SOBRE O BLOGUEIRO

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Antonina, Litoral do Paraná, Palestine
Petroleiro aposentado e petista no exílio, usuário dos óculos de pangloss, da gloriosa pomada belladona, da emulsão scott e das pílulas do doutor ross, considero o suflê de chuchu apenas vã tentativa de assar o ar e, erguido em retumbante sucesso físico, descobri que uma batata distraída não passa de um tubérculo desatento. Entre sinos bimbalhantes, pássaros pipilantes, vereadores esotéricos, profetas do passado e áulicos feitos na china, persigo o consenso alegórico e meus dias escorrem em relativo sossego. Comendo minhas goiabinhas regulamentares, busco a tranqüilidade siamesa e quero ser presidente por um dia para assim entender as aflições das camadas menos favorecidas pelas propinas democráticas.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Carta Aberta ao Sr. Ary Fontoura e aos mais de 40 milhões de reacionários que manifestaram seu ódio durante todo esse tempo


O Serviço de Alto Falantes Ornitorrinco, desapetrechado de altos saberes, pede licença aos ocupantes dos andares superiores das teorias para mostrar esta manifestação que muita gente tratará de desqualificar: para que servem os saberes instintivos do povo?
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Copiei de Diário do Brasil
Ary01012015


(por Danny Oliveira – reprodução autorizada)

Creio que os senhores não saberão quem sou, mas isso não vem ao caso. Sou uma jovem de 26 anos de idade,filha de um retirante nordestino que deixou sua terra, no árido sertão da Bahia, em busca de um ideal na capital paulista. Isso foi no ano de 1982, ele foi ficando, casou-se, teve três filhos e agora tem um neto. Destes três filhos, tive o orgulho de ser a filha do meio, e a única menina.

Vivi as épocas mais negras que podemos imaginar na política. Nasci no ano da nova Constituição, 1988, e vivi a época do impeachment de Fernando Collor, os desmandos de corrupção e a bandalheira feita com o nosso dinheiro na era Fernando Henrique. Somente vi uma luz para muitos dos jovens da minha idade com a chegada de um nordestino que fez muito por nós. Um metalúrgico que nos colocou no centro do mundo, que ajudou a cada um de nós: Luiz Inácio Lula da Silva.

Senhores, até o ano de 2002 muitos dos nossos jovens não tinham acesso à faculdade, não podiam fazer um curso de intercâmbio fora do País. Sequer podiam andar de avião, era muito caro e só podiam andar em aeroportos os grã-finos. Filho de faxineira em universidade? Só se trabalhasse na faxina ou na cantina. Sequer podíamos andar em shopping centers. Hoje, graças ao Prouni e ao ENEM, muitos jovens tem acesso ao Ensino Superior tão sonhado, podem enfim desenvolver uma carreira como tanto sonham. Muitos amigos meus puderam fazer intercâmbio e aprender novos idiomas e conhecer novas culturas. Posso até entrar em um shopping center na hora em que eu quiser. E isso só começou a ser proporcionado para nós com a chegada de Lula.

Minha primeira eleição como eleitora foi exatamente em 2006, e como meus familiares, depositei meu voto e minha confiança em Lula. E ele honrou meu voto e minha confiança. Não me arrependi.

Em 2010 entrei para a militância petista. Sei tudo o que passei militando em prol dos meus direitos e dos meus companheiros e amigos: quase fui presa, sofri tentativa de assassinato durante uma conversa com feirantes. Sei o que passei, e honrei meu voto. Vi a presidente Dilma, uma mulher que luta pelos direitos do povo, ser eleita democraticamente, e merecidamente. Mais uma vez tive meu voto e minha confiança honrados como deveriam. Uma mulher que lutou para tirar nosso País das mãos de generais que matavam, torturavam, estupravam e até se vangloriavam das maldades que cometiam, orgulhavam-se de suas “subversividades” e nos julgavam subversivos! E hoje, com a democracia instalada outra vez no nosso País, vejo vocês pedindo a volta dessa desumanidade, e isso me entristece muito.

Dilma honrou meu voto e fez muito por nós: construiu universidades, criou o PRONATEC, abriu novos horizontes aos jovens e fez o mesmo que o presidente Lula fez. Abriu seus braços aos mais necessitados e ao povo do Nordeste que carrego no meu sangue com muito orgulho, e fez muito por cada nordestino e nordestina que queria apenas que alguém os olhasse com os olhos da alma. E agora vem os senhores, membros da elite golpista e da imprensa manipuladora e sem o mínimo de imparcialidade, enxovalhar o nome de quem começou a trabalhar do lado certo da pirâmide (o lado de baixo) e tentar nos imputar um playboy com um passado negro, que vive à sombra da memória de seu avô e que não tem um mínimo de respeito pelas mulheres, manteve o povo de seu Estado (Minas Gerais) sob o jugo de uma ditadura elitista, deixando seus conterrâneos em uma situação complicada, construindo aeroportos particulares. Como os senhores querem nos impingir um ladrão e condenar quem tanto fez por nós? Estão fazendo o mesmo que foi feito anteriormente: condenando Jesus à morte e soltando Barrabás.

Hoje, orgulhosamente, vejo a mulher em quem orgulhosamente depositei meu voto de confiança assumir por mais 4 anos seu cargo de merecimento: o de comandante da nossa Pátria Amada. A mulher que tanto fez por mim continuará fazendo muito mais, e agora fará mais ainda: lutará pelas mulheres, pelas crianças, negros, indígenas, comunidade LGBT. Lutará por aqueles que não tem voz ativa, e será a nossa voz. E enquanto isso, vocês perdem tempo querendo atacá-la.

A vocês, que exigem que ela renunciem, um pedido: RENUNCIEM AO BRASIL. Não vomitem mais seu ódio contra quem trabalha, e procurem apoiá-la para que faça seu mandato ser o melhor, não percam tempo falando aos quatro ventos e depois voltando atrás.

Ao sr. Ary Fontoura, um grande ator por quem eu tinha grande admiração e respeito, manifesto minha vergonha. O senhor, por muitos anos, lutou contra a ditadura ao lado do saudoso e magnânimo Mário Lago, e lutou muito para que se instalasse a democracia em nosso País. E hoje fica ao lado de uma emissora que alimentou a subversividade e a intolerância dos ditadores, e pede que este período volte. Ora,sr. Ary, peço gentilmente ao senhor que respeite nossa Pátria e não diga que fala por todos os brasileiros. Pois, por mim e por muitos outros, o senhor jamais vai falar. O único que fala por nós é Deus, e o senhor não poderá falar por Ele.

Aos membros do Partido da Imprensa Golpista, não adianta propagarem seus ódios, preconceitos e mentiras. O povo brasileiro já tem sua consciência definida, e todos sabem a verdade: o povo escolheu Dilma Rousseff por sua história impoluta, e usar de falsos artifícios para distorcer sua história já não convence mais. Parem enquanto é tempo.

E, por favor, deixem-na governar e sejam menos intolerantes.

Assinado: Uma das mais de 54 milhões de pessoas que elegeram Dilma Rousseff sua representante máxima.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Por um lugar além da faixa

mísseis israelenses no Campo de Refugiados de Burij, na Faixa de Gaza ...
(imagem copiada daqui)

(Conto classificado em 4º lugar no 
XIV Concurso de Contos da Fundação Petros - 2014)

Sonia Fernandes

Alzira avistou a mansão dos Mariones enquanto evitava rasgar suas botas nas carcaças de veículos do século vinte que ainda se encontravam nas ruas, abandonados à sua própria sorte, impedindo a passagem dos alterados e de quem mais se aventurasse. A casa continuava intacta entre os escombros da cidade, a torre do terraço com as luzes acesas. Tentou não encarar o grupo de pessoas que assava alguma coisa num canto do jardim dos Mariones. O cheiro de carne queimada impregnava o ar. Deu a volta e tomou outro rumo, pelo lado oposto, cobrindo os cabelos e parte do rosto com o pano negro das mulheres que Geíza lhe havia prometido dar, agora seu para sempre, junto com os equipamentos da missão e os doze mantos de lã. Afora a torre, só a lua iluminava a rua e o jardim da casa. O toque de recolher já havia soado há uma hora e ela sabia que se fosse pega estaria perdida. 
Encontrou a porta dos fundos aberta, como Geíza lhe disse que estaria. Com cautela, para não fazer nenhum barulho que despertasse os alterados, achou o mapa na valise e o abriu sobre a mesa. A cozinha estava deserta. Era ampla e confortável, a luz da lua vazava de uma claraboia alta. Os quartos onde eles mantinham os meninos ficava no primeiro andar. Acendeu a lanterninha de neon que trazia presa a um colar comprido e que guardava bem junto ao corpo, relíquia herdada de sua mãe e que lhe havia salvo de muitos perigos nas noites sem lua. Viu que as escadas ficavam no final do corredor depois da cozinha. Tinha algum tempo. A noite avançava devagar e só iria terminar em um dia gregoriano, mas a luz fluorescente da faixa do mar começaria em algumas horas.
Começou a montar o artefato. Havia coberto todas as peças com uma tinta de plástico, para que não fossem detectadas pelos transmissores da Família. O plano de montagem era complicado e exigia tempo. Estava com fome, mas resolveu adiar as pílulas para quando a bomba estivesse pronta. Os Mariones mantinham seguranças americanos em vários postos da mansão e um deles ficava logo depois da porta da cozinha. Tinha que pensar em se livrar de todos eles, os robôs mantinham uma linha fina entre si, se um desligasse todos viriam ao mesmo tempo. Seu coração começou a bater muito forte e ela limpou o suor da testa com o manto. Pensou nas crianças presas no quarto e foi acalmando as batidas, concentrada nas mãos que montavam as peças, uma a uma, devagar e com cuidado para evitar qualquer som.
Ninguém ia à cozinha naquela hora. Era uma informação passada por Geíza, que conhecia todos os habitantes da casa e havia vivido ali os últimos cinco anos gregorianos, cozinhando para eles e anotando o que precisava para quando chegasse a hora. “Nada vai lhe impedir, Alzira” – ela lhe havia dito. Tinha que dar conta, ela sabia, e agitou de novo a lanterna, que emitiu uma luz mais forte sobre o plano de montagem. 
Estava pronta. Cinco pequenas esferas unidas por uma corrente magnética. A faixa do mar fluorescente iria começar a emitir luz em duas horas. Agora precisava apressar-se, pois o êxito dependia do tempo planejado pelas mulheres. Abriu a porta, devagar, e os robôs dos Mariones começaram a se mover. O celular da porta apontava, como um antigo jogo de pec, os pequenos pontos redondos se locomovendo em sua direção. Deixou que eles se enfileirassem e apertou o gatilho do celular, para receber o código que destravaria a fechadura. Sabia de cor, Geíza lhe havia feito memorizar os números e letras que seriam usadas na última semana. Os robôs pararam onde estavam, no corredor que levava às escadas, e a luz de seus corpos diminuiu até se apagar completamente, um tempo que durou alguns segundos e que, para ela, pareceram uma eternidade. 
Como estariam elas agora? Os Mariones as haviam caçado no esconderijo sob a terra, em uma parte do túnel imenso que seus ancestrais construíram antes da guerra final, a fim de guardar as armas e os mantimentos para os sobreviventes, as últimas mulheres adultas e o que havia restado das crianças. Agora já nada disso lhe importava. Pensava só nelas, presas no quarto do primeiro andar, onde aguardavam o término das negociações entre os Mariones e os eleitos.
Subiu devagar as escadas, evitando ruídos que poderiam acordar os alterados, que serviam de seguranças humanos e dormiam nos outros quartos. O mapa de Geíza mostrava uma porta à sua direita como o local onde mantinham os meninos sobreviventes. Viu seus rostos apavorados quando abriu a porta do quarto. Uma luz fraca vinda da torre invadia a janela de grades e iluminava todo o lugar e eles estavam amontados num canto, sem roupas, os corpos judiados. Fez um sinal para que não falassem nada. Eles a conheciam, haviam passado por muitas coisas juntos, no túnel. Obedeciam. Arrumou-os em fila e apontou a porta aberta, as escadas, o corredor. Todo o plano dependia de não despertar os alterados. Pensou que eles não sobreviveriam ao ar gelado da noite sem os mantos que trazia, envoltos um a um em seu corpo desnutrido. Foi retirando todos e envolvendo os meninos, até que só restasse o seu próprio manto, o pano da última burca que retirou do corpo de Geíza, depois que ela havia morrido. Sabia que agora podia tomar as pílulas da fome, mas deu-as aos meninos. Assemi era o mais velho deles. Entregou-lhe o mapa de destino e a lanterna presa ao colar. Uma barca esperava nas cais do porto e eles deviam alcançá-la antes do mar começar a luzir. Os homens do sul os levariam embora, para junto das meninas que os aguardavam já em segurança, na terra prometida pelo profeta.
Quando a última sombra atravessou a porta da cozinha e se perdeu entre os escombros e as carcaças dos veículos, entrou de novo na mansão e se dirigiu aos quartos dos Mariones, as esferas presas entre seus dedos, o olhar vazio de emoções.

Viajantes

O Serviço de Alto Falantes Ornitorrinco inaugura 2015 em grande estilo, com esse conto de Sonia Fernandes do Nascimento, escritora genial e várias vezes premiada que, por pura generosidade, vive comigo desde o século passado. Ei-la, em 2010, no seu aniversário de 23 anos.


Copiei de Meus Contos, Teus Poemas

Numa daquelas noites em que a gente não consegue dormir e que um desassossego invade o coração, causando o impulso de levantar, abrir a janela e contemplar a noite escura, ou descer pelas escadas, abrir a porta da rua e sair andando até encontrar uma taverna aberta, com barulho suficiente para atordoar a alma, ouvi, entre uma caneca e outra de cerveja, a história de um homem que me causou profunda estranheza, em parte pela sua aparência de morto, em parte pelo inusitado do tema. Essa é a história que passo a narrar, e que fica a seu critério levá-la em conta, quando for viajar para qualquer lugar que não conheça e que não seja você a pessoa que escolheu o destino da viagem.
“Eu me chamo Pietro Bonarve – disse ele - e nasci na Baviera, numa aldeia de nome Markbreit. Trabalhava como meeiro de um senhor, dono de muitas vinhas na aldeia, um homem mesquinho e que não tinha piedade quando as colheitas eram magras. Nunca fui casado, pois a solidão das terras de vinha e o serviço pesado da plantação e colheita não atraiam as mulheres da aldeia. Um dia bateu à porta da minha casa uma mulher estranha, em trajes inusitados, que me pedia água e pouso. Era uma criatura bela, de voz pausada. Vestia calças justas como os nobres varões da capital, Munique. Deixei que ela entrasse, que comesse da minha comida e, por fim, instalei-a em minha cama e fui dormir no celeiro. Quando o dia amanheceu, encontrei a casa limpa e o fogo aceso. Ela havia feito uns pães com a farinha e os ovos que minha mãe me mandara no começo do mês. Fiquei muito feliz de comer os pães e vinho antes de sair para trabalhar, mas não vi a mulher em canto algum da casa. Na volta do trabalho fiquei convencido de que ela se fora.
No dia seguinte, aconteceu a mesma coisa, só que dessa vez uma outra visitante, com trajes coloridos e cabelos soltos, sorridente e encantadora, me pediu que a abrigasse aquela noite, pois seguia uma viagem “no tempo”.  Embora não tenha entendido o seu destino, deixei que ela ficasse no mesmo local da anterior e fui dormir de novo na palha do celeiro. Pela manhã, a mesa estava posta com leite quente e comidas estranhas, que eu nunca tinha visto, uns bocados crocantes que se esfarelavam ao toque, com um sabor intenso de toicinho do fumeiro. Mas da moça não havia sinal na casa e nem na aldeia, para onde fui em busca das duas desconhecidas.
Não soube mais nada e a história ainda me intrigava. Na aldeia fui alvo de risadas e todos acreditavam que andei tomando o vinho mais do que devia e vi coisas que não existiam. Houve até quem mencionasse que eu estava sob o poder de alguma bruxa ou do próprio demônio.
Um mês depois, recebi a visita de um cavalheiro vestido de preto, com sobrepeliz de lã que lhe ia até a metade do corpo. Usava estranhas argolas na altura dos olhos, cobertas de vidro, e trazia uma bagagem de couro, que abriu para me mostrar o conteúdo. Havia nela apetrechos feitos de metal e vidro de várias formas, que emitiam luzes azuladas, além de uma muda de roupa leve e livros de um material que ainda não vi serem feitos por aqui. Pediu-me pouso em uma linguagem enrolada, com alguns termos germânicos que ele procurava em um dos seus livros. Eu consenti, mas fiquei temeroso de que estivesse sendo testado pela inquisição. Naquela noite trouxe um pouco da palha para perto do fogo da cozinha e decidi esperar a noite toda acordado, para ver o que acontecia na casa. Se estava sendo alvo de bruxas e feitiçaria, precisava avisar o padre da aldeia. Abri a porta do quarto e vi que meu hóspede dormia a sono solto, com a boca aberta e roncando, enquanto aqueles apetrechos sobre a mesa emitiam ruídos e luzes. Nem bem o dia amanhecia e ele já estava pronto, os pertences acomodados de novo na bagagem de couro. Foi à cozinha e com água quente preparou um líquido negro na minha caneca de vinho, que exalava um perfume suave de erva, semelhante às poções de chá que minha mãe me preparava quando eu adoecia. Ele me falou, consultando o livro grosso com visível dificuldade, que estava de partida. Perguntei-lhe se conhecia as mulheres que também me visitaram e ele ficou olhando, sem entender o que eu dizia. Por fim, foi para o pátio das galinhas e olhou para cima, com a mão aparando a luz do sol. Eu fiz o mesmo e, para o meu espanto, uma grande carruagem de fogo e metal se aproximou da casa e pousou, como um inferno de barulho e calor. A porta se abriu e uma escada feita de metal branco foi lançada para fora em passes de artes mágicas, por onde subiu o cavalheiro, que me acenou da porta antes de sumir com a carruagem num pé de vento. Fiquei doente por um mês e se não fosse minha querida mãe vir da aldeia para cuidar de mim, teria morrido sozinho. Não contei a ninguém de Markbreit sobre isso. Sai da aldeia depois que me curei e nunca mais voltei ali. Tenho viajado pelo mundo todo atrás de alguém que possa me explicar o mistério dos visitantes. Você saberia me dizer?”
Achei, depois de ouvir o relato do aldeão, que ele estava embriagado pela cerveja escura e forte servida na taverna. Ou que havia enlouquecido de solidão na sua plantação de uvas. Voltei para casa devagar, pensando naquela história louca, quando fui abordado por uma linda mulher em trajes masculinos e de cabelos curtos, que me perguntou o nome da cidade, pois precisava corrigir sua rota. Foi assim que decidi acompanhá-la e vim parar aqui, com vocês, no que dizem ser o século vinte e um, neste lugar cheio de médicos e enfermeiras, que me entopem de comprimidos e que não acreditam em viagens pelo tempo. Quanto à mulher, voltou para o seu tempo, não sem antes prometer me levar para conhecer sua família, nas próximas férias.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Sobre as sementes

Copiei do meu (inspirador) amigo Walter Silva

E se de repente, aos 16 anos, você caísse dentro de um sono de 25 anos?
Dormir, dormir o tempo de uma vida? Não seria algo realmente terrível?
Em 25 anos muita coisa pode ser realizada. Faculdade e trabalho com certeza. Talvez até casamento e filhos.
Impossível de mensurar o que se perdeu durante esses 25 anos de sono perpétuo.
Esses tais 25 anos desperdiçados lhe foram entregues, estes 25 anos representam um quarto da sua vida.
Não existem garantias depois dos 25 anos que lhe foram dados.
Então você acorda, depois de longos 25 anos e percebe que há um trabalho hercúleo para ser feito, um trabalho que somente um herói pode concretizar; a teia que você teceu antes de dormir está inacabada, não lhe serve para coisa alguma.
O que você faria? Iria sentar e chorar? Reclamar da injustiça, de tudo que lhe roubaram? Desistir de vez?
Eu fiz isso. Eu sentei e chorei desconsolado, e reclamei muito da injustiça de ter sido colocado para dormir por 25 anos.
Mas nada disso adiantou, e o tempo continuava a escorrer pelos dedos, estivesse eu a dormir ou a acordar.
Tomei então relutantemente algumas decisões.
Lavrei o solo e plantei as sementes.
Não recebi nenhuma garantia de que eu teria uma colheita, nenhuma certeza disso. Eu só tenho o brilho da esperança e o fogo dos meus sonhos me guiando na cegueira da noite escura.
Eu ouço vozes me dizendo que é tarde demais, continuamente. E me esforço para silenciar essas vozes.
Cada golpe que eu recebo me deixa prostrado; mas eu me levanto de novo, mesmo após desejar não me erguer mais.
Observo pessoas muito jovens reclamando que está tarde para elas, que o tempo voa, que elas se atrasaram.
Não consigo conter um sorriso.
Eu preciso fazer tudo em dobro; correr, lutar, esperar, acreditar.
Isso não é uma queixa. Antes disso, é um hino de amor por mim mesmo. Amor e gratidão.
Me ensinaram a me odiar profundamente, me ofereceram a morte branca, eu dormi por 25 anos, eu estive morto todo este tempo, vivendo no mundo dos espíritos.
Eu me levantei, voltei à vida, e aprendi a gostar de mim, sozinho, sem ajuda de deuses ou mortais comuns.
Não sei se terei mais 25 anos pela frente. Isso é o que menos me importa agora.
O importante é olhar ao meu redor, e de pé, contemplar esse jardim que está brotando da terra neste exato momento. Essas sementes que eu audaciosamente plantei um dia vão se tornar árvores, e essas árvores alcançarão o céu.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A Petrobras, as empreiteiras, as doações de campanha e o cuzão sujo do PSDB

Copiei a imagem daqui

Copiei do Pablo Villaça

"Há algo de podre no reino da Petrobrás", diria Marcellus a Horácio ao ler os relatos da Lava-Jato. E estaria correto. Há algo de podre, de profundamente corrompido na estatal.
Negar isso é tolice.
Mas tolice ainda maior é sugerir, como FHC e Aécio Neves vêm tentando fazer, que isto é obra do PT e do governo Dilma. Pois não, não é: como o jornalista Ricardo Boechat lembrou recentemente, chegou a vencer um prêmio Esso ao denunciar roubos na Petrobrás - em 1989. (1) Já na década de 90, durante a gestão de FHC, o jornalista Paulo Francis foi processado pela diretoria da Petrobrás ao denunciar roubos na estatal - em vez de investigar o que estava havendo, o então presidente limitou-se a tentar apaziaguar os ânimos ao pedir que os diretores desistissem do processo.(2) (A propósito: Francis errou ao denunciar sem provas. Tampouco compartilho da opinião de que sua morte seja responsabilidade moral daqueles que o processaram. Ainda assim, resta a passividade de FHC.) Como se não bastasse, Paulo Roberto Costa, longe de ser "cria" do PT, era funcionário de carreira da Petrobrás desde 1978 - e começou a ocupar cargos de diretoria ainda na gestão de FHC.
(Não, não estou acusando Cardoso de ser cúmplice ou mesmo de estar ciente do que ocorria na Petrobrás; estou apenas pontuando que a trajetória de Costa é antiga.)
Enquanto isso, a outra ponta desta história, que envolve o doleiro Youssef, é ainda pior para os tucanos: além de ter envolvimento antigo com lavagem de dinheiro através do ESTATAL Banestado durante o governo FHC (segundo a Foxlha, "o maior escândalo já investigado no Brasil sobre remessas ilegais")(3), Costa foi beneficiado pela delação premiada pelo mesmo juiz Moro que agora conduz a Lava-Jato e viu vazamentos específicos de depoimentos de Costa ocorrerem durante as eleições sem fazer nada para impedi-los - o que se torna ainda pior quando sabemos que ele tem ligações com um deputado do PSDB.(4)
Não é à toa que o procurador-geral da República afirmou, em entrevista recente, que a investigação foi usada para manipular as eleições, já que - outra incrível coincidência - o advogado de Youssef foi nomeado para o conselho administrativo da Sanepar sob indicação de Beto Richa, governador do (adivinhem!) PSDB.(5)
Por outro lado, há boas notícias: graças a uma lei sancionada por Dilma no início do ano (6), desta vez não apenas a roubalheira está sendo investigada (e vale lembrar que foi na gestão dela que Paulo Roberto Costa finalmente foi demitido (7)) como os CORRUPTORES finalmente estão sendo presos.
Aliás, é fundamental notar que não é um acaso o fato de as quatro principais empreiteiras do país - e cujos diretores encontram-se presos - terem doado fortunas a praticamente todos os partidos, comprovando a urgência da Reforma Política e da implementação do financiamento público das campanhas. Tampouco é surpresa que o partido que mais recebe doações destas "quatro irmãs" seja o PSDB.(8)
É curioso notar, por exemplo, que das 9 empreiteiras envolvidas na Lava-Jato, SEIS financiaram a campanha de Aécio (9) - e é igualmente fundamental observar que CINCO delas dividiram as obras da Cidade Administrativa, obra absurda e desnecessária que Aécio empurrou sobre os mineiros, num custo superior a 2 BILHÕES de reais, em vez de investir em obras de infra-estrutura que realmente beneficiariam o estado. Aliás, estranhamente dois prédios IDÊNTICOS acabaram sendo construídos por dois consórcios DIFERENTES, o que é inexplicável.(10)
Enquanto isso, FHC, que se diz "envergonhado" diante das notícias sobre a Petrobrás (embora não tenha investigado as denúncias feitas em sua época, já que tudo era engavetado), não se mostra embaraçado diante do fato de uma das empreiteiras da Lava-Jato ter feito um aeroporto "de presente" em sua fazenda.(11)
O que está acontecendo agora é, ao mesmo tempo, fantástico e vergonhoso. Fantástico por FINALMENTE trazer à baila uma corrupção sistêmica antiga que consumia a Petrobrás (cujo valor é tão importante para os brasileiros que, apesar de tudo, ainda se tornou uma das maiores e mais lucrativas empresas do mundo nos últimos 12 anos) e investigar corruptores; vergonhoso por estar sendo usada politicamente por uma oposição que simplesmente não tem condições morais e históricas de posar de virtuosa - como já demonstrei acima. Ao contrário: esta oposição deveria se sentir constrangida por jamais ter feito nada para coibir os roubos que agora estão sendo expostos.
Em vez disso, prefere se esforçar para impedir que a presidenta recém-eleita governe, prejudicando, com isso, todo o país em função de seu rancor por terem perdido as eleições - e é trágico ver Aloysio Nunes, um SENADOR e ex-candidato a VICE-PRESIDENTE, ir a um ato público no qual pedidos de golpe militar são disparados.
Porque, ao contrário do que os reacionários gostam de dizer para justificar seu golpismo, o PT JAMAIS pediu o impeachment de FHC (12), pois sabia que deveria respeitar a voz do povo, por mais que desta discordasse.
Democracia não é só saber governar; é também permitir que se governe quando se perde uma eleição. Pelo visto, o PSDB não sabe fazer nem uma coisa nem outra.
Triste.
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FONTES:
1.http://www.revistaforum.com.br/…/ao-comentar-operacao-lava…/
2.http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc050232.htm
3.http://www1.folha.uol.com.br/…/1442940-doleiro-preso-pela-p…
4.http://www.jornali9.com/…/juiz-responsavel-pelo-vazamento-d…
5.http://www.gazetadopovo.com.br/vidapublica/conteudo.phtml…
6.http://terezacruvinel.com/…/lei-sancionada-por-dilma-embas…/
7.http://mudamais.com/…/nao-se-deixe-enganar-dilma-foi-respon…
8.http://apublica.org/2014/06/as-quatro-irmas/
9.http://www.contextolivre.com.br/…/tiro-pela-culatra-das-9-e…
10.http://pocos10.com.br/?p=15774
11.http://wwwterrordonordeste.blogspot.com.br/…/ja-que-o-assun…
12.http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2811199903.htm

sábado, 6 de dezembro de 2014

O Globo Repórter e o bom sujeito

Copiei do Diogo Costa

O bom sujeito assiste o Globo Repórter sobre a Suécia e deita falação sobre o Brasil.
Sabe o sujeito que a Suécia é um dos países menos desiguais do mundo? Sabe que a diferença salarial entre um médico, um professor, um gari ou um engenheiro é mínima?
Sabe que lá os impostos sobre a renda, a herança e sobre o patrimônio são altíssimos? Sabe que lá a carga tributária é de 50 por cento do PIB enquanto aqui é de 35 por cento do PIB?
O sujeito (ou os sujeitos) ama a Suécia, a Noruega, a Finlândia e a Dinamarca, idolatra o modo de vida da Escandinávia mas, quando o papo é sobre o Brasil, aí tudo muda de figura.
Experimentem sugerir aos amantes da Suécia que se implante no Brasil um sistema tributário direto e progressivo sobre a renda, a herança e o patrimônio...
Experimentem sugerir aos amantes dos descendentes dos vikings que se aumente a carga tributária no Brasil para garantir a gratuidade da educação pública, da pré-escola até a graduação, como é na Suécia...
Experimentem dizer que a brutal desigualdade social ainda existente no Brasil deveria ser eliminada e em seu lugar deveríamos perseguir a quase igualdade social da Noruega...
Experimentem dizer para eles que os salários do gari e do doutor deveriam ter diferenças pequenas entre si...
Experimentem, experimentem!
A verdade é que estas pessoas, quando falam sobre o Brasil, são as primeiras a reclamar da 'alta carga tributária', da infernal legislação trabalhista, da pouca vergonha que foi incluir as domésticas na legislação trabalhista porque isto aumenta o 'custo Brasil', etc.
O que dizer do encantamento do sujeito quando viu que lá na Suécia a licença maternidade e paternidade é de 1 ano e 4 meses? O sujeito ficou maravilhado!
Agora, se alguém defender isto aqui na terra das palmeiras, o mesmo sujeito enlouquece dizendo que isto vai quebrar o país!
Defendem eles, na verdade, que o Brasil permaneça eternamente atrasado e desigual. Defendem a civilização desde que essa civilização aconteça lá fora, de preferência na Europa.
Se alguém propõe políticas públicas de aumento do salário mínimo, de combate às desigualdades sociais e regionais ou de aumento na tributação dos ricos, lá vai o nosso bom sujeito vociferar nas avenidas e nas redes sociais contra um tal de ''comuno-bolivarianismo'' que se quer instalar em Pindorama.
É que tudo isso na Suécia é muito chique e elegante, mas no Brasil, ao contrário, é 'comunismo'!
Arrematando, se dependêssemos dos bons sujeitos do Brasil, jamais chegaríamos a ser uma Suécia.

sábado, 29 de novembro de 2014

Santa Anfilóphia da Governabilidade, rogai por nós!

Copiei a imagem daqui
Nem pense nisso!

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Copiei de Maria Fernanda Arruda

Se ninguém percebeu, o fanatismo governista criou um novo critério para o absurdo. Deixou-se de considerar uma coisa absurda por ser "contrária à razão", como nos ensinaria o titio dicionário. Absurdo, agora, é um adjetivo que denota a origem da medida e não a racionalidade dela. Em outras palavras, o que vem do governo jamais será tido como absurdo. Absurdo é o outro, absurda é toda alternativa.

Há um mês, Kátia Abreu e Joaquim Levy seriam nomes absurdos para o ministeriado. Pareceriam oriundos de uma lista que petistas lançaram com falsos nomes de possíveis ministros de um governo Aécio(na verdade, Kátia Abreu é ainda mais estrionicamente ruralista que o Eduardo Sciarra, que estava em tal lista, e Armínio Fraga e Levy se equivalem em muitos e muitos sentidos). Mas, uma observação mais aprumada nos mostra que não são nomes absurdos, afinal, vieram do governo. O governo deveria, aliás, fornecer um carimbo de não-absurdecência, a ser marcado nas testas dos novos ministros, um "selo inmetro de concessão autorizada pelo discurso da governabilidade". Facilitaria os blogs petistas saberem o que dizer sobre o ministeriado.

A opinião deixa de ser um espaço construtivo e torna-se um espaço reativo. "Você é contra ou a favor de X?" "Espera um pouco, deixa eu googlear o que a Dilma pensa sobre o assunto" virou uma conversa plenamente plausível nos dias de hoje. O juízo deixou de ser uma atividade investigativa de nosso íntimo para ser uma busca pela fonte governamental da razão. Pensar passou a ser a busca pela opinião do governo. E graças aos céus, temos o google para nos ajudar a pensar.

Ou, ou, ou, talvez, quem sabe, absurda seja outra coisa. Precisamos comprometer os petistas a declararem, afinal, qual o limite intransponível da direitice. Qual medida, mesmo que tomada pela Dilma, é absurda num governo que se diz de esquerda? Qual o reductio ad absurdum tão absurdo que supere qualquer possibilidade de justificação de origem? Por incrível que pareça, tem gente afirmando que o fim do auxílio desemprego é uma medida de esquerda! Tem que ter um critério, não é possível. Até o mais anti-moralista dos humanos, aquele que nega com todas as forças a bipolaridade "bem vs mal", sabe que atropelar uma criancinha carregando um bebê-foca é algo maligno. Em suma, qual o atropelamento de bebê-focas das medidas de governo?

Não, não se trata de uma luta para transformar a sociedade. É apenas uma disputa para manter-nos capazes de conversar com nossos amigos petistas.

Desabafo!

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Santa Filomena da Governabilidade, não deixai faltar gel lubrificante!

O Serviço de Alto Falantes Ornitorrinco, ao cumprimentar os presentes nesta patética quermesse em louvor de Santa Filomena da Governabilidade, informa ter descoberto que os fabricantes de gel lubrificante doaram muitos milhões para nossos candidatos.
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Copiei da Andrea Caldas

A CULPA É DA ESQUERDA!


Tenho ouvido insistentes argumentos em favor dos recuos na pauta governamental, sufragada nas ultimas eleições, mais uma vez, com o apelo ao eterno mantra da governabilidade, adicionado de um novo elemento: a meritocracia eleitoral.


Segundo esta lógica, a culpa da nomeação da miss do trabalho escravo, Katia Abreu e do discípulo de Arminio Fraga, Joaquim Levy é da esquerda que não "conseguiu" eleger uma bancada expressiva no Congresso.


Curiosamente, esta cobrança é feita depois da campanha eleitoral mais cara da história brasileira, manietada pelos interesses do agronegócio, dos Bancos e empreiteiras.

Sim, parte expressiva da esquerda foi "incompetente" para jogar segundo as regras do jogo, captar milionários patrocinadores, haja visto a diminuição considerável da bancada de esquerda, na área de educação, por exemplo.

A circularidade argumentativa da "realpolitik" só não responde qual o caminho de saída do labirinto que alimentamos, nestes últimos anos.


Pois se a Reforma Política - tida como panaceia - só pode ser realizada com o apoio do congresso conservador, esta não é uma opção.


A segunda porta mágica, a realização de uma constituinte exclusiva e mesmo o Plebiscito, carece de razoabilidade, de vez que é justo imaginar que sem o fim do financiamento privado, teremos uma nova eleição com "mais do mesmo".


Se não temos correlação de forças para enfrentar o Congresso, o STF e a Mídia (também sustentada com verbas públicas), que esperanças podemos legar aos que votaram numa plataforma que prometia o aprofundamento das mudanças?


Alias, diga-se de passagem, esta propaganda foi intensificada pela candidatura de Dilma, no segundo turno, quando já se conhecia o perfil conservador do Congresso.


O que fazemos agora? Publicamos uma errata, no programa eleitoral? Pedimos mais 12 anos de paciência? Rezamos para que a conjuntura política e econômica altere-se, metafisicamente?


E enquanto isto, continuamos a alimentar adversários e aliados de ocasião, até o ponto em que eles nos sufoquem, de vez?


O decréscimo eleitoral das candidaturas presidenciais do PT sinalizam o resultado desta politica da governabilidade sem enfrentamentos e do recuo de parte da esquerda.


E ainda assim há aqueles que desaconselham a crítica, desautorizam os movimentos nas ruas, pelo medo de "provocar a reação da direita" e o "golpismo".


Ora, a direita nunca deixou de agir - mais silenciosa ou ruidosamente - jamais suportou políticas para além do melhorismo e da democracia de vitrine (e as vezes, nem estas).


Mudanças estruturais, neste país, a favor dos trabalhadores/as, nunca foram conquistadas em silêncio e sem muita mobilização social.

Não será diferente, desta vez.

Os que pedem a calmaria, devem saber que estão escancarando as portas para os setores dominantes, hábeis em operar, sinuosamente, nos bastidores.


Que não arrependam-se, portanto, do script que desenham, por omissão ou opção.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O sinistro deputadão federal Ronaldo Fonseca (Pros-DF), que quer proibir a adoção de menores por casais homoafetivos, é um abominável filho da puta em cristo

O Serviço de Alto Falantes Ornitorrinco declara, com a ênfase necessária, que o sinistro deputadão federal Ronaldo Fonseca (Pros-DF), evangélico de merda, é exemplo de pessoa abominável. Um filho da puta em cristo, ao fim e ao cabo.
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Copiei de Toni Reis
 
Toni Reis, David Harrad e os três filhos de 11, 7 e 4 anos

Embora não esteja previsto na legislação, o direito de homossexual à adoção de crianças tem sido garantido pela justiça brasileira. Apesar disso, representantes de setores mais conservadores da sociedade no Congresso, como o deputado federal Ronaldo Fonseca (Pros-DF), querem acabar com o nobre ato. Ele propôs a proibição da adoção de menores para casais homoafetivos, contida no projeto que discute o Estatuto da Família, em tramitação na Câmara dos Deputados.

Fonseca apresentou, na segunda-feira passada (17), um substitutivo que define como família apenas a união – estável ou casamento – entre homens e mulheres e seus descendentes. O documento estabelece também que seja incluído no currículo escolar a disciplina “Educação para família”, além da criação de Conselhos de Família e da Semana Nacional de Valorização da Família.

O projeto, apresentado em outubro de 2013, tramitou de forma incomum para temas polêmicos como este. A Mesa Diretora autorizou a criação do colegiado especial, formado majoritariamente por parlamentares conservadores e evangélicos, como Ronaldo Fonseca (Pros-DF), pastor da Assembleia de Deus. Apenas quatro são ligados aos setores mais progressistas, como as petistas Érika Kokay (DF), Iara Bernardi (SP) e Margarida Salomão (MG) e Manuela D’Ávila (PCdoB-RS). Compõe também o grupo Marco Feliciano (PSC-SP), Eurico (PSB-PE) e Jair Bolsonaro (PP-RJ).

“A realidade que temos hoje é união estável e casamento civil de pessoas do mesmo sexo, não abarcados pelo artigo 226 da Constituição Federal, mas sustentados por decisão do Suprmeo Tribunal Federal (STF) e Conselho Nacional de Justiça (CNJ), recebendo o status de família ‘homoafetiva’”, justificou o parlamentar no documento.

Em resposta, a deputada Érika Kokay garantiu resistir ao ato. “Vamos fazer uma guerrilha regimental para impedir a aprovação desta proposta fascista”, disse em entrevista.

Segundo ela, o primeiro passo foi pedir para que o projeto do Estatuto da Família, do ex-deputado Sérgio Barradas Carneiro (PT-BA), seja analisado. A autorização da Secretaria-Geral da Mesa forçaria a discussão das duas propostas e um novo calendário de discussão.

Resistente - Apesar de afirmar ter consciência das transformações sociais, Fonseca ressalta não fazer sentido proteger tais relações. “Dela não se presume reprodução conjunta e o cumprimento do papel social que faz da família ser base da sociedade”, opinou no documento.

Definidos no material como “casais de mero afeto”, os homossexuais seriam proibidos da adoção, como prevê o artigo 16 da proposta. Ela modificaria o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e tornaria indispensável que os adotantes fossem “casados civilmente ou mantenham união estável, constituída nos termos do artigo 226 da Constituição Federal, comprovada a estabilidade da família”.

O artigo constitucional reconhece para efeito da proteção do Estado “a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar”. Desse modo, o projeto do Estatuto da Família tornaria obrigatório a norma legal, ainda que não seja considerada atualmente.

Para o secretário de Educação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Toni Reis, a ação do deputado é, além de um acinte à cidadania, uma tentativa de conquistar alguns minutos de fama.

Ele, que vive em uma relação homoafetiva há 25 anos e adotou três crianças, conta que o STF interpreta esses casos com base no artigo 5º da Constituição. O texto assegura que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.

“Esta é uma cláusula pétrea e tem muito mais força que o artigo 226, utilizado pelo deputado Fonseca”, analisa.

“(O deputado) deveria preocupar-se com assuntos mais importantes, em vez de com quem as pessoas dormem”, provocou Reis.

Para ele, caso a aprovação ocorra no Congresso, a proposta será inviabilizada no Executivo. “A presidenta Dilma jamais sancionaria tal acinte e, caso o fizesse, a comunidade LGBT recorreria ao STF, que sempre se mostrou favorável ao ato”, argumenta.

Adoção no Brasil - O Cadastro Nacional de Adoção, ferramenta criada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), tem 32.854 pretendentes. Há 5.618 crianças à espera de uma família e, destas, quase a metade são classificadas como pardas e, a maioria, tem mais de cinco anos de idade.

Não há lei que autorize a adoção por casais homoafetivos, no entanto, a justifica brasileira garante o direito resguardado pelos serviços de assistência social, que define ser o melhor para a criança. A guarda única ainda é mais comum nesses casos. Nessa modalidade, apenas uma pessoa tem a adoção formalizada.

Toni Reis e seu companheiro, David Harrad, passaram por processo de sete anos para adotar os filhos.


Por Rebeca Ramos, da Agência PT de Notícias