SOBRE O BLOGUEIRO

Minha foto
Antonina, Litoral do Paraná, Palestine
Petroleiro aposentado e petista no exílio, usuário dos óculos de pangloss, da gloriosa pomada belladona, da emulsão scott e das pílulas do doutor ross, considero o suflê de chuchu apenas vã tentativa de assar o ar e, erguido em retumbante sucesso físico, descobri que uma batata distraída não passa de um tubérculo desatento. Entre sinos bimbalhantes, pássaros pipilantes, vereadores esotéricos, profetas do passado e áulicos feitos na china, persigo o consenso alegórico e meus dias escorrem em relativo sossego. Comendo minhas goiabinhas regulamentares, busco a tranqüilidade siamesa e quero ser presidente por um dia para assim entender as aflições das camadas menos favorecidas pelas propinas democráticas.
Mostrando postagens com marcador viva a luta do povo palestino. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador viva a luta do povo palestino. Mostrar todas as postagens

domingo, 25 de fevereiro de 2024

Pronunciamento do Secretário-Geral de Médicos Sem Fronteiras, Christopher Lockyear, ao Conselho de Segurança da ONU

Copiei de Médicos Sem Fronteiras (MSF)

22 de fevereiro de 2024

Senhora presidente, excelências, colegas,

No momento em que pronuncio estas palavras, mais de 1,5 milhão de pessoas estão encurraladas em Rafah. Pessoas que foram violentamente forçadas a irem para esta faixa de terra no sul de Gaza estão arcando com as consequências da campanha militar de Israel.

Vivemos sob o medo de uma invasão terrestre.

Nossos temores são baseados na nossa própria experiência. Há apenas 48 horas, quando uma família estava ao redor de uma mesa de cozinha em uma casa que abrigava funcionários de MSF e suas famílias em Khan Younis, um projétil de 120mm disparado por um tanque rompeu as paredes do local e explodiu, iniciando um incêndio, matando duas pessoas e deixando outras seis com queimaduras severas. Cinco dos seis feridos são mulheres e crianças.

Havíamos tomado todas as precauções possíveis para proteger os 64 trabalhadores humanitários e membros de suas famílias de um ataque desse tipo, notificando as partes em conflito sobre a localização e marcando claramente o edifício com uma bandeira de MSF. Apesar das nossas precauções, nosso prédio foi atingido não apenas por um disparo de tanque, mas por tiros intensos. Algumas pessoas ficaram presas no prédio em chamas enquanto os disparos contínuos atrasavam a chegada de ambulâncias ao local. Hoje pela manhã, olho para fotos que mostram a extensão catastrófica dos danos e vejo vídeos de equipes de resgate retirando corpos carbonizados dos escombros.

Isto tudo é extremamente familiar – forças israelenses atacaram nossos comboios, detiveram nossos funcionários e destruíram nossos veículos com tratores, e hospitais foram bombardeados e invadidos. Agora, pela segunda vez, um dos abrigos onde estavam nossos funcionários foi atingido. Ou este padrão de ataques é intencional ou é um indicativo de incompetência negligente.

Nossos colegas em Gaza têm medo de que, conforme eu pronuncio hoje essas palavras, eles sejam punidos amanhã.

Senhora Presidente, todos os dias nós testemunhamos o horror inimaginável.

Nós, assim como tantos outros, ficamos horrorizados pelo massacre praticado pelo Hamas em Israel em 7 de outubro, e ficamos horrorizados pela reação de Israel. Sentimos a angústia das famílias cujos entes queridos foram feitos reféns em 7 de outubro. Sentimos a angústia das famílias daqueles detidos arbitrariamente de Gaza e da Cisjordânia.

Como humanitários, ficamos perplexos com a violência contra civis.

Estas mortes, destruição e deslocamentos forçados são o resultado de escolhas políticas e militares que desrespeitam flagrantemente as vidas de civis.

Estas escolhas poderiam ter sido feitas, e ainda podem ser feitas, de maneira muito diferente.

Por 138 dias, testemunhamos o sofrimento inimaginável da população de Gaza.

Por 138 dias, temos feito tudo que é possível para efetuar uma resposta humanitária relevante.

Por 138 dias, temos assistido à destruição sistemática de um sistema de saúde que apoiamos há décadas. Temos assistido aos nossos colegas e pacientes serem mortos e mutilados.

Esta situação é o ponto culminante de uma guerra travada por Israel contra toda a população da Faixa de Gaza— uma guerra de punição coletiva, uma guerra sem regras, uma guerra a qualquer preço.

As leis e os princípios dos quais dependemos coletivamente para permitir a assistência humanitária estão agora corroídos ao ponto de perderem seu significado.

Senhora Presidente, a resposta humanitária em Gaza é uma ilusão —uma ilusão conveniente que perpetua a narrativa de que esta guerra está sendo travada em linha com leis internacionais.

Apelos por mais assistência humanitária ecoaram nesta sala.

Ainda assim, em Gaza temos cada vez menos a cada dia—menos espaço, menos medicamentos, menos comida, menos água, menos segurança.

Já não falamos mais de intensificar a ação humanitária; falamos de sobreviver mesmo sem o mínimo necessário.

Hoje, em Gaza, os esforços para prover assistência são irregulares, episódicos e totalmente inadequados.

Como podemos oferecer ajuda que salva vidas em um ambiente onde a diferença entre combatentes e civis não é levada em conta?

Como podemos manter qualquer tipo de resposta quando trabalhadores médicos são alvejados, atacados e demonizados por atender aos feridos?

Senhora Presidente, ataques a serviços de saúde são ataques à humanidade

Não restou nada que possa ser chamado de um sistema de saúde em Gaza. Os militares de Israel desmantelaram hospitais, um após o outro. O que restou é tão pouco diante de tamanha carnificina que é simplesmente absurdo.

A desculpa dada é a de que as instalações médicas foram usadas para fins militares, embora não tenhamos visto qualquer prova verificada de maneira independente de que isso tenha ocorrido.

Em circunstâncias excepcionais nas quais um hospital perde seu status de local protegido, qualquer ataque deve atender aos pricípios de proporcionalidade e cautela.

Ao invés da aderência à lei internacional, vemos a inutilização sistemática de hospitais. Isto tem deixado inviáveis as operações de todo o sistema médico.

Desde 7 de outubro, fomos forçados a evacuar nove instalações de saúde distintas.

Há uma semana, o hospital Nasser foi invadido. O pessoal médico foi forçado a sair apesar de ter recebido garantias reiteradas de que poderia ficar para continuar atendendo aos pacientes.

Estes ataques indiscriminados, assim como os tipos de armas e munições utilizadas em áreas densamente povoadas, mataram dezenas de milhares de pessoas e mutilaram outros milhares.

Nossos pacientes têm ferimentos catastróficos, amputações, membros esmagados e queimaduras graves. Eles precisam de atendimento especializado. Precisam de reabilitação longa e intensiva.

Médicos não podem tratar estes ferimentos em um campo de batalha ou nas cinzas de hospitais destruídos.

Não há leitos, medicamentos e suprimentos suficientes.

Cirurgiões não tiveram escolha a não ser realizar amputações sem anestesia em crianças.

Nossos cirurgiões estão ficando até sem gaze para impedir que seus pacientes sangrem. Eles usam uma vez, espremem o sangue, lavam, esterilizam e reutilizam para o próximo paciente.

A crise humanitária em Gaza deixou grávidas sem cuidados médicos por meses. Mulheres em trabalho de parto não podem aceder a salas de parto. Estão dando à luz em barracas de plástico ou edifícios públicos.

Equipes médicas agregaram um novo acrônimo ao seu vocabulário: WCNSF — sigla em inglês para criança ferida sem familiar sobrevivente.

As crianças que sobreviverem a esta guerra não vão carregar apenas os ferimentos visíveis das lesões traumáticas, mas também os invisíveis—aqueles causados pelos reiterados deslocamentos, medo constante e por testemunhar membros da família serem literalmente despedaçados diante de seus olhos. Essas feridas psicológicas têm levado crianças tão pequenas como de 5 anos nos dizer que preferiam estar mortas.

Os riscos para o pessoal médico são enormes. Todos os dias, temos feito a escolha de prosseguir com o nosso trabalho diante do perigo cada vez maior.

Estamos apavorados. Nossas equipes estão mais do que exaustas.

Senhora Presidente, isso tem de parar.

Nós, junto com o resto do mundo, temos acompanhado de perto o modo como este Conselho e seus membros têm abordado o conflito em Gaza.

Reunião após reunião, resolução após resolução, este órgão não conseguiu endereçar de maneira efetiva este conflito. Vimos membros deste Conselho deliberarem e agirem com atraso enquanto civis morrem.

Estamos perplexos com a disposição dos Estados Unidos de usar seus poderes como membro permanente do Conselho para obstruir os esforços para a adoção da mais evidente das resoluções: uma pedindo um cessar-fogo imediato e sustentado.

Por três vezes este Conselho teve a oportunidade de votar por um cessar-fogo que é tão desesperadamente necessário, e por três vezes os Estados Unidos usaram seu poder de veto, mais recentemente na última terça-feira.

Uma nova proposta de resolução feita pelos Estados Unidos pede de maneira ostensiva por um cessar-fogo. Apesar disso, ela é no mínimo falaciosa.

Este Conselho deveria rejeitar qualquer resolução que obstrua ainda mais os esforços humanitários no terreno e leve este Conselho a endossar de maneira tácita a violência contínua e as atrocidades em massa em Gaza.

A população de Gaza precisa de um cessar-fogo não quando seja “viável” mas agora. Eles precisam de um cessar-fogo sustentado, não “um período temporário de calma”. Qualquer coisa que fique aquém disso é negligência grosseira.

A proteção de civis em Gaza não pode estar condicionada a resoluções deste Conselho que instrumentalizem o humanitarismo para ocultar objetivos políticos.

A proteção de civis, de infraestrutura civil, de trabalhadores da saúde e de instalações de saúde recai, antes de mais nada, sobre as partes envolvidas no conflito.

Mas é também uma responsabilidade coletiva, uma responsabilidade que recai sobre este Conselho e seus membros individuais, como aderentes à Convenção de Genebra.

As consequências de deixar que o Direito Humanitário Internacional torne-se letra morta repercutirão muito além de Gaza. Isto será um fardo duradouro em nossa consciência coletiva. Não se trata apenas de inação política, tornou-se cumplicidade política.

Há dois dias, uma equipe de MSF e suas famílias foram atacados e pessoas morreram em um lugar onde havia sido dito a elas que estaria protegido.

Hoje, nosso pessoal está de volta ao trabalho, arriscando mais uma vez a vida pelos pacientes.

O que vocês estão dispostos a arriscar?

Nós exigimos as proteções prometidas sob o Direito Humanitário Internacional.

Exigimos um cessar-fogo de ambas as partes.

Exigimos que haja espaço para transformar a ilusão da assistência em assistência realmente significativa.

O que vocês farão para que isso seja possível?

Muito obrigado, Senhora Presidente.

XXX---XXX

Palavra do Ornitorrinco Ateu: Ah, dirão os nazi-sionistas que estão a praticar - há quase 80 anos - genocídio contra o povo palestino, ah, dirão, isso é antissemitismo.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

As palavras apodrecem

Por Luiz Eduardo Soares

Publicado por Diário do Centro do Mundo

Atualizado em 20 de fevereiro de 2024 às 11:50


Palestino tenta socorrer criança ferida após novo bombardeio de Israel em Gaza - Foto: Yasser Qudih

O mais dilacerante sofrimento humano não é nomeável, descritível, muito menos mensurável. Transborda os limites da linguagem e de qualquer medida.

Sua natureza é a incomensurabilidade. Por isso, quando provocado, este sofrimento, por ações alheias evitáveis, não pode ser justificado, não cabe em nenhuma sequência moralmente motivada de atos.

Milhares de crianças mutiladas, membros amputados sem anestesia, espíritos destroçados, seus mundos familiares arruinados, seu espaço devastado, as coisas que as cercam estilhaçadas e calcinadas.

Essas palavras estão vazias, evocam, mas não substituem os corpos empilhados em Gaza, apodrecendo em Gaza: as palavras também apodrecem.

Nenhum sofrimento extremo é comparável a nenhum outro, porque não pode ser partido em unidades, pesado, delimitado, contabilizado, apreendido fora de si mesmo, dado a outrem como um dom, devolvido por seu preço em moeda comum, a moeda que se troca entre mãos hábeis.

O sofrimento excruciante da criança em agonia é um só, um oceano e um deserto, sem começo nem fim: a história interminável do avesso do que gostaríamos de chamar humano.

A criança em pânico, agonizando em Gaza, é a mesma criança em pânico agonizando no campo de concentração nazista. As duas agonias não são comparáveis porque são uma só e a mesma agonia.

Nenhum de nós, nenhuma testemunha tem medida para distinguir, hierarquizar e comparar. Nenhum de nós tem o direito de sugerir que sabe o que é isso de que falamos para velar.


Crianças repousam sobre escombros após ataque israelense no norte da Faixa de Gaza - Foto: Mohammed Salem

Mas temos o dever de nos postar como guardiões da inexpugnabilidade do sofrimento extremo, de sua incomparabilidade, de sua incomensurabilidade, de sua irredutibilidade à linguagem e a toda forma de neutralização.

E temos também o dever de nomear os carniceiros. Os agentes das carnificinas, o governo de Israel e os nazistas, cometeram crimes contra a humanidade e têm de responder perante a história. Seus crimes não são comparáveis. São um só.

XXX---XXX

O Ornitorrinco Ateu - que nunca foi antissemita, seus canalhas! - ao manifestar, de um lado, apoio irrestrito ao Presidente Lula, de outra banda declara mais uma vez que Israel, estado nazi-sionista que há 80 anos massacra o povo palestino é, sim e claramente, um estado genocida. 

terça-feira, 17 de outubro de 2023

Ângela Carrato: Genocídio midiático dos palestinos

Copiei do indispensável VIOMUNDO

16/10/2023 - 17:48 

Arte: Carlos Latuff (@LatuffCartoons)

Por Ângela Carrato*


Os palestinos enfrentam simultaneamente dois genocídios.

O primeiro teve início em 1948, quando a ONU criou o estado de Israel e deixou para depois o estado palestino. Um depois que, até agora, transcorridos 75 anos, não aconteceu.

O segundo, tão terrível quanto privar um povo de espaço para viver, é tentar transformá-lo em “inimigo”, “sanguinário”, “terrorista” e “perigo para a humanidade”, como tem sido feito pela mídia corporativa internacional e brasileira desde então, com o clímax sendo alcançado na última semana, após os ataques do Hamas a Israel.

Há milênios, Sêneca, o filósofo grego, já dizia que “na guerra, a primeira vítima é a verdade”.

Não há, no século XX e nas primeiras décadas do atual século, nenhuma guerra que tenha começado sem ser antecedida por provocações e mentiras da mídia.

No caso em questão, o certo teria sido a criação de dois estados – Israel e Palestina.

Os vitoriosos na Segunda Guerra Mundial, no entanto, se empenharam em resolver só o problema dos judeus que viviam em diáspora pelo mundo e milhões deles acabavam de ser barbaramente perseguidos e mortos pelos nazistas.

Ao criar o estado de Israel, para resolver o genocídio que a própria Europa havia deixado acontecer com os judeus, não foi levado em conta que os palestinos eram os históricos e verdadeiros donos da região.

Os judeus apenas miticamente tinham relação com aquele território.

A ONU autorizou a criação de Israel e milhares de judeus em todo o mundo começaram a se mudar para lá. Desde então, os palestinos passaram a ser perseguidos e expulsos de sua própria terra.

A situação a que foram relegados deixa evidente o racismo por trás das ações dos vitoriosos na Segunda Guerra Mundial, a começar pelo próprio nome com que a região era designada: Oriente Médio.

Geograficamente, não existe Oriente Médio. Trata-se de invenção de países imperialistas como a Inglaterra, para justificar suas antigas colônias na região.

O território que se estende desde o Leste do mar Mediterrâneo até o Golfo Pérsico é uma sub-região da Afro-Eurásia, sobretudo da Ásia, e retirá-lo desta condição foi uma bem sucedida operação semântica para legitimar o neoimperialismo.

Dito de outra forma, o “Ocidente” não estaria interferindo no Oriente (África e Ásia), mas atuando numa região intermediária.

Some-se a isso que por serem árabes e, não ocidentais brancos, com o agravante, aos olhos imperialistas, de praticarem a religião islâmica, os palestinos poderiam ser alvo de todas as atrocidades. E foram.

Há décadas que sofrem privações básicas, mas nada tão grave quanto negar-lhes até a própria condição humana. Como disse há seis dias o ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, “estamos combatendo contra animais”.

Um absurdo que foi naturalizado pela maior parte da mídia internacional e nacional.

Tudo isso vem sendo ignorado por esta mesma mídia ao tratar o grupo Hamas, que em tradução livre significa Movimento de Resistência Islâmica, como terrorista pelo atentado a Israel, no sábado (7/10), como se os conflitos tivessem começado ali.

Toda violência merece repúdio, mas não se pode negar a um povo o direito de lutar pela sua libertação.

Essa é a razão pela qual a ONU não considera o Hamas um grupo terrorista, ao contrário do que tem sido repetido à exaustão pela mídia brasileira e internacional. Mídia que tem coberto apenas um lado deste conflito, negando aos palestinos o direito básico de serem ouvidos e exporem suas razões.

A voz que se ouve na mídia Ocidental quando o assunto diz respeito a Israel e palestinos é a de Israel, que tem como aliados, desde sempre, Inglaterra e Estados Unidos.

Foi assim na chamada 1ª Guerra Árabe-Israelense (1948), na crise do canal de Suez (1956), na Guerra dos Seis Dias (1967), na 1ª Intifada (rebelião popular palestina), em 1987, e na 2ª Intifada (2000), além das seguidas ofensivas entre Israel e Hamas em 2008, 2009, 2012, 2014, 2018, 2019 e 2021.

Em todos estes conflitos, Israel contou com o apoio político e bélico dos Estados Unidos.

Apoio político ao negar, através da condição de um dos cinco membros do Conselho de Segurança da ONU com direito a veto, conter a fúria de Israel ou envidar efetivos esforços para a criação do estado palestino.

Apoio bélico ao contribuir decisivamente para Israel ter um dos mais bem armados exércitos do mundo, além de um serviço de espionagem, o Mossad, mais eficiente do que a CIA ou o NSA, seus congêneres estadunidenses.

Diante da disparidade de condições reinantes entre Israel e palestinos, não há nem mesmo como falar em guerra.

Como 2,1 milhões de palestinos, que não dispõem sequer de exército, confinados por Israel na faixa de Gaza, meros 365 quilômetros quadrados (equivalente a um quarto do território da cidade de São Paulo) conseguiriam enfrentar um dos exércitos mais bem equipados do planeta?

Israel priva-os de tudo. Entradas e saídas de pessoas na Faixa de Gaza são controladas, o mesmo podendo ser dito de alimentos, medicamentos e combustíveis, muito antes do atentado do Hamas.

Se as tensões entre Israel e palestinos não são de agora, existem fatos recentes que estão na raiz do aumento explosivo da violência na região.

O principal deles é a crescente impopularidade do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

No poder, mesmo que de forma intermitente, há mais de 20 anos, ele, um extremista de direita que enfrenta uma série de processos por corrupção, conseguiu que fosse aprovado pelo Congresso projeto que limita os poderes da Suprema Corte de lá.

A medida vinha provocando críticas dos mais diversos setores e intensas manifestações contra ele.

Possivelmente visando fortalecer-se e conter as críticas, Netanyahu estaria, segundo palestinos, preparando uma espécie de ofensiva final contra a Faixa de Gaza.

É a velha tática de criar o perigo externo para conseguir coesão interna. O Hamas teria ficado sabendo e se antecipou.

Se essa versão é verdadeira, não há como afirmar. Mas não deixa de ser curioso observar que mesmo contando com o Mossad, Israel não tenha conseguido prever o ataque do Hamas.

Vale lembrar que na última semana veio à tona, por setores da própria mídia israelense, que o governo do Egito avisou ao israelense, com três dias de antecedência, sobre esses ataques.

Por que Israel não agiu? Essa é a pergunta que os israelenses não se cansam de fazer e explica por que quatro entre cinco deles reprovam o governo de Netanyahu.

É importante destacar que essa reprovação não ocorre por critérios ideólogos ou humanitários, mas pelo fato de que o governo os decepcionou no quesito que mais prezam: a segurança.

Nada disso aparece na mídia Ocidental e, menos ainda, na brasileira.

Aqui, os fatos foram substituídos por achismos, desinformação, preconceitos da pior espécie e alinhamento automático aos interesses do sionismo internacional.

Emissoras de televisão como a Globo, Globo News e CNN Brasil se transformaram em propagadoras de fake news.

Um dos exemplos mais escandalosos foi a divulgação da mentirosa decapitação de 40 bebês israelenses pelo Hamas.

A mentira foi divulgada inicialmente por um canal de TV de Israel, ligado a Netanyahu. Em instantes, passou a ser reproduzida pelas agências de notícias internacionais, sem qualquer verificação.

Aliado incondicional de Israel, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, chegou a mencionar este suposto episódio em pronunciamento, ao dizer que teria visto imagens de bebês mortos e carbonizados.

Como a própria imprensa de Israel se incumbiu de desmascarar a farsa, Biden voltou atrás, mas o estrago estava feito.

A mentira alastrou-se pelo mundo e no Brasil chegou até comunidades mais distantes, turbinada por igrejas neopentecostais, cujos pastores bolsonaristas fazem de Israel, sem qualquer justificativa concreta, uma espécie de referência única de terra e povo abençoados.

Não por acaso, os primeiros brasileiros resgatados em Israel, por determinação do presidente Lula, eram fieis da Igreja Batista da Lagoinha, cuja sede se localiza em Belo Horizonte (MG). Isso que explica que nenhum deles tenha mencionado o nome de Lula em seus agradecimentos.

A ligação dessas igrejas com o bolsonarismo vem de longe. Basta lembrar que as únicas bandeiras presentes nas manifestações antidemocráticas no país junto com a brasileira nos últimos quatro anos foram as dos Estados Unidos e de Israel.

O Brasil foi o primeiro país a retirar com segurança e rapidez seus nacionais de Israel. A Inglaterra, que se arvora em pátria da liberdade, está cobrando uma fortuna pela passagem de quem quiser voltar para casa.

Também na mídia impressa – em especial em jornais como O Globo, Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo -, a versão que interessa a Israel tem sido a única divulgada.

Para tornar a situação mais grave, até supostos blogs progressistas entraram na linha de frente da condenação aos palestinos e na tentativa de censurar jornalistas e publicações que buscam esclarecer a opinião pública sobre o que realmente acontece e está em jogo.

É o caso do jornalista Breno Altman, diretor do portal e da pós-TV Opera Mundi. Judeu, Altman é um profundo conhecedor da situação palestina e tem se dedicado, há anos, a mostrar os horrores que Israel vem infringindo ao povo palestino.

Em represália às suas análises, foi informado que o YouTube desmonetizou parte do seu canal na web.

A atitude das big techs em relação aos canais que se colocam em posição contrária ao genocídio do povo palestino mereceu nota de repúdio da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Por meio da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos, a entidade declarou seu apoio a Altman, que “foi vítima de tentativa de censura por parte da plataforma You Tube, e, lamentavelmente, até mesmo por outro jornalista, por suas posições em defesa do povo palestino”.

A declaração da ABI remete ao posicionamento do jornalista Samuel Pancher, do site Metrópoles, que defendeu que Altman fosse censurado também nas redes sociais.

Ao contrário de ter cessado, tais ameaças ampliaram-se no último fim de semana.

Circula no Whatsapp, por exemplo, lista contendo relação de jornalistas considerados inimigos de Israel e o próprio Altman passou a ser alvo de ataques, com sionistas defendendo que seus dentes sejam quebrados e seus dedos cortados.

O próprio governo brasileiro vem sendo vítima de ataques por parte de sionistas locais e internacionais ao exigirem que condene o Hamas como terrorista.

Ataques que levaram o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, reiterar que, sobre esse assunto, acompanha a classificação da ONU, na qual o grupo de resistência palestino nunca figurou como terrorista.

Na última quinta-feira, integrantes da oposição na Câmara dos Deputados (bolsonaristas e ligados às igrejas neopentecostais) protocolaram pedido para que o governo adotasse o termo ao se referir à organização.

A solicitação foi assinada por mais de 60 deputados, o que indica como o lobby pró-Israel está articulado no país.

A pressão interna e externa sobre o governo brasileiro visa, também, inibir as suas ações no plano internacional, uma vez que o Brasil está, ao longo deste mês, no comando do Conselho de Segurança da ONU.

A presidência é rotativa. Além dos cinco membros permanentes, existem os 10 itinerantes.

Até agora aconteceram duas reuniões solicitadas pelo Brasil, na segunda e sexta-feira passadas.

Em ambas, os Estados Unidos nada fizeram para impedir que Israel cumpra o que prometeu: um ataque jamais visto contra a Faixa de Gaza sem poupar civis, mulheres ou crianças.

O apoio a Israel começou com o Tio Sam esvaziando ambas as reuniões, ao enviar representantes de terceiro escalão para eventos de tamanha importância. Representantes de terceiro escalão não deliberam.

Mesmo convalescendo de uma cirurgia, o presidente Lula passou os últimos dias mobilizando os meios diplomáticos para estas reuniões e defendendo que seja feito o debate sobre questões humanitárias na Faixa de Gaza e a criação de um corredor ligando a região ao Egito, para facilitar a saída de pessoas e a entrada de alimentos, água e remédios para os palestinos.

A proposta de Lula agradou ao secretário-geral da ONU, Antônio Guterres. Mas, como sempre, desagradou aos Estados Unidos e ao lobby sionista, de olho numa solução final contra os palestinos.

A canalhice da mídia corporativa brasileira é tamanha, que não foram poucos os jornalistas a minimizar os esforços do presidente Lula, com uns chegando a rotulá-los como “ineficazes” ou “desnecessários”.

É importante destacar que nos últimos dias, apesar de proibições a manifestações pró-Palestina por governos europeus e nos Estados Unidos, milhares de manifestantes foram às ruas em Nova York, Londres, Berlim, Amsterdã, Oslo e Paris.

Também a Arábia Saudita, através de seu governo, deixou claro para autoridades diplomáticas dos Estados Unidos, que se a Faixa de Gaza por atacada, todo o mundo árabe se unirá aos palestinos.

Incansável, Lula, junto com diplomatas brasileiros, passou o fim de semana articulando para a nova reunião do Conselho de Segurança da ONU, que acontecerá na noite desta segunda-feira. Em pauta deve estar o cessar-fogo imediato.

Por prudência, o Brasil não irá propor, neste momento, a criação do estado palestino, como defendem a Rússia, a China e a grande maioria do chamado Sul Global, evitando assim o veto dos Estados Unidos.

Se a resolução for aprovada, Israel ficará obrigado a imediatamente cessar fogo, sob pena de incorrer em crime de guerra.

Vale observar ainda que Israel e Estados Unidos podem estar utilizando o ataque do Hamas para desviar o foco do fracasso do “Ocidente” na Guerra na Ucrânia.

Você observou como a Ucrânia e Zelensky sumiram da mídia?

Esse desaparecimento pode ter relação com a impossibilidade de os Estados Unidos e a OTAN derrotarem a Rússia.

Para não admitirem a derrota, nada melhor do que outro conflito para tirar a Ucrânia do foco. O próprio Zelensky está cobrando dos aliados e da mídia este abandono.

Ao posicionar-se ao lado de Israel e disseminar todo tipo de preconceito contra os palestinos, a mídia também se transforma em arma letal.

Uma arma que está chancelando a eliminação física de 2,1 milhões de pessoas, ao jogar ao lado das potências imperialistas em suas ameaças à segurança e à paz mundial.

Ao esconder os fatos, manipulá-los e distorcê-los, a mídia brasileira, também se torna responsável pelo que está acontecendo e pelo que vier acontecer com o povo palestino.

O genocídio também é midiático.

*Ângela Carrato é jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG. Integra o Conselho Deliberativo da ABI, bem como as Comissões de Ética dos Meios de Comunicação e Relações Internacionais desta instituição.

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Uma breve história dos 75 anos de sofrimento de Gaza

Copiei do indispensável BRASIL 247

Enclave cercado habitado por mais de 2 milhões de palestinos está sob intenso ataque de Israel

12 de outubro de 2023, 21:11 h



 Palestinos (Foto: Reuters )

(Reuters) - Gaza é uma faixa costeira de terra situada em antigas rotas comerciais e marítimas ao longo da costa do Mediterrâneo. Mantida pelo Império Otomano até 1917, passou do domínio militar britânico para o egípcio e para o israelense ao longo do século passado e é agora um enclave cercado habitado por mais de 2 milhões de palestinos.

Aqui estão alguns dos principais marcos de sua história recente.

1948: Fim do domínio britânico

Quando o domínio colonial britânico chegou ao fim na Palestina no final da década de 1940, a violência intensificou-se entre judeus e árabes, culminando na guerra entre o recém-criado Estado de Israel e os seus vizinhos árabes em Maio de 1948.

Dezenas de milhares de palestinianos refugiaram-se em Gaza depois de fugirem ou de serem expulsos das suas casas. O exército invasor egípcio conquistou uma estreita faixa costeira de 40 km de comprimento, que ia do Sinai até o sul de Ashkelon. O afluxo de refugiados fez com que a população de Gaza triplicasse para cerca de 200.000.

Décadas de 1950 e 1960: regime militar egípcio

O Egito manteve a Faixa de Gaza durante duas décadas sob um governador militar, permitindo aos palestinianos trabalhar e estudar no Egipto. “Fedayeen” palestinos armados, muitos deles refugiados, organizaram ataques contra Israel, provocando represálias.

As Nações Unidas criaram uma agência para os refugiados, a UNRWA, que presta actualmente serviços a 1,6 milhões de refugiados palestinianos registados em Gaza, bem como a palestinianos na Jordânia, no Líbano, na Síria e na Cisjordânia.

1967: Guerra e ocupação militar israelense

Israel capturou a Faixa de Gaza na guerra de 1967 no Médio Oriente. Um censo israelense naquele ano estimou a população de Gaza em 394 mil, dos quais pelo menos 60% eram refugiados.

Com a saída dos Egípcios, muitos trabalhadores de Gaza conseguiram empregos nas indústrias agrícola, de construção e de serviços dentro de Israel, aos quais podiam ter acesso fácil naquela altura. As tropas israelenses permaneceram para administrar o território e proteger os assentamentos que Israel construiu nas décadas seguintes. Estas tornaram-se uma fonte de crescente ressentimento palestino.

1987: Primeira revolta palestina. Hamas formado

Vinte anos após a guerra de 1967, os palestinos lançaram a sua primeira intifada, ou revolta. Tudo começou em Dezembro de 1987, após um acidente de trânsito em que um camião israelita colidiu com um veículo que transportava trabalhadores palestinianos no campo de refugiados de Jabalya, em Gaza, matando quatro pessoas. Seguiram-se protestos com lançamento de pedras, greves e paralisações.

Aproveitando o clima de raiva, a Irmandade Muçulmana, sediada no Egipto, criou um ramo armado palestiniano, o Hamas, com base de poder em Gaza. O Hamas, dedicado à destruição de Israel e à restauração do domínio islâmico no que considerava como a Palestina ocupada, tornou-se um rival do partido secular Fatah de Yasser Arafat, que liderava a Organização para a Libertação da Palestina.

1993: Os Acordos de Oslo e a semiautonomia palestina

Israel e os palestinos assinaram um acordo de paz histórico em 1993 que levou à criação da Autoridade Palestina. Ao abrigo do acordo provisório, os palestinianos receberam inicialmente controlo limitado em Gaza e em Jericó, na Cisjordânia. Arafat regressou a Gaza depois de décadas no exílio.

O processo de Oslo deu à recém-criada Autoridade Palestiniana alguma autonomia e previu a criação de um Estado após cinco anos. Mas isso nunca aconteceu. Israel acusou os palestinos de renegarem os acordos de segurança, e os palestinos ficaram irritados com a contínua construção de assentamentos israelenses.

O Hamas e a Jihad Islâmica realizaram bombardeamentos para tentar inviabilizar o processo de paz, levando Israel a impor mais restrições à circulação de palestinianos para fora de Gaza. O Hamas também se apercebeu das crescentes críticas palestinianas à corrupção, ao nepotismo e à má gestão económica por parte do círculo íntimo de Arafat.

2000: Segunda Intifada Palestina

Em 2000, as relações israelo-palestinianas atingiram um novo nível com a eclosão da segunda intifada palestiniana. Inaugurou um período de atentados suicidas e ataques a tiros por parte de palestinos, e ataques aéreos israelenses, demolições, zonas proibidas e toques de recolher.

Uma vítima foi o Aeroporto Internacional de Gaza, um símbolo das esperanças palestinianas frustradas de independência económica e a única ligação directa dos palestinianos ao mundo exterior que não era controlada por Israel ou pelo Egipto. Inaugurado em 1998, Israel considerou-o uma ameaça à segurança e destruiu a antena do radar e a pista alguns meses após os ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos.

Outra vítima foi a indústria pesqueira de Gaza, uma fonte de rendimento para dezenas de milhares de pessoas. A zona de pesca de Gaza foi reduzida por Israel, uma restrição que disse ser necessária para impedir o contrabando de armas.

2005: Israel evacua os seus assentamentos em Gaza

Em Agosto de 2005, Israel evacuou todas as suas tropas e colonos de Gaza, que estava então completamente isolada do mundo exterior por Israel.

Os palestinos demoliram os edifícios abandonados e a infraestrutura para sucata. A remoção dos colonatos levou a uma maior liberdade de circulação dentro de Gaza, e uma “economia de túnel” cresceu à medida que grupos armados, contrabandistas e empresários rapidamente cavaram dezenas de túneis no Egipto.

Mas a retirada também removeu fábricas, estufas e oficinas dos colonatos que empregavam alguns habitantes de Gaza.

2006: Isolamento sob o Hamas

Em 2006, o Hamas obteve uma vitória surpreendente nas eleições parlamentares palestinianas e depois assumiu o controlo total de Gaza, derrubando forças leais ao sucessor de Arafat, o Presidente Mahmoud Abbas.

Grande parte da comunidade internacional cortou a ajuda aos palestinianos nas áreas controladas pelo Hamas porque consideravam o Hamas uma organização terrorista.

Israel impediu a entrada de dezenas de milhares de trabalhadores palestinos no país, cortando uma importante fonte de rendimento. Os ataques aéreos israelitas paralisaram a única central eléctrica de Gaza, causando apagões generalizados. Citando preocupações de segurança, Israel e Egipto também impuseram restrições mais rigorosas à circulação de pessoas e mercadorias através das passagens de Gaza.

Os ambiciosos planos do Hamas para reorientar a economia de Gaza para o leste, longe de Israel, fracassaram antes mesmo de começarem.

Vendo o Hamas como uma ameaça, o líder egípcio Abdel Fattah al-Sisi, apoiado pelos militares, que assumiu o poder em 2014, fechou a fronteira com Gaza e explodiu a maior parte dos túneis. Mais uma vez isolada, a economia de Gaza inverteu-se.

Ciclo de conflito

A economia de Gaza tem sofrido repetidamente no ciclo de conflito, ataque e retaliação entre Israel e grupos militantes palestinianos.

Antes de 2023, alguns dos piores combates ocorreram em 2014, quando o Hamas e outros grupos lançaram foguetes contra cidades centrais de Israel. Israel realizou ataques aéreos e bombardeios de artilharia que devastaram bairros de Gaza. Mais de 2.100 palestinos foram mortos, a maioria civis. Israel estimou o número de mortos em 67 soldados e seis civis.

2023: Ataque surpresa

Enquanto Israel era levado a acreditar que estava a conter um Hamas cansado da guerra, ao fornecer incentivos económicos aos trabalhadores de Gaza, os combatentes do grupo eram treinados e treinados em segredo.

Em 7 de Outubro, homens armados do Hamas lançaram um ataque surpresa contra Israel, devastando cidades, matando centenas de pessoas e levando dezenas de reféns de volta para Gaza. Israel vingou-se , atacando Gaza com ataques aéreos e arrasando distritos inteiros, num dos piores derramamentos de sangue nos 75 anos de conflito.

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Tariq Ali: Levante na Palestina

Copiei do indispensável BRASIL 247

Os palestinos têm o direito de resistir à agressão ininterrupta a que estão sujeitos. Não há equivalência moral, política ou militar nos dois lados

9 de outubro de 2023, 15:39 h

(Publicado no site A Terra é Redonda)

Em dezembro de 1987, uma nova intifada irrompeu na Palestina, abalando Israel e as elites do mundo árabe. Algumas semanas depois, o grande poeta sírio Nizar Qabbani escreveu “A trilogia das crianças das pedras”, em que denunciava a geração mais velha de líderes palestinos – hoje representada pela corrupta e colaboracionista (Não-) Autoridade Palestina. Ela foi cantada e recitada em muitos cafés palestinos:


As crianças das pedras

disseminaram nossos papéis

verteram tinta em nossas roupas

zombaram da banalidade de textos antigos…

Ó crianças de Gaza

Não se importem com nossas transmissões

Não nos ouçam

Somos povo de frio cálculo

De adição, de subtração

Travem suas guerras e nos deixem em paz

Estamos mortos e sem túmulos

Órfãos sem olhos.

Crianças de Gaza

Não se refiram a nossos escritos

Não sejam como nós.

Somos seus ídolos

Não nos adorem.

Ó povo louco de Gaza,

Mil saudações aos loucos

A era da razão política já se foi há muito tempo

Então nos ensine a loucura…


Desde então, o povo palestino tem tentado todos os métodos para conseguir alguma forma de autodeterminação significativa. “Renunciem à violência”, disseram-lhes. E foi o que fizeram, com exceção da retaliação singular após uma atrocidade israelense. Entre os palestinos do país e da diáspora, houve apoio em massa ao Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS): um movimento pacífico por excelência, que começou a ganhar força em todo o mundo entre artistas, acadêmicos, sindicatos e, eventualmente, governos.

Os EUA e sua família da OTAN reagiram tentando criminalizar o BDS na Europa e na América do Norte, alegando, com a ajuda de grupos de lobby sionistas, que boicotar Israel era “antissemita”. Isso se mostrou bastante eficaz. Na Grã-Bretanha, o Partido Trabalhista de Keir Starmer proibiu qualquer menção ao “apartheid israelense” em sua próxima conferência nacional. A esquerda trabalhista, com medo de ser banida, ficou em silêncio sobre essa questão. Uma situação lamentável.

Enquanto isso, a maioria dos Estados árabes se juntou à Turquia e ao Egito para capitular diante de Washington. A Arábia Saudita está atualmente em negociações, mediadas pela Casa Branca, para reconhecer oficialmente Israel. O isolamento internacional do povo palestino parece destinado a aumentar. A resistência pacífica não levou a lugar algum.

Durante todo esse tempo, as Forças de Defesa de Israel atacaram e mataram palestinos à vontade, enquanto sucessivos governos israelenses trabalharam para sabotar qualquer esperança de criação de um Estado. Recentemente, alguns generais da reserva das Forças de Defesa de Israel e agentes do Mossad admitiram que o que está sendo feito na Palestina equivale a “crimes de guerra”. Mas eles só tiveram coragem de dizer isso depois de já terem se aposentado.

Enquanto ainda serviam, eles apoiaram totalmente os colonos fascistas nos territórios ocupados, permanecendo parados enquanto queimavam casas, destruíam plantações de oliveiras, despejavam cimento em poços, atacavam palestinos e os expulsavam de suas casas enquanto cantavam “Morte aos árabes”. O mesmo aconteceu com os líderes ocidentais, que permitiram que tudo isso acontecesse sem qualquer murmúrio. A era da razão política já se foi há muito tempo, como diria Nizar Qabbani.

Então, um dia, a liderança eleita em Gaza começa a revidar. Eles saem de sua prisão a céu aberto e atravessam a fronteira sul de Israel, atacando alvos militares e populações de colonos. De repente, os palestinos estão no topo das manchetes internacionais. Os jornalistas ocidentais estão chocados e horrorizados com o fato de eles estarem realmente resistindo. Mas por que não deveriam? Eles sabem melhor do que ninguém que o governo de extrema-direita de Israel retaliará violentamente, apoiado pelos EUA e pela União Europeia de boca fechada.

Mas, mesmo assim, não estão dispostos a ficar sentados enquanto Benyamin Netanyahu e os criminosos de seu gabinete expulsam ou matam gradualmente a maioria de seu povo. Eles sabem que os elementos fascistas do Estado israelense não hesitariam em sancionar o assassinato em massa de árabes. E eles sabem que é preciso resistir a isso por todos os meios necessários. No início deste ano, os palestinos assistiram às manifestações em Tel Aviv e entenderam que aqueles que marchavam para “defender os direitos civis” não se importavam com os direitos de seus vizinhos ocupados. Eles decidiram resolver o problema com suas próprias mãos.

Os palestinos têm o direito de resistir à agressão ininterrupta a que estão sujeitos? Com certeza. Não há equivalência moral, política ou militar no que diz respeito aos dois lados. Israel é um estado nuclear, armado até os dentes pelos EUA. Sua existência não está ameaçada. São os palestinos, suas terras, suas vidas, que estão. A civilização ocidental parece estar disposta a ficar parada enquanto eles são exterminados. Eles, por outro lado, estão se levantando contra os colonizadores.

*Tariq Ali é jornalista, historiador e escritor. Autor, entre outros livros, de Confronto de fundamentalismos (Record). [https://amzn.to/3Q8qwYg

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Palestina: Apartheid sionista e o colonialismo de Israel são as causas da conflito

Copiei do indispensával BRASIL 247


A ação militar do Hamas é uma resposta aos assassinatos, desmandos e humilhações de homens, mulheres e crianças nos territórios ocupados por Israel

Neste fim de semana Israel foi sacudido por uma ofensiva militar do Hamas, surpreendente e inédita, que lançou mais de 2000 mísseis, impactando fortemente na população israelense que habita nas margens próximas aos territórios palestinos.

A operação batizada de "Tempestade Al-Aqsa" conduzida pelo Hamas demonstrou ampla capacidade de combate, levando o conflito para diversas cidades e aldeias ocupadas por colonos israelenses. Trata-se de um ataque que revelou as fragilidades do Exército e dos serviços de inteligência de Israel.

A reação de israelense foi declarar “estado de guerra”, com um ataque bombardeando o densamente povoado território da Faixa de Gaza, região sob controle do Hamas.

A ação militar do Hamas é uma resposta aos assassinatos, desmandos e humilhações de homens, mulheres e crianças nos territórios ocupados por Israel, com as incursões constantes do Exército israelense.

A questão de fundo da atual escalada do conflito, é o desrespeito aos acordos estabelecidos sobre a criação de um estado nacional palestino soberano, com fronteiras definidas e viabilidade econômica. Vale lembrar que os Acordos de Oslo – que completaram 30 anos de sua assinatura no mês de setembro – não só foram violados, como Israel intensificou o processo de ocupação de territórios na Cisjordânia.

Até mesmo a fórmula política do estabelecimento de “dois Estados” – israelense e palestino – hoje é praticamente inviável. Nos últimos anos, os sucessivos governos israelenses abandonaram qualquer perspectiva de negociação com os palestinos sobre temas como o fim da criação de novos assentamentos, o respeito aos acordos acerca da questão das fronteiras de 1967 e da reivindicação histórica da capital do futuro Estado Palestino ser sediada em Jerusalém Oriental.

As milhares de vítimas – mortas, feridas e mutiladas – são o resultado direto da política terrorista do governo de Bibi Netanyahu, apoiado política e militarmente pelo imperialismo norte-americano. É o terrorismo do estado sionista, o principal responsável pela escalada do conflito. Os palestinos são as vítimas e reagem com as armas do oprimido.

É uma questão de princípio reconhecer o direito de rebelião ao povo palestino. Em artigo publicado, neste sábado(7), na New Left Review, o escritor e ativista político Tariq Ali escreveu: “Israel é um Estado nuclear, armado até aos dentes pelos EUA. A sua existência não está ameaçada. São os palestinos, as suas terras, as suas vidas que são. A civilização ocidental parece disposta a ficar de braços cruzados enquanto são exterminados. Eles, por outro lado, levantam-se contra os colonizadores”.

A ação militar do Hamas recolocou na agenda mundial a “Questão Palestina”, o que demanda dos organismos internacionais e das articulações multilaterais dos países árabes uma solução política para deter a escalada de genocídio praticado pelos sionistas e medidas imediatas no sentido de garantir a existência do estado nacional palestino.

Israel conta novamente com os Estados Unidos e as decadentes potências europeias para continuar a criminosa ofensiva contra os direitos nacionais do povo palestino. O conflito é mais um embate em curso que desgasta a política dos Estados Unidos na região, e isola mais ainda o Estado de Israel.

Portanto, cabe também a esquerda partidária e social no Brasil a urgente tarefa de organizar um efetivo e potente movimento de solidariedade aos palestinos — contra a guerra de extermínio e o apartheid sionista.

Jornalista e escritor. Atua também na imprensa sindical. Militante do Partido dos Trabalhadores (PT), em Curitiba. Autor dos livros ‘Brasil Sem Máscara – o governo Bolsonaro e a destruição do país’ (Kotter, 2022) e de ‘Lava Jato, uma conspiração contra o Brasil’ (Kotter, 2021).


quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

As pipas de Gaza

Eu visito o Blog do Bourdoukan todos os dias


E o céu se coloriu de sonhos de liberdade
Acordem! deuses de seu sono letárgico
O que temem?
A alegria das crianças de Gaza?
Ah, essas crianças palestinas
Que sonham com as pipas
O sonho da liberdade

Por que hibernam ó deuses?
Por que tanto temor?
Medo da alegria?
Da liberdade?
São apenas pipas
Mensageiras das crianças…

Que transportam o sonho da liberdade
Para alem do campo de concentração
Imposto por um Jeová arrogante e cruel
Habituado a sacrifícios
que não suporta a liberdade
Que não suporta a alegria

Ah, essas crianças palestinas…