro de mãe", já que homens, de qualquer orientação sexual, também são capazes de adaptar-se a função. Mas algumas matérias de fato colocam nos termos que Jean apresentou: em casais gays um é a mãe. A distorção é muito forte. Para os outro cenários leventados por Ricardo serão necessárias outras pesquisas, do jeito que a ciência deve funcionar, colocando um pouco de conhecimento de cada vez. O resto, são extrapolações nem sempre muito responsáveis dos divulgadores.

Walter Silva: A pesquisa demonstrou que os cérebros de homem e de mulher funcionam da mesma forma quando se exige que ambos cuidem bem dos filhos.O pai heterossexual, assim como o pai gay que tem menos contato com o filho, vai apontar um distanciamento emocional maior. A mãe hetero, assim como o pai gay que tem mais contato com o filho, vão se especializar mais nesse cuidado. Eu não vi nenhuma tentativa de sugerir que gay se comporta como mulher. Essa pesquisa é muito importante, considerando que a homoparentalidade de mulheres é bem mais pesquisada que a dos pais gays. Vários estudos indicam que casais lésbicos criam muito bem seus filhos. Pais heterossexuais solteiros também são capazes de se comportar de modo emotivo e afetivo semelhante à mães.

Daniel Silva: E outra coisa. Não existe "apenas uma interpretação cultural" neste caso. Gênero e sexualidade são construções culturais que influenciam profundamente a sociedade, inclusive constituindo hierarquias e verticalidades tanto relacionalmente (homem x mulher, masculinidade x feminilidade). O que Paulo (e Jean, acredito) estão demonstrando é que, por mais que pesquisas demonstrem e desconstruam isto, estes construtos socialmente compartilhados e vividos são muito poderosos e estão atuando num nível tão básico que parecem muito naturais.
Não é um juízo sobre a pesquisa necessariamente, mas como estas questões estão imbricadas.

Daniel Moraes: Perfeito, Daniel Silva. Eu estava começando a escrever, mas vc escreveu o que eu iria dizer.
"Estes construtos socialmente compartilhados e vividos (homem x mulher, masculinidade x feminilidade) são muito poderosos e estão atuando num nível tão básico que parecem muito naturais."
Exatamente.

Daniel Moraes: A adoção "automática" de um código neuro-linguístico maternal por parte de um dos pais e paternal por parte do outro pai é ao meu ver apenas a confirmação de que o papéis de gênero que nos socializam no meio heteronormativo no qual estamos inseridos são tão sólidos que moldam nossas percepções, ações e identidade.
Esses pais nada mais estão fazendo que adotar os papeis sociais que nós conhecemos. 
Aqui não estou fazendo juízo de valor, se isso é bom ou ruim... mas apenas constatando um fenômeno. 
E, como o Walter bem disse, esses papéis podem muitas vezes ser influenciados tb pela simples presença mais constante de um pai mais próximo que outro (mas tb não podemos deixar de averiguar se essa divisão entre proximidades de um e distancia de outro já não é ela mesma uma reprodução de papéis dicotômicos de gênero).
Enfim... a discussão é boa. 
O fato é... papais héteros não são essenciais, naturais ou mesmo necessários como condição sine qua non.
A família tradicional é apenas mais uma dentre tantas outras possíveis.

Daniel Moraes: Eu e meu marido estamos amadurecendo a ideia de adoptar uma criança. E não temos divisões de gênero entre nós. Cá em casa não existem tarefas minhas ou dele. Dividimos tudo, em todos os aspectos. Todos.
Não obstante, eu tenho certeza que eu serei reconhecido socialmente como a "mãe" e ele como "pai". Não sei se inconscientemente eu estarei adotando uma linguagem de gênero (nesse caso maternal) que aprendi, ou então se apenas serei o pai carinhoso (pq sou mais afetivo que Alexandre) e por isso os outros é que me lerão por meio da lente do binarismo de gênero e por isso me verão como mãe.
Não sei. 
Mas o resultado dessa pesquisa se confirmará aqui em casa, por certo rsrs.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

117 anos de fundação do Movimento LGBTT

O Serviço de Alto Falantes Ornitorrinco cumprimenta os presentes nesta quermesse pelo conhecimento e convida todos quantos queiram aprender um pouco mais sobre o movimento LGBTT. 
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Texto de Walter Silva

A fundação do movimento pelos direitos civis LGBT ocorreu oficialmente no dia 14 ou 15 de Maio de 1897, na Alemanha por obra de Magnus Hirschfeld, idealizador do Comitê Científico Humanitário (Wissenschaftlich-humanitäres Komitee).
Quando Hirschfeld se mudou para Berlim em 1896 já existia uma comunidade gay, lésbica, bissexual e transgênero auto consciente e diversificada; ele observou que homossexuais foram atraídos para a grande cidade como mosquitos para o pântano. Nesse período de fim de século, não era incomum um jovem gay ou lésbica levar para sua casa o seu namorado ou namorada e seus pais aceitarem o relacionamento de ambos. Simon LeVay,em ”The Use and Abuse of Research into Homosexuality”, ressalva que havia uma sombra, entretanto, pairando sobre a comunidade sexo diversa em Berlim; o parágrafo 175, herança do antigo código prussiano.
O comitê científico humanitário tentou revogar o parágrafo 175 do código penal imperial, que criminalizava a homossexualidade com até seis meses de prisão, naquela que foi sua primeira atividade, submetendo uma petição em 1898, 1922 e 1925. Editava uma revista sobre sexualidade e gênero, publicava literatura política de emancipação, apoiava a defesa de acusados de ”coito anal” em julgamentos, fazendo campanha pela descriminalização em toda a Alemanha,Áustria e Holanda, além de engajar-se em pesquisas sobre travestilidade e transexualidade; em 1910 Magnus Hirschfeld escreveu uma monografia em dois volumes, intitulada ”Die Transvestiten”. O termo ”trans”, popularizado por ele, tem ajudado a descrever algumas das experiências transgênero. Ele foi o primeiro a distinguir entre identidade e expressão de gênero e orientação sexual (embora não usasse tais terminologias), e também observou que a expressão de gênero não correspondia sempre à orientação sexual; havia homens heterossexuais femininos, e homens homossexuais másculos.
Trabalhou junto à polícia de Berlim para reduzir as prisões de pessoas trans,acusadas de prostituição, e esteve envolvido nos primeiros estudos e experiências de redesignação genital. O filme mudo “Diferente dos outros”, produzido por Richard Oswald, em 1919, contou com a participação de Hirschfeld; esta película é a primeira a lidar abertamente com pessoas homossexuais. Hirschfeld aparece nela, intercedendo por meio de um apelo apaixonado contra a Seção 175 do código penal. O filme provocou um debate feroz na política e na mídia, e foi proibido em 1920. O médico judeu foi o primeiro a adotar uma visão não eurocêntrica e anti colonialista da cultura a partir de uma perspectiva sexológica; vivendo com duas identidades desprestigiadas (gay e judeu), partidário dos ideais socialistas, defensor da descriminalização do aborto, em sua época foi saudado no Ocidente como o ”Einstein do sexo” e no Oriente como o ”Vatsyayana moderno do Ocidente” (numa referência ao autor do Kama Sutra). Hirschfeld inaugurou em 1919 o Instituto de Ciência Sexual (Institut für Sexualwissenschaft) se antecipando em décadas ao Instituto Kinsey nos EUA.
O esforço dos pioneiros do ativismo no período de Weimar na Alemanha garantiu um relativo clima de liberdade e tolerância para pessoas LGBT; de acordo com alguns historiadores, o número de bares e publicações para o público gay na Berlim de 1920 ultrapassava Nova York seis décadas mais tarde. Uma subcultura desviante prosperava.
Os escritos de Hirschfeld abordam uma variedade de temas que vão desde a análise do impacto da morte de Oscar Wilde sobre homossexuais seus contemporâneos, até estudos a respeito de suicídios na comunidade gay, passando por questões como travestilidade, transexualidade e fetichismo. Em ”Die Homosexualität des Mannes und des Weibes” (1914), um livro de mil páginas que é um dos primeiros especializado na experiência de pessoas LGBTs, ele revela uma conspiração de silêncio em torno da homossexualidade; um testemunho dos efeitos do ódio sobre pessoas sexo diversas. O Comitê Científico Humanitário contava no auge com 500 membros e 25 delegações, quando foi atacado e dissolvido em 1933 pelos nazistas, a biblioteca e o imenso acervo de Magnus Hirschfeld incendiados pela Juventude Hitlerista; 20 mil volumes, 35 mil slides fotográficos e milhares de documentos pessoais arderam publicamente numa grande fogueira. Após intensa campanha política de demonização, o regime privou Hirschfeld da cidadania alemã em 1934; o médico e sexólogo judeu chegou a fraturar o crânio anteriormente num ataque. Enfim teve de exilar-se na França. No ano de 1935, as prisões de homossexuais e travestis passaram de 948 para 3700; imediatamente após a tomada do poder, nazistas invadiram e destruíram clubes, associações e organizações LGBTs.
O movimento LGBT enfrentou a opressão do nazismo, um inimigo poderoso, e foi esmagado por ele. Mas as sementes lançadas por Magnus Hirschfeld atravessaram o oceano e floresceram na América; infelizmente a mítica propaganda em torno dos motins de Stonewall obscureceu o arco íris original, e a glória dos pioneiros, e atualmente pensa-se que este é um movimento que surgiu do vácuo.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Aprendendo com Walter Silva e Benjamin Bee

Copiei do perfil de Walter Silva
(não me canso, meninos e meninas, de ler as coisas deste cara)

Primeiro, Walter Silva escreveu no seu perfil

Eu nasci gay.
Isso não é nenhuma regra ou lei que me foi imposta por algum coletivo ou cultura.
É quem eu sou.
Minha sexualidade não é fluida, não está sujeita a experimentações. Nasceu comigo. Ela não foi construída, foi desenvolvida.
Eu sou quem eu sempre fui.
Não aprendi a ser gay. Não construí essa identidade socialmente.
Ela é inata, como a cor dos meus olhos.
A cor dos meus olhos não se tornou castanha porque o entorno cultural hegemônico ao meu redor me determinou que eles deveriam ser assim nomeados.
Eu poderia não nomear meus olhos dessa cor.
Isso não iria mudar nada neles a não ser o meu discurso sobre eles.
Eu poderia inclusive preferir descrever meus olhos como de outra cor, uma cor inexistente; eu posso dizer que meus olhos são cor de burro quando foge. Seria capaz de reconhecer meus olhos depois disso? Suspeito que o inatismo do brilho original permaneceria. Isso é deveras brochante, porque às vezes queria ter um olho azul e outro amarelo.
Não ocorre a ninguém supor que nós aprendemos a ter braços ao invés de aprender a ter asas.
Os braços não estão assujeitados ao discurso? Não há uma carga cultural no uso social de braços e mãos? Em "braço esquerdo" e "braço direito" não há também um recorte linguístico carregado de significados culturais e sociais?
Seria maravilhoso desconstruir meus braços e no lugar deles desenvolver duas longas asas de cisne. 
---xxx---

Depois, Benjamin Bee foi lá e comentou

O mundo tem três correntes que buscam explicar a sexualidade humana, duas são essencialistas e uma construcionista (ou construtivista, como queiram).

No mundo onde a liberdade de expressão da sexualidade já é uma realidade, os essencialistas dominam e pode-se arriscar que são em torno de 90%, Americanos, canadenses, europeus e mesmo sul americanos consideram que se nasce erótico-afetivamente pré configurado.
Na parte do planeta onde a liberdade de expressão da sexualidade não existe, o mundo heteronormativo, a configuração erótico-afetiva é única desde o nascimento. Praticamente 100% da população dessas regiões acredita nisso.
Uma parcela ínfima da totalidade do planeta considera a diversidade erótico-afetiva como construção da sexualidade zero desde o nascimento. São os adeptos da Teoria Queer, os "ideólogos do gênero".
Isto significa que a quase totalidade dos humanos planeta é "essencialista".
O que impressiona é o fato dos construcionistas desprezarem esse dado. Um modelo elaborado nas academias que ignora a intuição humana e a biologia.
Não à toa, o modelo "essencialista" de uma sexualidade plural intuido pelo Ocidente contemporâneo avança velozmente sobre o modelo "essencialista" heteronormativo, modelo este que hoje se escora na falácia da "ideologia de gênero" para reprimir a revolução sexual.
No futuro, não longe daqui, quando os dois modelos revolucionários se encontrarem aparando as diferenças, o modelo heteronormativo será apenas um fato a se relatar da História da sexualidade humana na sua era de ignorância.
Estamos apenas começando a desvendar uma realidade encoberta pela ideologia heteronormativa que não tem nenhuma base na ontologia humana.
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E eu, modesto aprendiz de ornitorrinco, trato de ler, reler e de compartilhar com os quase 9 internautas desavisados que frequentam este nauseabundo blog. 

domingo, 2 de março de 2014

Por um mundo mais justo! Por uma direita menos caluniada!

O Serviço de Alto Falantes Ornitorrinco cumprimenta os paroquianos presentes nesta quermesse em louvor de São Silas Malafaia do Preconceito Botinudo, protetor dos leitores típicos da Veja, e proclama: Walter Silva, tu é phoda!
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Copiei de Walter Silva, sempre indispensável

Eu me divirto horrores, por isso sempre que penso em largar essa bosta eu não consigo.
E não é que leio por acaso um texto do Rodrigo Constantino na Veja se queixando de uma charge do Claudio Paiva sobre a direita?
Rodrigo vai refutar a charge e diz que o nazismo era inspirado na esquerda, nhai.
Claro, óbvel''... ahaha.
Dae ele se pergunta o que um cristão está fazendo naquela charge.
O que? O que? O que em nome de god?
Nhai, deixa ver... será por causa dos crimes da Inquisição? Será pelos métodos de tortura aproveitados pelo nazismo? Será pelo anti semitismo? Pelas sinagogas derrubadas, pelas cruzadas, pela destruição do templo de Serápis, pelo esquartejamento de Hipátia? Pelo genocídio dos cátaros? Pela queima de bruxas? Pela caça sistemática aos sodomitas? Pelo apoio ostensivo dado ao regime nazista? Pela exploração de trabalho escravo dos prisioneiros do nazismo?
Difícil, difícil.
No final ele fala que Mugabe, homofóbico histórico do Zimbábue, era socialista, fato que segundo ele,a esquerda omite.
Assim como o próprio Constantino omite que Mugabe é cristão fundamentalista, aliado ideológico da direita religiosa, patrocinada por ele para enviar missionários homofóbicos para a África.
O ACLJ (American Centre for Law and Justice ) grupo de ódio da direita cristã, segundo o instituto Political Research Associates de Boston, foi convidado pelo presidente zimbabuano, por exemplo, a abrir representações para treinar advogados para trabalharem sobre uma Constituição que refletisse os valores cristãos. Tais grupos de missionários cristãos são acusados de fomentar a homofobia na África, induzindo os políticos a aprovarem leis antigay.

Por um mundo mais justo! Por uma direita menos caluniada!

domingo, 29 de setembro de 2013

Ele tem uma gata gorda que gosta de tomar banho de sol debaixo do abajur

Copiei do meu indispensável amigo Walter Silva
(Sabem delicadeza? É isso, meninos e meninas)


Existiu uma época diferente de hoje. Um tempo num mundo que guardava um lugar para pessoas que variavam de gênero; um lugar onde inclusive se celebrava a existência de tais pessoas, acredite.
Um tempo que falava do espanto da gente comum de um modo mais tranqüilo; tocar simplesmente a cabeça de alguém que trazia as marcas do que transcende as fronteiras de gênero e sexualidade era um gesto benéfico e poderoso de muito significado. O tempo da antiga e dourada Babilônia, o tempo de Asushunamir, o/a resplandecente, aquela/e que foi criado pelo deus da lua para resgatar a deusa do amor aprisionada no submundo, uma missão essencial; Asushunamir, o/a salvador/a transgênero/a, quem se lembrará dele/a? Esta era também a época de Hastíín Klah, uma pessoa "dois espíritos" navajo, não variante de gênero; pois embora ele se vestisse com roupas masculinas, havia nele uma gentileza tão profunda quanto a brisa suave da primavera.
O povo Navajo o considerou alguém "dois espíritos" (uma combinação cultural de homem e mulher) porque ele era romanticamente interessado em homens, e porque ajudava sua mãe na tecelagem (um ofício do gênero feminino), mas ele manteve uma identidade masculina.
O mundo mudou, e os tempos atuais lançaram uma sombra sobre as trans*pessoas. Geralmente quando se mencionam as dificuldades espantosas as quais uma trans*pessoa está submetida compulsoriamente desde o nascimento, pensa-se mais em termos binários; é uma mulher cuja identidade de gênero não é reconhecida, é um homem cuja identidade de gênero não é legitimada.
Mas isto é somente a ponta do iceberg.
Debaixo d'água existe muita dor, muito gelo, muito mais solidão. Por exemplo, eu conheci há alguns meses uma pessoa; a pessoinha mais doce e mais interessante que eu já vi.
Ele tem a voz rouca e preguiçosa ao telefone e quando se zanga ele se zanga pra valer. Ele tem uma gata gorda que gosta de tomar banho de sol debaixo do abajur.
Ele adora jogar esses joguinhos virtuais de guerra; é louco por suas tropas e fica muito desanimado quando elas sofrem uma baixa. Mas ele é também um mestre de caminhos ancestrais; ele é ótimo terapeuta e alguém cuja identidade de gênero é fluida, não binária.
É muito complicado tentar definir ele com ajuda de rótulos; você sabe, rótulos são como um lar para algumas pessoas. Um local para descansar, se reconhecer e sentir-se seguro. Mas para outras pessoas, o rótulo é uma prisão, um local de opressão e exclusão. Similarmente, cheguei à conclusão de que buscar uma classificação para ele é como espetar uma borboleta no alfinete; o significado de se ter asas está no vôo.
Ele é uma ótima pessoa, cheia de qualidades, pronto para fazer deste um mundo melhor para todos. Entretanto, ele é constantemente golpeado e açoitado terrivelmente por todos ao seu redor, inclusive por mim mesmo.
Eu sou testemunha da luta encarniçada dele; há momentos em que ele me confessa em lágrimas e cheio de dor, que já não sente desejo de continuar.
E o que dizer? Sinto-me impotente, impotente demais. Por isso, por ele, faço agora a única coisa que posso efetivamente fazer.
Eu não vim para falar pelas pessoas trans*. O maior benefício que eu lhes ofereço agora é justamente não tentar fazer isso. Eu vim falar para as pessoas que não são trans*.
Por favor parem de dizer às pessoas trans* quem elas são, de onde elas vêm, quem elas deveriam ser, como elas devem se sentir, o que é necessário para ser uma trans* pessoa.
Nós podemos ajudar sim; basta ouvir o que elas têm a nos contar.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Vocês são famosos? Sou o Ornitorrinco, porra!

O Serviço de Alto Falantes Ornitorrinco cumprimenta os presentes nesta grandiosa quermesse em louvor de São João Normal e de Santa Maria das Anomalias e pergunta: você é normal ou é anômalo?
Quem disse que você é normal ou anômalo é, ele próprio, normal ou anômalo? 

Que porra de metro mede estas coisas?
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Copiei do meu amigo Walter Silva

Tem coisa mais perniciosa do que o rótulo "pessoa normal"?
Pessoas normais não existem.
Esta é uma categoria verdadeiramente construída socialmente, uma fraude, uma ilusão quimérica.
Geneticamente todos são distintos uns dos outros. Normal em relação a que? Qual este ponto fixo absoluto que determina a normalidade e a anomalia?
Os padrões estabelecidos são falsas simetrias; aliás parece que há uma fixação mórbida atuando na psique das pessoas que as projeta em direção aos padrões (observe as árvores numa via, podadas simetricamente, com formatos geométricos, em oposição ao natural emaranhado da natureza), ou talvez isso seja uma manifestação do consumo internalizado, uma doença moderna. O fato é que nós vemos padrões até onde eles não estão; uma mancha no vidro da janela pode parecer a virgem Maria.

domingo, 23 de junho de 2013

Eu voltei: a dor foi tanta que eu pensei que morreria

Copiei do meu amigo Walter Silva

E tem gente que pensa que o bairrismo morreu.
Outro dia um garoto me mandou ir matar uns "bode" no meio de uma discussão, numa evidente nota de desprezo pelo fato de eu ser nordestino.
Mas o bairrismo é um preconceito etnocêntrico muito fuleiro; não chega a ser xenofobia, mas parece pretender alçar tais alturas.
É mais uma ofensa rasteira que propriamente um ato de ódio; é como xingar a nossa mãe; parece que a ofensa é ainda mais profunda quanto maior é o amor pela mãe.
Você nasce e cresce aborrecendo-se com tudo e todos na sua terra, sonhando com o dia em que vai partir para longe e fechar enfim a porteira atrás de si; você fica mais velho e descobre então que não pode viver longe da sua casa.
Há quatros eu tentei ir embora; eu me despedi dos meus, e por um instante virei as costas no aeroporto e vi a minha mãe desaparecer rápido no meio dos estranhos, o olhar pesaroso e sentido, as lágrimas brotando sem parar. E com ela se iam a minha história, o meu lugar, os beijos nas manhãs dos meus aniversários, o café e o cuscuz, o calor escaldante, o céu de turmalina, a flor branca do mandacaru, os espinhos do xique xique, a muralha dourada das serras no pôr do sol, as chuvas de inverno, os cajus vermelhos, o pó das ruas, o bosque do juremal, as pedras e as bocas de furnas, o cheiro acre da tacaca, o sapo cururu, o sotaque manhoso do povo, os "Oxentes" e "Oxi" e "vixi Maria", e as deliciosas variações; "armaria","Afemaria", "Vigi Maria"....
Eu voltei alguns dias depois; a dor foi tanta que eu pensei que morreria.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Walter Silva e um poema completamente necessário

Copiei do meu formidável e inoxidável amigo Walter Silva

Agora um poema:
Batatinha quando nasce esparrama pelo chão
Vi um evanja doido chamando jesus
Ele pulava e girava feito pipoca no são joão
Tentei fugir,disfarçar, mas ele disse
-Irmão,venha para a luz!
Ser viado não tem futuro não-
Eu fiquei embasbacado
Até engasguei com a bala de alcaçuz
Atrevimento maior que aquele 
Só na próxima encarnação
Respondi ao cabra safado
-Da minha vida cuido eu 
Cuida tu da tua alma sebosa fazendo jus
Ao que sai da tua boca cheia de danação
Volte para o inferno de onde você saiu
E chegando lá abrace o capeta 
Aproveite e lhe faça uma boa chupeta.