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Antonina, Litoral do Paraná, Palestine
Petroleiro aposentado e petista no exílio, usuário dos óculos de pangloss, da gloriosa pomada belladona, da emulsão scott e das pílulas do doutor ross, considero o suflê de chuchu apenas vã tentativa de assar o ar e, erguido em retumbante sucesso físico, descobri que uma batata distraída não passa de um tubérculo desatento. Entre sinos bimbalhantes, pássaros pipilantes, vereadores esotéricos, profetas do passado e áulicos feitos na china, persigo o consenso alegórico e meus dias escorrem em relativo sossego. Comendo minhas goiabinhas regulamentares, busco a tranqüilidade siamesa e quero ser presidente por um dia para assim entender as aflições das camadas menos favorecidas pelas propinas democráticas.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

POEMA PARA A DEMOCRACIA ESTUPRADA

Não foi num beco escuro
Ou em algum ermo esquecido
Que a democracia foi estuprada
Na Câmara do Deputados
Sob comando de um gangster evangélico
Foram centenas de estupradores e estupradoras
Tangidos por deus e pela família
O estupro foi ao vivo 
A violência se deu em cadeia nacional
Violência de um veleiro destroçado nas rochas

Quando a democracia afinal quedou-se inerte
Hordas em transe acenderam fogos de artifício 
A classe mérdia gozou nas cuecas e calcinhas
A democracia estava ali espancada
O corpo marcado por hematomas
As roupas rasgadas
Mas havia festa e urros de puro êxtase
Pelo estupro da democracia

Quem mandou, democracia,
Você permitir que um metalúrgico
Retirante de pouca instrução
Pernambucano arretado
Um brasileiro inviável
Se elegesse para ser 
O maior presidente que este país já teve?
Quem você pensa ser, sua vadia?

Democracia, sua vadia, 
Você é para nosso exclusivo usufruto
Quem você pensa que é, democracia?
Quem você pensa que é, sua vadia?

Que povo de merda é esse que você quer proteger?
Quem são os negros e os brancos 
Todos quase pretos de tão pobres
Quem são os indígenas
As mulheres
Os quilombolas
O povo LGBTT
Os sem terra
Quem são os que não mais passam fome
Quem você pensa que é, democracia vadia?

Mas o estupro precisa ser didático
Agora está a ocorrer no Senado Federal 
A democracia duramente conquistada
Por homens e mulheres que deram suas vidas por ela
A democracia já não reage
Suas marcas na cara e no corpo são evidentes
Mas o estupro não tem fim
Senadores e senadoras abusam da democracia
Cospem na cara da democracia
Rasgam as já rotas vestes da democracia
Fodem a democracia
E mais uma vez a classe mérdia goza nas cuecas e calcinhas
Urra berros de êxtase gozoso e pornográfico

A culpa é sua, democracia!
Sua vadia, quem lhe deu permissão para eleger Lula?
Como você acha possível que governo de esquerda
Tenha tirado o Brasil do Mapa da Fome?
Quem você pensa ser, sua vadia?

Mas os velhos sábios de togas esvoaçantes
Provocados pela democracia
E pelos pobres índios negros mulheres gays
Lésbicas quilombolas gente de rua
Os sábios sob suas togas esvoaçantes
Proclamam que a democracia, essa vadia
Não gritou o suficiente
Não se debateu com firmeza
E merece o estupro
Que está a ser praticado a luz do dia
Com transmissão ao vivo
Estupro feito segundo as regras do estupro
Dizem os sábios togados
Infestados pela mais abjeta sarna
Que escondem sob suas togas
Que a democracia pode ser estuprada
Desde que os estupradores sigam as regras

A culpa é sua, democracia!
Sua vadia, quem lhe deu permissão para eleger Lula?
Como você acha possível que governo de esquerda
Tenha tirado o Brasil do Mapa da Fome?
Quem você pensa ser, sua vadia?

3 comentários:

Lincoln Barros de Campos disse...

Linda e triste poesia. É o paradoxo de que muitos poetas encontram em momentos de dor a inspiração. Um abraço fraterno. Não podemos desistir. Ocupar e Resistir é o que nos ensina essa maravilhosa juventude da periferia do Brasil.

Sonia Nascimento disse...

Definitivo, seu poema. Nada mais há a se dizer desse golpe.

Maihyra Marina Pombo disse...

Eu vejo o Brasil como o cenario do Ensaio sobre a cegueira do Saramago, onde os brasileiros sao os cegos...estou perplexa!