SOBRE O BLOGUEIRO

Minha foto
Antonina, Litoral do Paraná, Palestine
Petroleiro aposentado e petista no exílio, usuário dos óculos de pangloss, da gloriosa pomada belladona, da emulsão scott e das pílulas do doutor ross, considero o suflê de chuchu apenas vã tentativa de assar o ar e, erguido em retumbante sucesso físico, descobri que uma batata distraída não passa de um tubérculo desatento. Entre sinos bimbalhantes, pássaros pipilantes, vereadores esotéricos, profetas do passado e áulicos feitos na china, persigo o consenso alegórico e meus dias escorrem em relativo sossego. Comendo minhas goiabinhas regulamentares, busco a tranqüilidade siamesa e quero ser presidente por um dia para assim entender as aflições das camadas menos favorecidas pelas propinas democráticas.
Mostrando postagens com marcador fuck you israel. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador fuck you israel. Mostrar todas as postagens

domingo, 28 de junho de 2026

Duas guerras, a caminho de um mesmo (e trágico) desfecho

O Ornitorrinco reconhece ter, liminarmente, cacholinha de poucas e bruxuleantes luzes, mas ousa recomendar a leitura atenta deste artigo.

XXX---XXX 

Copiei do indispensável VIOMUNDO

27/06/2026, por Borislav Radmanovich*

Eu estava evitando escrever análises simplesmente porque o que é verdade agora geralmente se torna falso em um ou dois dias, às vezes em poucas horas. No entanto, se encararmos esse caos não como  bug, mas como projeto, podemos fazer alguns comentários.

Vamos começar com a guerra da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) contra a Rússia. Aqui está um resumo do que está acontecendo.

Os russos intensificaram suas operações de ataque, assim como a Otan.

Os russos ainda não desferiram o tipo de golpe decisivo que muitos (inclusive eu) estão esperando.

De acordo com todos os relatos, as forças russas atualmente possuem efetivo mais do que suficiente para se envolver em uma grande guerra, e também é inegável que a Rússia mantém a maior parte de seus meios de ataque na reserva. A Rússia está, sem dúvida, se preparando para um grande confronto.

Em terra, os russos avançaram por toda parte, mas a grande notícia é a queda da cidade de Konstantinovka, o que significa que os russos iniciaram a operação para retomar o controle da última parte da República Popular de Donetsk, as fortificações da área urbana de Kramatorsk-Slaviansk. Este é o último bastião da Otan no leste da Ucrânia.

A guerra no sul está se tornando relativamente vantajosa para os russos, que praticamente destruíram a linha de abastecimento da Otan para Odessa.

A Crimeia também sofre e as linhas russas de abastecimento estão sendo afetadas pelos ataques da Otan, mas isso não altera a situação, é apenas mais um incômodo para lidar.

Entretanto, os eurocretinos forneceram à Ucrânia um grande número de drones de longo alcance. A Rússia normalmente intercepta cerca de 90% a 95% deles, o que significa que, quando centenas de drones são lançados contra a Rússia, alguns SEMPRE escaparão às defesas aéreas russas e atingirão algo.

A Rússia é muito grande, tem alvos demais, para defender todos. Em alguns locais, consegue 100% de eficácia ocasionalmente e  90% a 95% na maioria das vezes. Então, alguns drones continuarão a penetrar as defesas e a atingir a Rússia, não importa o que esta faça.

Como a linha de frente é muito maior do que a área da maioria dos países da UE — tem mais de 1000 km de extensão — é tecnicamente impossível deter todos os drones da Otan, que são pouco visíveis nos radares russos e voam baixo.

Para os drones FPV (First Person View, guiados por operador humano) na linha de frente, os russos encontraram a solução: criaram o grupo especial Rubikon, que simplesmente eliminou tantos operadores de drones da Otan que eles não puderam operar como planejado.

No caso de drones de longo alcance, a Rússia decidiu atacar toda a cadeia de entrega à montante: os drones da Otan são lançados de plataformas rebocadas especiais. A Rússia agora está caçando-as. Depois, essas plataformas precisam de caminhões de reboque. A Rússia também está caçando-os.

A seguir, esses caminhões de reboque precisam de gasolina. A Rússia agora está destruindo sistematicamente todos os postos de gasolina no leste da Ucrânia. Os guinchos precisam de peças de reposição e reparos, e a Rússia está destruindo todas as oficinas mecânicas a leste do rio Dniepr.

E, claro, a Rússia também está atacando usinas de energia e refinarias. Em seguida, e isto é MUITO importante, a Rússia começou a explodir as principais instalações de montagem de drones da Otan na Ucrânia (escondidas em correios, lojas de pneus, shoppings, escolas, etc.).

Esta nova política russa funcionará ou falhará. No último caso, a Rússia não terá outra opção senão atacar as fábricas de drones no Reino Unido e na União Europeia (UE).

Os britânicos querem dar aos ucranianos 150.000 drones FPV antes do final do ano (e mais de 350 mísseis de defesa aérea e sistemas de radar terrestres). Parece-me que eles têm um desejo suicida. Ou  não?

Zelenski agora está ameaçando a Bielorrússia de uma maneira extremamente detestável e provocadora. Portanto, parece mesmo que a Otan decidiu que uma escalada é uma boa ideia. Isso provavelmente se baseia na noção equivocada de que os EUA estão dispostos a cometer suicídio nuclear para ajudar a UE. Esta nunca foi a verdadeira política dos EUA, nem durante a Guerra Fria nem hoje em dia.

A julgar pela verborragia dos eurocretinos, eles estão absolutamente determinados a entrar uma guerra em grande escala com a Rússia.

Os ataques da Otan à Rússia têm alguns efeitos: 1) o principal é político: o povo russo está furioso e exige uma forte retaliação; 2) o impacto econômico é modesto, já que a maior parte dos danos é fácil de reparar; dito isso, está começando a afetar os preços do gás russo e até a sua disponibilidade em algumas regiões (Crimeia), então isso não pode durar e definitivamente não pode piorar. Em outras palavras, a Rússia terá que fazer algo em relação a esses ataques profundos.

Essa situação, então, não pode se prolongar e definitivamente não se pode permitir que piore ainda mais. Em outras palavras, a Rússia terá de tomar medidas face a estes ataques profundos.

Por todos esses motivos, não vejo nenhuma possibilidade de um desfecho pacífico. A menos que um milagre ocorra, a Rússia atacará a UE. A única dúvida é quando.

Neste momento, Putin está usando o seu capital de credibilidade pessoal para garantir ao povo russo que a contenção (que a Rússia está, obviamente, a praticar) é a política certa: para começar, a Rússia não precisa de imitar o Ocidente e «fazer alguma coisa» para «enviar uma mensagem».

A Rússia não está no negócio de «enviar mensagens», mas sim no negócio de ganhar a guerra, o que significa que cabe ao Estado-Maior russo escolher a melhor forma e o melhor momento para contra-atacar. Embora as pessoas impacientes (como eu) tenham de aceitar o fato de que o Kremlin não se importa com o que pensamos, o Kremlin só se preocupa com o que pensam os generais russos de alta patente, e estes estão claramente se contendo.

Quanto tempo durará esta fase de «contenção» é uma incógnita. Mas os russos não farão nenhum movimento antes de tudo estar perfeitamente alinhado.

Agora, vejamos a guerra dos EUA contra o Irã e o que está acontecendo lá.

Há muitos anos os EUA são incapazes de chegar a um acordo. Um exemplo? O PRIMEIRO ponto do Memorando de Entendimento era o fim de quaisquer ações militares ou ameaças nesse sentido.

Trump sequer esperou 24 horas para renovar as suas ameaças (francamente ridículas).

É verdade que Trump é completamente insano, mas tal como aconteceu com Bush, Obama e Biden, quando o presidente está basicamente ausente, cada agência tem a sua própria política externa: uma para o Departamento de Estado, outra para a Defesa, outra para a CIA, outra para a Energia e ainda outra para o Comércio, etc., etc., etc. Os EUA são uma galinha decapitada a correr de um lado para o outro sem qualquer objetivo concreto.

Os neoconservadores estão em processo de perda de poder. Sim, neste momento, eles detêm todas as posições-chave (especialmente na mídia tradicional sionista dos EUA). Mas o povo dos EUA está finalmente despertando para a realidade de que vive sob um governo de ocupação estrangeira sionista. Isso já está criando ENORMES tensões internas.

Mas a situação piora:

Os neoconservadores e os diversos defensores do «Israel em primeiro lugar» querem A, enquanto a economia dos EUA e a economia mundial precisam de não-A.

Essa é a maior de todas as tensões: por mais que o Trump e a sua gangue desejassem fazer todo o tipo de coisas para punir «os mulás» (um termo sempre racista para descrever o outro lado, mesmo quando os americanos sequer compreendem o que «mulá» significa ou o que é).

Como resultado, a política dos EUA é ainda mais inconsistente do que a da UE. Ou, alternativamente, poderíamos dizer que a UE está cometendo suicídio por causa de seu ódio irracional por tudo que é russo, enquanto os EUA estão cometendo suicídio por causa de seu ódio irracional por tudo que é iraniano. Isso, somado ao narcisismo maligno terminal de TODA a classe dominante ocidental, é a receita perfeita para o desastre.

Aqui, precisamos listar duas verdades incontestáveis:

A UE/Otan não possui os meios militares para fazer nada em relação à Rússia; e

Os EUA não possuem os meios militares para fazer nada em relação ao Irã.

Há apenas uma possível exceção a esses dois axiomas: armas nucleares.

Considerando isso, podemos oferecer mais duas verdades incontestáveis:

Se a UE/Otan usar armas nucleares contra a Rússia, a Europa Ocidental simplesmente desaparecerá como civilização.

Se os EUA e/ou “Israel” usarem armas nucleares contra o Irã, não só não conseguirão alcançar algo concreto (o Irã e o restante do Eixo da Resistência não oferecem alvos lucrativos nem sequer significativos para ataques nucleares). O impacto político de qualquer uso de armas nucleares pelos EUA e/ou por «Israel» resultará no colapso rápido e total da sociedade norte-americana e no fim de «Israel» enquanto país. O fato de os sionistas no poder compreenderem ou não isso não faz qualquer diferença.

A reação política negativa a qualquer uso nuclear pelos EUA e/ou”Israel” resultará no colapso rápido e completo da sociedade americana e no fim de “Israel” como país. Se as sionocracias no poder entendem isso ou não, não faz diferença.

CONCLUSÕES

Ambas as partes constituintes do Ocidente estão claramente em seus últimos suspiros e caminham para uma crise ainda mais profunda.

Afirmo que, no caso da UE/Otan, o destino está selado e nada, nem mesmo a remoção de Starmer, fará diferença. O fato é que a classe dominante da UE/Otan quer uma guerra com os russos  e conseguirá o que quer.

A situação com os EUA é muito mais complexa, especialmente agora que o lobby israelense e a economia americana estão em rota de colisão.

Scott Ritter estava certo: mais do que qualquer outra coisa, os americanos se preocupam com o próprio bolso e com a gasolina em seus carros. Isso os coloca firmemente na categoria de “potenciais antissemitas”; é apenas uma questão de tempo.

Se alguém perguntasse a qualquer americano: “Você quer que os EUA cometam suicídio econômico, militar, político e social em nome de Israel?”, cerca de 95% dos americanos diriam “de jeito nenhum”.

Quanto aos remanescentes fanáticos do MAGA e aos fanáticos religiosos inveterados, eles realmente não importam. Quanto à maioria dos judeus americanos, eles se opõem de fato às políticas e ações israelenses.

Neste momento, temos o seguinte: um Comandante-em-Chefe completamente insano e totalmente irresponsável, cercado por aspirantes inexperientes, covardes e estúpidos que não conseguiriam administrar nem uma loja de conveniência, quanto mais um país importante.

Então, qual é o “plano” deles (estou sendo generoso aqui)?

Primeiro, prolongar tudo até novembro, depois reagrupar e atacar novamente. É claro, como se os israelenses concordassem em sair do Líbano até novembro.

Veja bem, eles podem até fazer isso, mas isso não impedirá as operações de combate em Gaza e na Cisjordânia, e, portanto, o Hezbollah não interromperá as operações contra a entidade sionista.

Além disso, os israelenses não podem parar de bombardear o Líbano de qualquer maneira. Então, as chances de Bibi, Smotrich, Ben Gvir, Katz e o resto concordarem em manter um cessar fogo até novembro são altamente improváveis.

A rede de agentes de influência israelenses no EUA (Congresso, mídia, finanças, etc.) continuará a pressionar por políticas semelhantes às de Meir Kahane.

Quem poderia impedir isso, em teoria?

Trump. Ele não está mais na disputa e sua lealdade ao Partido Republicano é muito menor do que a sua lealdade à presidência e ao seu próprio ego. E o que está em jogo agora não é apenas uma derrota militar horrenda contra o IRÃ (!) e não contra a Rússia ou a China.

Sério? Apesar de toda a sua coragem e brilhantes sucessos militares, os iranianos não têm nem uma fração do poder de fogo que a Rússia e a China possuem. Se fossem derrotados pelo Irã, as chances dos EUA contra a Rússia ou a China seriam nulas.

Assim, Trump poderia decidir que o seu legado tem de ser diferente de apenas 1) a pior derrota da história militar dos EUA e 2) a pior crise econômica dos tempos modernos. E como os neoconservadores são uns idiotas incultos, extremamente mal-educados, arrogantes e narcisistas, Trump poderia simplesmente explodir e mandar-lhes dar o fora. Não estou a dizer que isto vá acontecer, apenas que poderia acontecer.

Um cenário muito mais provável é uma verdadeira mudança de regime, ou seja, não a substituição da Coca-Cola pela Pepsi-Cola, mas a remoção de todos os «refrigerantes» do poder, o que significa que uma elite governante diferente substituirá a atual.

Defendo que, embora não saibamos quando isto poderá acontecer, é quase certo que venha a acontecer em algum momento no futuro.

Conclusão: embora já não tenha esperanças nos imbecis da UE/Otan, ainda tenho esperança nos EUA: embora a transição seja longa, caótica e, possivelmente, dolorosa, os EUA têm um potencial real, especialmente se o regime atual (refiro-me a isso em termos técnicos, não como um insulto) for substituído por uma espécie de Confederação de estados norte-americanos com grande autonomia atribuída aos estados.

Acrescente-se a isto uma grande riqueza natural, uma população diversificada e trabalhadora, muita energia e segurança estratégica (ninguém pode nem quer ameaçar os EUA).

Mais cedo ou mais tarde, o hospedeiro (os EUA) livrar-se-á do parasita que atualmente o paralisa, e o país terá um futuro real, não como hegemonia mundial — claro, esse barco já partiu —, mas, mesmo assim, como uma grande potência.

Por último, recomendo não se perder em pormenores como o que Trump disse ontem ou hoje (isso vai mudar 50 vezes de qualquer forma) ou quantos mísseis de longo alcance a Otan pode disparar contra a Rússia. Estas são as árvores, olhem para a floresta.

Algumas observações finais:

Podemos ter a certeza absoluta de que, antes de a colônia sionista se render, os seus líderes usarão armas nucleares e irão explodir a mesquita de al-Aqsa. Não se trata de uma questão de «se», mas sim de «quando».

Existe uma possibilidade concreta de os EUA poderem utilizar armas nucleares contra o Irã. Considero isso menos provável do que «Israel» o fazer, mas também é uma possibilidade real (para um narcisista extremo como Trump utilizar armas nucleares é muito, MUITO preferível a uma humilhante perda de prestígio!).

E a conclusão mais importante: nenhum destes conflitos (na verdade, batalhas diferentes dentro da mesma guerra) será resolvido por meio de negociações.

O Irã e a Rússia terão de derrotar completamente a oposição, tal como a URSS fez em 1945.

Se Kiev será tomada ou não é motivo de discussão, e Washington, ao contrário de Berlim, não será tomada fisicamente — mas o resultado será o mesmo: uma derrota militar completa e abrangente para o Ocidente.

Por ora da minha parte é tudo. 

*Borislav Radmanovich é analista geopolítico.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

7 de outubro: dois anos de crimes do estado sionista e genocida de Israel contra o povo palestino

Copiei do  indispensável BRASIL 247

José Reinaldo Carvalho (Jornalista, editor internacional do Brasil 247 e da página Resistência: http://www.resistencia.cc)

Um quadro dantesco de genocídio: mortes, destruição, fome e deslocamento maciço em Gaza desde 7 de outubro de 2023, configurando o holocausto do século 21

07 de outubro de 2025, 03:47 h

247 - Dois anos após 7 de outubro de 2023, data em que combatentes do Hamas romperam as defesas israelenses na operação chamada “Dilúvio de Al Aqsa”, o Estado de Israel segue promovendo violência maciça e sistemática em Gaza, com consequências devastadoras: mortes, fome, destruição de infraestrutura e deslocamento em massa. A denúncia dessa tragédia vem dos dados de organismos internacionais.

É preciso acrescentar a cumplicidade escancarada do imperialismo estadunidense, tanto no governo Biden quanto neste segundo mandato de Donald Trump.

A ação palestina contra o brutal cerco, bloqueio e inomináveis atos de violência israelense contra a população de Gaza foi respondida militarmente por Israel sob a forma de um inaudito genocídio.

Naquele 7 de outubro, o sistema de defesa de Israel foi superado pela ofensiva dos combatentes de Gaza, que proclamaram a luita heroica contra o “tempo de devastação e assassinato”.

Conforme dados oficiais palestinos e de agências da ONU, o estado sionista desencadeou uma ofensiva que já matou mais de 66 mil pessoas em Gaza e danificou ou destruiu cerca de 78% das construções da Faixa, incluindo centenas de milhares de casas. Reescrevo agora este panorama sob um viés mais aprofundado e com ênfase na responsabilidade dos EUA.

Mortes, feridos e destruição em números

Reportagerm da Telesur compilou dados reveladores do genocídio. Segundo o Ministério da Saúde palestino, até agora mais de 66 mil pessoas foram mortas em Gaza e 156.758 ficaram feridas. Levantamentos do UNOSAT/UNITAR apontam danos maciços: 102.067 estruturas “destruídas”, 17.421 severamente danificadas, 41.895 moderadamente danificadas e 31.429 possivelmente danificadas, somando 192.812 estruturas afetadas — cerca de 78% do total edificado — incluindo cerca de 282.904 casas danificadas.

Nos dois últimos anos, Israel despejou sobre Gaza uma violência militar sem paralelo: cerca de 300 toneladas de explosivos foram lançados por quilômetro quadrado desde outubro de 2023 — vinte vezes mais do que os EUA utilizaram no Vietnã. Nada disso, porém, quebrou a determinação de um povo que luta para existir.

Em paralelo, a geografia da Faixa de Gaza foi redesenhada por corredores militares e sucessivas ordens de deslocamento.

Colapso do sistema de saúde

Relatório da Organização Mundial da Saúde (10 de setembro) afirma que 94% dos hospitais de Gaza foram destruídos ou estão fora de operação, empurrando os poucos serviços ativos para a superlotação crítica. Em maio, 19 dos 36 hospitais ainda operavam, muitos de forma parcial. O Health Cluster registrou que os hospitais Al‑Shifa e Al‑Ahli, na Cidade de Gaza, “estão operando com quase 300% da capacidade”.

Educação, água e saneamento sob escombros

De acordo com a UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Médio), 90% das escolas foram destruídas ou severamente danificadas e aproximadamente 660 mil crianças estão sem aulas. Por sua vez, a Oxfam estima a destruição de 1.640 km de redes de água e esgoto; em áreas do norte, o acesso da população não chega a 7% dos níveis pré‑conflito, elevando o risco de doenças hídricas.

Na agricultura, a perda de terras férteis aumentou de 5,36% (outubro de 2023) para 33,13% (fevereiro de 2024), o que corresponde a 120 km² de áreas essenciais para a produção local de alimentos, segundo a comissão da ONU citada.

Patrimônio cultural devastado

Entre 7 de outubro de 2023 e 18 de agosto de 2025, a UNESCO contabilizou danos em pelo menos 110 bens culturais em Gaza, incluindo 13 locais religiosos, 77 edifícios históricos, nove monumentos, um museu e sete sítios arqueológicos. Entre as perdas, estão o cemitério romano no norte da Faixa e a Grande Mesquita de Al‑Omari, quase totalmente destruída. A organização PEN America relata a destruição de universidades, 11 bibliotecas — entre elas a Biblioteca Pública de Gaza — e editoras e livrarias, como a Samir Mansur.

Ocupação e corredores militares

Relatos de uma comissão independente da ONU indicam que as operações do exército israelense cobriram 278 km² — cerca de 75% do território de Gaza —, com o OCHA (Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas) apontando presença operacional e ordens de evacuação em 87,8% da Faixa (julho de 2025). A ONU reconhece cinco e cita quatro corredores que atravessam o território da Faixa de Gaza: Filadélfia, Netzarim, Magen‑Oz e Morag. Este último, anunciado em abril de 2025, recebeu o nome de um assentamento evacuado no plano de retirada de 2005.

A fome como arma de guerra, segundo especialistas da ONU

Em finais de setembro, eram 640 mil pessoas em situação catastrófica de fome, 1,14 milhão em emergência e 396 mil em crise alimentar. A Telesur cita em reportagem o alerta do relator especial da ONU para o direito à alimentação, Michael Fakhri: “Israel está matando Gaza de fome. É genocídio. É um crime contra a humanidade . É um crime de guerra”.

A privação deliberada de alimentos a civis é considerada crime de guerra em diversos ordenamentos e no direito internacional, amparada nas Convenções de Genebra, na Resolução 2417 do Conselho de Segurança (2018) e na emenda de 2019 ao Estatuto de Roma que tipifica a fome também em conflitos não internacionais.

Cumplicidade sob Biden

No governo Biden, os EUA não atuaram como moderador: mantiveram e até aceleraram o fluxo de armas e recursos que alimentam o massacre em Gaza. O governo Biden aprovou pacotes de ajuda militar e suplementares, muitas vezes utilizando mecanismos urgentes para atropelar trâmites normais de revisão no Congresso.

Em 2024, por exemplo, o Congresso aprovou um pacote de US$ 95 bilhões em auxílio militar e “humanitário” a Israel. Também durante o governo Biden, os EUA remeteram bilhões em garantias de empréstimos e venda de armamentos avançados a Israel. Relatórios advindos de Think Tanks e da imprensa mostraram que o governo Biden usou ordens executivas e “renúncias rápidas” para acelerar entregas de armas (inclusive já compradas) mesmo diante de alertas sobre possíveis violações de direitos humanos no uso dessas armas.

Mesmo quando membros da comunidade diplomática ou do Departamento de Estado identificavam violações graves ou riscos de genocídio, não houve recuo significativo. O manto diplomático dos EUA agiu como escudo no âmbito internacional: vetos sistemáticos a resoluções das Nações Unidas que condenavam o cerco ou exigiam cessar-fogo, bloqueios de investigações independentes e veto a ações do Conselho de Segurança. Em suma: Biden manteve a engrenagem de guerra, ainda que em tese com “apelos humanitários” pontuais.

A escalada com Trump: descaramento e intensificação

No retorno de Donald Trump como presidente, a cumplicidade dos EUA com o regime de Netanyahu não foi apenas continuidade: tornou-se impulso explícito ao massacre. Trump, enviou novos volumes de armas e retirou até condicionantes previamente impostos — aquilo que se apresentava como “tempero diplomático” sob Biden, com ressalvas e obstruções pontuais, sob Trump é escancarado.

Poucos meses após assumir, a administração Trump notificou o Congresso de vendas de armas à Israel que ultrapassam US$ 7,4 bilhões em munições e kits de orientação, além de reverter memorandos do governo anterior que impunham condicionamentos ao apoio militar israelense. Em março deste ano, Trump aprovou um pacote de quase US$ 3 bilhões em bombas e veículos de combate, incluindo bombas Mk-84 e kits de orientação JDAM — todo o tipo de artefato usado com brutalidade nos ataques sobre Gaza.

Em um movimento mais forte, o governo acelerou a entrega de US$ 4 bilhões em ajuda militar prometida a Israel. Ainda, enquanto muitos governos europeus impunham embargos ou suspendiam licenças de armas, o governo Trump revogou restrições que Biden havia introduzido em nome de respeito a direitos humanos. Trump também apresentou plano audacioso: em fevereiro de 2025, anunciou que os EUA “tomariam conta” da administração da Faixa de Gaza, deslocariam sua população e a reconstruiriam sob a tutela americana, numa proposta que beira o etnocídio e a limpeza étnica expressa.

Esse projeto mostra, sem disfarces, que o alinhamento entre Trump e Netanyahu não é apenas militar, mas ideológico: ambos almejam reformatar o Oriente Médio sob a égide do expansionismo israelense, com os Estados Unidos operando como braço executor e patrocinador inconteste.

Trump e Netanyahu : diplomacia do genocídio

Não pode haver neutralidade diante deste horror e é preciso gritar que a cumplicidade estadunidense não é “apoio”: é corresponsabilidade. Por que as mortes seguem crescendo? Porque enquanto Israel despeja bombas, os EUA enviam armas. Enquanto Gaza é reduzida a escombros, os EUA vetam resoluções na ONU e barram investigações. Esse mecanismo garantiu impunidade total ao regime genocida de Netanyahu.

A funcionalidade dessa parceria é clara: os Estados Unidos mantêm Israel como satélite estratégico no Oriente Médio, contrapondo-se ao Irã e aos movimentos de resistência. Assim, o massacre em Gaza é parte de uma guerra mais ampla de dominação regional.

A venda constante de armamentos aos israelenses garante rentabilidade à indústria bélica norte-americana, ao passo que legitima o discurso de “defesa” e “segurança” que serve como álibi moral para a dominação.]

A blindagem diplomática dos EUA permite a Israel agir com virtual impunidade perante instâncias internacionais, como a Corte Penal Internacional ou o Conselho de Direitos Humanos, enquanto acusações graves de crimes de guerra e genocídio são engavetadas.

Em plena vigência do segundo mandato de Donald Trump, diante da carnificina contínua em Gaza, celebra-se o cinismo político de um sistema que vende morte como estratégia de hegemonia. O silêncio de potências que se diziam defensoras dos direitos humanos já não é mera omissão: virou ato de colaboração com o assassinato em escala industrial.

A tragédia de Gaza, que atravessa dois anos completos, expõe o caráter estrutural e predatório do sistema imperial: enquanto o povo palestino é bombardeado, empobrecido e privado de condições mínimas para sobreviver, os EUA arcam com a pecha de executor e protecionista de um regime genocida — e falham irrevogavelmente como ator humanitário no palco global.

Netanyahu e o projeto de poder que redesenha o Oriente Médio

Dois anos depois da operação “Dilúvio de Al Aqsa”, Gaza segue como um território devastado e o epicentro de uma estratégia que ultrapassa a retaliação militar. A resposta de Israel, segundo as declarações do genocida-mor do século 21, Benjamin Netanyahu, só terminaria “com o extermínio do Hamas e a modificação completa do mapa político regional”.

Essa ameaça deu forma a uma política de guerra expandida, que hoje envolve o Líbano, o Irã e o próprio equilíbrio geopolítico do Oriente Médio.

Logo após o início da atual etapa do genocídio em outubro de 2023, Israel intensificou as operações no sul do Líbano, mirando posições do Hezbollah e assassinando alguns de seus principais líderes. A ofensiva visando a golpear o eixo de resistência regional, provocou a escalada mais grave entre os dois países desde 2006.

Mas Netanyahu foi além. Em 2024, ordenou bombardeios maciços no Líbano e, no ano seguinte, conduziu uma guerra de 12 dias contra o Irã, marcada por ataques aéreos de alta intensidade, revelando por meio dessas ações agressivas, até onde o estado expansionista de Israel quer chegar. Ao projetar uma guerra permanente.

A ofensiva israelense, que contou com todo o respaldo od imperialismo estadunidense, prossegue como parte de um projeto de reconfiguração geopolítica. Netanyahu já não fala apenas de segurança, mas de hegemonia regional, de contenção do Irã e de um novo desenho territorial. A guerra contra o Hamas foi o ponto de partida; o alvo real é o “novo Oriente Médio”.

E o custo é pago pelas populações civis — palestina, libanesa e iraniana — que vivem sob o ruído incessante dos drones e a sombra da fome. O silêncio ou a neutralidade dos países que se dizem defensores dos direitos humanos já não é diplomacia: é cumplicidade.

Gaza tornou-se não apenas o epicentro de uma tragédia humanitária, mas também o espelho em que se reflete a crise do sistema imperialista nas primeiras décadas do século 21.

Netanyahu ameaça mudar o mapa político do Oriente Médio. Para alcançar o objetivo, não se detém diante dos mais abomináveis crimes, o principal deles a limpeza étnica na Palestina, levando a um nível mais devastador a saga criminosa dos seus antecessores que fizeram a Nakba nos finais dos anos 1940. 

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

O povo brasileiro é refém de meliantes

Donald Trump é um meliante escroto.

A família Bolsonaro é bando de meliantes escrotos.

Grande parte do Congresso Nacional é formada por notórios meliantes escrotos.

Todos os que elegeram Trump são meliantes escrotos, e todos os que votaram em Bolsonaro são meliantes escrotos.

Para não perder a viagem, o estado genocida de Israel é governado por meliantes escrotos. 

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

GAZA (OU ELES NÃO PODEM CONTINUAR NASCENDO)

Copiei da página do MST 


São Paulo, 27 de Fevereiro de 2024

Estimados amigos e amigas,

Compartilhamos com vocês o poema de PEDRO TIERRA, em solidariedade ao Povo Palestino, diante do genocídio em Gaza.

Saudações,

João Pedro

XXX---XXX

GAZA (OU ELES NÃO PODEM CONTINUAR NASCENDO)

Hamilton Pereira (Pedro Tierra)


30 mil mortos.

Essa informação cabe num verso?

Metade dos mortos nessa guerra são crianças.

Com que material será escrita a poesia 

desse tempo?

Gaza: 70% dos corpos identificados são mulheres.

Contando as grávidas.

Move-se uma guerra contra o ventre das mulheres palestinas.

Elas não podem continuar nascendo...

Elas não podem continuar nascendo...

Elas não podem continuar nascendo em Gaza.

Elas não podem continuar nascendo em Ramallah.

Eles (os palestinos) não podem 

continuar nascendo.

Oitenta e quatro anos depois de Auschwitz,

move-se diante dos meus olhos de espanto

uma guerra de extermínio contra 

mulheres e crianças.

Move-se diante dos meus olhos gastos

pela contemplação dolorosa da saga

em busca da ressurreição possível

uma guerra contra mulheres e crianças

sobre as areias de Gaza.

?Em Ramá se ouviu uma voz,

muito choro e gemido.

É Raquel que chora

os filhos assassinados

e não quer ser consolada

porque os perdeu para sempre? (Mt.12,18)

(Não serei a voz,

desde o conforto da sombra

que me abriga, nesse ocaso da vida,

que direi aos escravos enfurecidos

como sacudir dos ombros 

a opressão que os esmaga.)

Acender a memória

da explosão do Hotel King David,

22 de julho de 1946 às 12:37.

Jerusalém foi sacudida:

91 mortos. 45 feridos.

Que nome dar a esse ato?

Perguntem a Menachen Beguin.

Hoje, é preciso desenterrar

os deslocados para lugar nenhum.

Os que já não podem retornar

dos escombros, das areias,

das cinzas, do vento que sopra

sobre a memória de Gaza.

Por onde andará Islam Hamed?

É preciso reacender sobre sua ausência

a luz do sol bombardeada

na tarde de ontem.

E perguntar ao coração das bombas:

que destino aguarda um milhão e meio

de palestinos acantonados em Rafah?

Escombros nas ruas.

Escombros de corpos.

Escombros nas almas.

?Ficou muito irado e mandou massacrar,

em Belém e nos seus arredores,

todos os meninos de dois anos para baixo,

conforme o tempo exato

que havia indagado aos Magos. (Mt,12-16)

Não há luz no Hospital Al-Shifa

que permita fazer uma sutura

nos corpos destroçados

pelos bombardeios.

Uma sutura no corpo da Palestina:

haverá uma geração de mutilados

condenados a mirar sem ternura

na dor aguda dessa perna que falta,

na pele que já não protege

a carne exposta,

as digitais de Benjamin Netanyahu.

Recolho o espanto e me afasto

enquanto ouço a voz rouca

que emerge do sul e parte em pedaços

os espelhos cegos da indiferença do mundo...


Brasília, dez. 2023/ fev. 2024.


Pedro Tierra (Hamilton Pereira) é poeta. Ex-presidente da Fundação Perseu Abramo


domingo, 25 de fevereiro de 2024

Pronunciamento do Secretário-Geral de Médicos Sem Fronteiras, Christopher Lockyear, ao Conselho de Segurança da ONU

Copiei de Médicos Sem Fronteiras (MSF)

22 de fevereiro de 2024

Senhora presidente, excelências, colegas,

No momento em que pronuncio estas palavras, mais de 1,5 milhão de pessoas estão encurraladas em Rafah. Pessoas que foram violentamente forçadas a irem para esta faixa de terra no sul de Gaza estão arcando com as consequências da campanha militar de Israel.

Vivemos sob o medo de uma invasão terrestre.

Nossos temores são baseados na nossa própria experiência. Há apenas 48 horas, quando uma família estava ao redor de uma mesa de cozinha em uma casa que abrigava funcionários de MSF e suas famílias em Khan Younis, um projétil de 120mm disparado por um tanque rompeu as paredes do local e explodiu, iniciando um incêndio, matando duas pessoas e deixando outras seis com queimaduras severas. Cinco dos seis feridos são mulheres e crianças.

Havíamos tomado todas as precauções possíveis para proteger os 64 trabalhadores humanitários e membros de suas famílias de um ataque desse tipo, notificando as partes em conflito sobre a localização e marcando claramente o edifício com uma bandeira de MSF. Apesar das nossas precauções, nosso prédio foi atingido não apenas por um disparo de tanque, mas por tiros intensos. Algumas pessoas ficaram presas no prédio em chamas enquanto os disparos contínuos atrasavam a chegada de ambulâncias ao local. Hoje pela manhã, olho para fotos que mostram a extensão catastrófica dos danos e vejo vídeos de equipes de resgate retirando corpos carbonizados dos escombros.

Isto tudo é extremamente familiar – forças israelenses atacaram nossos comboios, detiveram nossos funcionários e destruíram nossos veículos com tratores, e hospitais foram bombardeados e invadidos. Agora, pela segunda vez, um dos abrigos onde estavam nossos funcionários foi atingido. Ou este padrão de ataques é intencional ou é um indicativo de incompetência negligente.

Nossos colegas em Gaza têm medo de que, conforme eu pronuncio hoje essas palavras, eles sejam punidos amanhã.

Senhora Presidente, todos os dias nós testemunhamos o horror inimaginável.

Nós, assim como tantos outros, ficamos horrorizados pelo massacre praticado pelo Hamas em Israel em 7 de outubro, e ficamos horrorizados pela reação de Israel. Sentimos a angústia das famílias cujos entes queridos foram feitos reféns em 7 de outubro. Sentimos a angústia das famílias daqueles detidos arbitrariamente de Gaza e da Cisjordânia.

Como humanitários, ficamos perplexos com a violência contra civis.

Estas mortes, destruição e deslocamentos forçados são o resultado de escolhas políticas e militares que desrespeitam flagrantemente as vidas de civis.

Estas escolhas poderiam ter sido feitas, e ainda podem ser feitas, de maneira muito diferente.

Por 138 dias, testemunhamos o sofrimento inimaginável da população de Gaza.

Por 138 dias, temos feito tudo que é possível para efetuar uma resposta humanitária relevante.

Por 138 dias, temos assistido à destruição sistemática de um sistema de saúde que apoiamos há décadas. Temos assistido aos nossos colegas e pacientes serem mortos e mutilados.

Esta situação é o ponto culminante de uma guerra travada por Israel contra toda a população da Faixa de Gaza— uma guerra de punição coletiva, uma guerra sem regras, uma guerra a qualquer preço.

As leis e os princípios dos quais dependemos coletivamente para permitir a assistência humanitária estão agora corroídos ao ponto de perderem seu significado.

Senhora Presidente, a resposta humanitária em Gaza é uma ilusão —uma ilusão conveniente que perpetua a narrativa de que esta guerra está sendo travada em linha com leis internacionais.

Apelos por mais assistência humanitária ecoaram nesta sala.

Ainda assim, em Gaza temos cada vez menos a cada dia—menos espaço, menos medicamentos, menos comida, menos água, menos segurança.

Já não falamos mais de intensificar a ação humanitária; falamos de sobreviver mesmo sem o mínimo necessário.

Hoje, em Gaza, os esforços para prover assistência são irregulares, episódicos e totalmente inadequados.

Como podemos oferecer ajuda que salva vidas em um ambiente onde a diferença entre combatentes e civis não é levada em conta?

Como podemos manter qualquer tipo de resposta quando trabalhadores médicos são alvejados, atacados e demonizados por atender aos feridos?

Senhora Presidente, ataques a serviços de saúde são ataques à humanidade

Não restou nada que possa ser chamado de um sistema de saúde em Gaza. Os militares de Israel desmantelaram hospitais, um após o outro. O que restou é tão pouco diante de tamanha carnificina que é simplesmente absurdo.

A desculpa dada é a de que as instalações médicas foram usadas para fins militares, embora não tenhamos visto qualquer prova verificada de maneira independente de que isso tenha ocorrido.

Em circunstâncias excepcionais nas quais um hospital perde seu status de local protegido, qualquer ataque deve atender aos pricípios de proporcionalidade e cautela.

Ao invés da aderência à lei internacional, vemos a inutilização sistemática de hospitais. Isto tem deixado inviáveis as operações de todo o sistema médico.

Desde 7 de outubro, fomos forçados a evacuar nove instalações de saúde distintas.

Há uma semana, o hospital Nasser foi invadido. O pessoal médico foi forçado a sair apesar de ter recebido garantias reiteradas de que poderia ficar para continuar atendendo aos pacientes.

Estes ataques indiscriminados, assim como os tipos de armas e munições utilizadas em áreas densamente povoadas, mataram dezenas de milhares de pessoas e mutilaram outros milhares.

Nossos pacientes têm ferimentos catastróficos, amputações, membros esmagados e queimaduras graves. Eles precisam de atendimento especializado. Precisam de reabilitação longa e intensiva.

Médicos não podem tratar estes ferimentos em um campo de batalha ou nas cinzas de hospitais destruídos.

Não há leitos, medicamentos e suprimentos suficientes.

Cirurgiões não tiveram escolha a não ser realizar amputações sem anestesia em crianças.

Nossos cirurgiões estão ficando até sem gaze para impedir que seus pacientes sangrem. Eles usam uma vez, espremem o sangue, lavam, esterilizam e reutilizam para o próximo paciente.

A crise humanitária em Gaza deixou grávidas sem cuidados médicos por meses. Mulheres em trabalho de parto não podem aceder a salas de parto. Estão dando à luz em barracas de plástico ou edifícios públicos.

Equipes médicas agregaram um novo acrônimo ao seu vocabulário: WCNSF — sigla em inglês para criança ferida sem familiar sobrevivente.

As crianças que sobreviverem a esta guerra não vão carregar apenas os ferimentos visíveis das lesões traumáticas, mas também os invisíveis—aqueles causados pelos reiterados deslocamentos, medo constante e por testemunhar membros da família serem literalmente despedaçados diante de seus olhos. Essas feridas psicológicas têm levado crianças tão pequenas como de 5 anos nos dizer que preferiam estar mortas.

Os riscos para o pessoal médico são enormes. Todos os dias, temos feito a escolha de prosseguir com o nosso trabalho diante do perigo cada vez maior.

Estamos apavorados. Nossas equipes estão mais do que exaustas.

Senhora Presidente, isso tem de parar.

Nós, junto com o resto do mundo, temos acompanhado de perto o modo como este Conselho e seus membros têm abordado o conflito em Gaza.

Reunião após reunião, resolução após resolução, este órgão não conseguiu endereçar de maneira efetiva este conflito. Vimos membros deste Conselho deliberarem e agirem com atraso enquanto civis morrem.

Estamos perplexos com a disposição dos Estados Unidos de usar seus poderes como membro permanente do Conselho para obstruir os esforços para a adoção da mais evidente das resoluções: uma pedindo um cessar-fogo imediato e sustentado.

Por três vezes este Conselho teve a oportunidade de votar por um cessar-fogo que é tão desesperadamente necessário, e por três vezes os Estados Unidos usaram seu poder de veto, mais recentemente na última terça-feira.

Uma nova proposta de resolução feita pelos Estados Unidos pede de maneira ostensiva por um cessar-fogo. Apesar disso, ela é no mínimo falaciosa.

Este Conselho deveria rejeitar qualquer resolução que obstrua ainda mais os esforços humanitários no terreno e leve este Conselho a endossar de maneira tácita a violência contínua e as atrocidades em massa em Gaza.

A população de Gaza precisa de um cessar-fogo não quando seja “viável” mas agora. Eles precisam de um cessar-fogo sustentado, não “um período temporário de calma”. Qualquer coisa que fique aquém disso é negligência grosseira.

A proteção de civis em Gaza não pode estar condicionada a resoluções deste Conselho que instrumentalizem o humanitarismo para ocultar objetivos políticos.

A proteção de civis, de infraestrutura civil, de trabalhadores da saúde e de instalações de saúde recai, antes de mais nada, sobre as partes envolvidas no conflito.

Mas é também uma responsabilidade coletiva, uma responsabilidade que recai sobre este Conselho e seus membros individuais, como aderentes à Convenção de Genebra.

As consequências de deixar que o Direito Humanitário Internacional torne-se letra morta repercutirão muito além de Gaza. Isto será um fardo duradouro em nossa consciência coletiva. Não se trata apenas de inação política, tornou-se cumplicidade política.

Há dois dias, uma equipe de MSF e suas famílias foram atacados e pessoas morreram em um lugar onde havia sido dito a elas que estaria protegido.

Hoje, nosso pessoal está de volta ao trabalho, arriscando mais uma vez a vida pelos pacientes.

O que vocês estão dispostos a arriscar?

Nós exigimos as proteções prometidas sob o Direito Humanitário Internacional.

Exigimos um cessar-fogo de ambas as partes.

Exigimos que haja espaço para transformar a ilusão da assistência em assistência realmente significativa.

O que vocês farão para que isso seja possível?

Muito obrigado, Senhora Presidente.

XXX---XXX

Palavra do Ornitorrinco Ateu: Ah, dirão os nazi-sionistas que estão a praticar - há quase 80 anos - genocídio contra o povo palestino, ah, dirão, isso é antissemitismo.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

As palavras apodrecem

Por Luiz Eduardo Soares

Publicado por Diário do Centro do Mundo

Atualizado em 20 de fevereiro de 2024 às 11:50


Palestino tenta socorrer criança ferida após novo bombardeio de Israel em Gaza - Foto: Yasser Qudih

O mais dilacerante sofrimento humano não é nomeável, descritível, muito menos mensurável. Transborda os limites da linguagem e de qualquer medida.

Sua natureza é a incomensurabilidade. Por isso, quando provocado, este sofrimento, por ações alheias evitáveis, não pode ser justificado, não cabe em nenhuma sequência moralmente motivada de atos.

Milhares de crianças mutiladas, membros amputados sem anestesia, espíritos destroçados, seus mundos familiares arruinados, seu espaço devastado, as coisas que as cercam estilhaçadas e calcinadas.

Essas palavras estão vazias, evocam, mas não substituem os corpos empilhados em Gaza, apodrecendo em Gaza: as palavras também apodrecem.

Nenhum sofrimento extremo é comparável a nenhum outro, porque não pode ser partido em unidades, pesado, delimitado, contabilizado, apreendido fora de si mesmo, dado a outrem como um dom, devolvido por seu preço em moeda comum, a moeda que se troca entre mãos hábeis.

O sofrimento excruciante da criança em agonia é um só, um oceano e um deserto, sem começo nem fim: a história interminável do avesso do que gostaríamos de chamar humano.

A criança em pânico, agonizando em Gaza, é a mesma criança em pânico agonizando no campo de concentração nazista. As duas agonias não são comparáveis porque são uma só e a mesma agonia.

Nenhum de nós, nenhuma testemunha tem medida para distinguir, hierarquizar e comparar. Nenhum de nós tem o direito de sugerir que sabe o que é isso de que falamos para velar.


Crianças repousam sobre escombros após ataque israelense no norte da Faixa de Gaza - Foto: Mohammed Salem

Mas temos o dever de nos postar como guardiões da inexpugnabilidade do sofrimento extremo, de sua incomparabilidade, de sua incomensurabilidade, de sua irredutibilidade à linguagem e a toda forma de neutralização.

E temos também o dever de nomear os carniceiros. Os agentes das carnificinas, o governo de Israel e os nazistas, cometeram crimes contra a humanidade e têm de responder perante a história. Seus crimes não são comparáveis. São um só.

XXX---XXX

O Ornitorrinco Ateu - que nunca foi antissemita, seus canalhas! - ao manifestar, de um lado, apoio irrestrito ao Presidente Lula, de outra banda declara mais uma vez que Israel, estado nazi-sionista que há 80 anos massacra o povo palestino é, sim e claramente, um estado genocida.